• Guilherme Purvin

A Capela do Bosque

Atualizado: 27 de abr.

- Guilherme Purvin -

Ao sair da Casa do Grito, se você descer mais uns vinte metros pela pista central do Parque da Independência, verá à sua direita o portão de entrada da Rua Leais Paulistanos.

O domingo de 24 de abril de 2022, 9h30 da manhã, estava ensolarado e eu não tinha ideia de que se tratava de uma data especial - a de comemoração da Páscoa pelos Ortodoxos, que adotam o calendário juliano.

O meu objetivo era de finalmente conhecer a misteriosa Igreja Ortodoxa Russa que estaria encravada bem no coração do parque. Misteriosa porque, tendo eu vivido por mais de vinte anos naquele bairro, jamais havia ouvido falar dela ou visto qualquer igreja. E posso dizer que minhas incursões, a pé ou de bicicleta, pelo parque, eram frequentes.

Já que havia atravessado o portão, estava supostamente fora do perímetro do parque. A Rua Leais Paulistanos é interrompida pelo portão para acesso exclusivo de pedestres. A informação de que dispunha era de que a igreja ficava no primeiro quarteirão. Encontrei apenas um portão fechado de um terreno ao longo de todo o quarteirão, até chegar à esquina da Rua Bom Pastor. Assim sendo, voltei para aquele portão, o único acesso para o interior da quadra, empurrei a tranca de ferro e entrei naquela área que supunha ser particular: estava invadindo uma propriedade.

Para a esquerda, erguia-se um caminho demarcado com tijolos de concreto e coberto com cascalho.

Embora fossem evidentes os sinais de construção civil, com montes de pedregulhos, areia e de terra removida, os fragmentos de vegetação ainda suplantavam as partes degradadas. E a subida prosseguia rumo, pensava eu, à igreja.

A partir de certo ponto, notava-se que os trabalhos de construção civil estavam interrompidos, mas a demarcação das trilhas era bastante visível. E a quantidade de árvores já bastante crescidas, proporcionando um clima ameno e refrescante.

Atravessando galpões provisórios destinados a trabalhadores da construção civil, chega-se finalmente no topo do grande terreno, que é ladeado por telhas de cimento amianto pintadas de azul ou cinza, servindo de tapume. Pelas frestas, é possível ver o bosque da Casa do Grito. Mas nada da misteriosa Igreja Ortodoxa! Apenas vestígios, no chão, da demolição de algum prédio.

Não havendo qualquer sinal da igreja, o jeito foi descer de volta ao portão de entrada. Naquele momento, uma senhora de saia e lenço na cabeça descia uma rampa do lado direito do portão, isto é, o lado oposto à trilha. Havia um automóvel estacionado ali. Pensei que fosse a proprietária do imóvel vindo dar uma bronca. Perguntei a ela onde ficava a igreja e ela respondeu: "Fica logo aqui em cima, depois da curva".

Ali estava a capela, toda branca e azul, com motivos típicos das igrejas ortodoxas russas - uma edificação graciosa, totalmente escondida por entre árvores e muros, sem absolutamente nenhuma sinalização identificando a sua localização.

Os fiéis presentes perguntaram se havia vindo para a missa e explicaram que, por se tratar de dia de Páscoa, ela só começaria às 10h30, pois antes haveria uma procissão. Graças a essa casualidade, foi possível entrar na igreja e tirar algumas fotos de seu interior.

Do lado de fora, uma placa informa a data de fundação da igreja, conhecida historicamente como a "Capela do Horto": 1892. Ou seja, trata-se de um templo com 130 anos de existência.

Uma fiel me explica que, na verdade, a missa não é rezada em russo, mas em eslavo eclesiástico, ou eslavônico, que teria forte influência grega.

Como havia já observado em postagem anterior, foi possível constatar que o quarteirão formado pelas Ruas Leais Paulistanos, Bom Pastor e Sorocabanos contém um expressivo fragmento de vegetação - exatamente onde está localizada a Igreja Ortodoxa Russa do Ipiranga - ou, se preferir, a Capela do Horto. Sua localização oficial, de acordo com a Resolução n. 10/1994, do CONPRESP, que efetuou seu tombamento, é na Rua Bom Pastor, 434, muito embora hoje o acesso só seja possível pelo portão da Rua Leais Paulistanos.

Douglas Nascimento é autor de um artigo elucidativo sobre a "Capela de Bom Jesus do Horto", isto é, da Igreja Ortodoxa Russa do Ipiranga, no qual ele nos passa várias informações sobre a história do imóvel que a circunda. Os escombros de edificação ali existentes seriam então do prédio do Instituto Bom Pastor, que o teria vendido à construtora Gafisa. O prédio foi colocado por terra e ali seria construído um conjunto de edifícios, retirando da comunidade paulistana a possibilidade de ver todo aquele bosque incorporado ao Parque da Independência.

O artigo informa que, em 2008, o então prefeito Gilberto Kassab teria desapropriado o terreno e se comprometido a incorporá-lo ao parque. Se estas informações estiverem corretas, a pergunta que se faz é: por que, decorridos 14 anos, às vésperas dos festejos do bicentenário da Independência do Brasil, nada se fez para ampliar aquele estreito bosque onde está a Casa do Grito? A imagem do Google mostra que São Paulo poderia já dispor de uma área verde muito mais significativa no Ipiranga do que a que hoje temos. E tudo o que precisaria ser feito, num primeiro momento, seria limpar o entulho de demolição, concluir o traçado das trilhas com cascalhos e derrubar os tapumes azuis e cinza que separam as duas áreas.


São Paulo, 26 de abril de 2022

Texto e fotos: (c) Guilherme Purvin


Artigos anteriores neste blog sobre o Ipiranga:

O bosque da Casa do Grito

O bosque atrás do Museu do Ipiranga

 

Guilherme Purvin é escritor e ambientalista, autor do livro de contos "Virando o Ipiranga", que pode ser adquirido pelo site da Editora Terra Redonda. Bacharel em Direito e em Letras pela USP, atualmente é Presidente do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública - IBAP.

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