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Cobras e pets

Atualizado: 5 de jan.

Guilherme José Purvin de Figueiredo





Encontro em um imóvel próximo ao Museu La Confluence o símbolo da Enfermagem: uma cobra enrolada num bastão. Nada de cruz vermelha, que exigiria a contrapartida do crescente vermelho, muito embora esteja numa cidade cristã próxima a Avignon, a sede do Catolicismo entre 1309 e 1377. Pergunto se alguém sabe a razão pela qual é utilizada a cobra como símbolo, ela que é tida como a criatura mais repulsiva na Bíblia, rastejante e com veneno mortal na boca. Ninguém sabe, só suspeitam que seja algo relacionado a cura. Em meio ao frio glacial de Lyon, é difícil imaginar a nudez de Eva:


— Larga a mão de ser bobo, Adão, e morde esta maçã!


— Dá um tempo, Eva. Espera mais uma hora, que ainda estou sem fome.


Vlad era um grande amigo, biólogo e professor de direito ambiental. Amava os animais — todos eles, sem preconceito de raça e sem instinto colonialista, isto é, sem a intenção em transformá-los em extensão da sua própria humanidade. Como todo biólogo competente, Vlad sentia-se responsável por aquilo que cativava. E um de seus cativos preferidos era uma enorme jiboia que costumava dormir escondida por detrás de seus livros no alojamento do CRUSP, que devia ser o lugar mais quentinho do Butantã. Eu diria que Vlad verdadeiramente amava aquela jiboia, mas não tinha ilusão alguma de que aquele amor um dia seria correspondido na mesma medida.


Não! Calma! Não estou preparando o caminho para propor a adoção de jiboias no lugar de dogues franceses, gatinhos e peixinhos dourados. Ofídeos não são fofinhos. Mesmo os que não são peçonhentos, certamente são gélidos e escorregadios. Se forem tratados adequadamente, de acordo com as orientações de um bom biólogo, não oferecerão risco considerável à vida humana. Essa tênue garantia não nos deve incentivar a adotar cobras.


Olho para a rua pela janela do quarto no 1º andar do Boulevard Yves Fargue e vejo sempre uma ou outra pessoa caminhando de forma irregular: dá alguns passos, pára, fica olhando para a redondeza, sem fixar a atenção em lugar nenhum. Um muro de sebe oferece um anteparo à visão abaixo dos ombros. Pelo trajeto, mais errante do que o de Dom Quixote pelo território de Espanha, não é difícil concluir que a pessoa leva o seu cãozinho para fazer cocô. Posso até ver o movimento dos lábios da pessoa: ela dirige algumas palavras ao seu pet. Não, não há nada de errado em falar com o bichinho de estimação. Se devidamente treinado, ele responderá a alguns comandos verbalizados. O perigo começa quando você supõe ser capaz de interpretar latidos e miados: "Você acha isso mesmo, Patapuf? Será que eu devo aproveitar a liquidação e comprar aquele livro do Bourdieu? E você, Leon, o que me me orienta? Marguerite Duras? Ah, Leon, você é mesmo um poeta!". Dom Quixote diria que você foi encantado/a, no que ele tem razão: Patapuf e Leon são mesmo dois cãezinhos encantadores. Em nada parecidos com o Sheik.


Quando íamos para o sítio, Marcos, Fernando e eu, no meio da madrugada, todos os cães se alarmavam e começavam a latir sem parar. A estrada sem pavimentação que ligava a pequena aldeia de Itapecerica da Serra à pedreira era tranquila e segura. A desestabilização da paz rural era causada pelos três adolescentes paulistanos que, não contentes com o alarido, ainda se punham a cantar, imitando o blues Seamus, do Pink Floyd, que acabava de sair no Brasil. Cantávamos como o cão do Pink Floyd, mas bem poderíamos ter optado pela Vida de Cachorro, dos Mutantes. Não desprezávamos o bom rock brasileiro, embora isso não nos fizesse menos colonizados culturalmente (o que é uma forma de domesticação de um povo cativo por um povo dominador).


O que estariam "dizendo" esses cães do que um dia foi uma floresta a menos de 50 km de São Paulo? Afinal, os latidos teriam alguma função comunicacional? Os especialistas dizem que sim, que latidos são sinais comunicacionais, muito embora não sejam linguagem. Expressam alerta, emoção ou vigilância, sem semântica, sintaxe ou referência abstrata. Eles agem sobre o ambiente (afugentam, alertam, coordenam), mas não “dizem” frases. Interpretá-los como linguagem humana é antropomorfização, não descrição científica.


Faz um bom tempo que não tenho animal de estimação. Já tive um casal de mandarins, o Pedro e a Mariana, dois pássaros muito bonitinhos. Quando a fêmea morreu, o macho ficou tão triste que não durou mais do que três meses, o que prova o amor entre as aves.


Lembro-me também de um peixinho dourado a quem dei o nome de Joca. Não fazia nada, só passeava de um lado para o outro de um pequeno aquário. Peixes não nos aquecem, não cantam, mas são nutritivos e, na minha opinião, muito mais simpáticos do que cobras, mesmo que seja a jiboia do Vlad. Peixinhos e passarinhos são, talvez, as espécies que mais nos obrigam a reconhecer o que é cativar, o que é aprisionar.

Tive, por fim, o Juca, um divertido cocker spaniel azul ruão, freneticamente carinhoso e maluco a ponto de mergulhar no lago da Aclimação para caçar patos. Nunca conversei com o Juca, não que eu me recorde, e duvido que um dia venha a adquirir o hábito de falar com cães, gatos, cavalos, porquinhos da índia ou coelhos. Menos ainda com plantas. Mas isso é cá comigo. Não sou dado a monólogos ou solilóquios. Quando converso, gosto de debater, ouvir pontos de vista diferentes, exercitar argumentação.


Se animais realmente conversassem, se tivessem capacidade de serem leais, honestos, consciensiosos, eu adoraria bater um papo com o Rocinante e o Rucio. Conseguiriam eles compreender lógica no trajeto traçado por Dom Quixote e Sancho Pança? O que Rucio teria experimentado por ocasião de seu rapto pelo malfeitor? E Rocinante, no episódio das bexigas da trupe de comediantes, quando saiu em disparada? Suspeito que eles participavam mais da ação do que do sentido. Cervantes foi hábil em evitar a armadilha:


"A amizade do burro e de Rocinante foi tão íntima e tão singular, que é fama, por tradição de pais a filhos, que o autor desta verdadeira história lhe consagrou capítulos especiais; mas que, para guardar a decência e decoro que a tão heróica narrativa se deve, os não chegou a inserir, ainda que às vezes se descuida de seu propósito (...)" (Dom Quixote, Livro II, Cap. XII).


Uma especialista em Direito Animal comentou que há quem considere os animais selvagens mais importantes do que os domésticos. Ela estava injuriada, pois ama os pets. Em resposta, eu disse a ela já ter ouvido alguns defensores da vida selvagem dizerem que animais domésticos são tratados como escravos dos humanos, com seus instintos carnívoros apagados por um processo similar à colonização cultural que grandes potências usam para dominar os países pobres. Citam o exemplo dos EUA e as regras da CAPES. E conclui: "Achei absurda essa comparação e, se não fosse civilizado, teria partido para as vias de fato e mordido meu contendor. Quem me conteve foi o meu cãozinho".


Sempre incorro no erro de falar alguma pataquada em grupo de pessoas distantes de meu círculo íntimo. Felizmente, um amigo de Niteroi entendeu a piada. Mas, entre os 128 "jusambientalistas", o que reinou foi um silêncio, não sei se por acharem a piada sem graça, pelo seu hermetismo, por não terem lido nada, por medida de cautela (evitar interagir comigo, que de fato muitas vezes saio, se não mordendo, pelo menos polemizando por qualquer vírgula mal colocada).


A verdade é que a mensagem não tinha nada de piada. Era uma crítica cifrada ao modo como nos deixamos colonizar culturalmente — e a referência às regras da CAPES é exemplar. Por que uma universidade é top? Por ministrar um curso em inglês? Que nos salvem Odin, Tupã, Alá e Oxossi! Abstract? Keywords? Porquoi pas un résumé et des mots-clé? Ou, como diriam no Paraguai, mbaʼérepa ndajaiporãi peteĩ ñemombyky ha ñeʼẽ ñemi?


Lula sempre se reporta ao nosso "complexo de viralata". As universidades brasileiras perseguem o ranking para se projetarem no cenário internacional. E nos esquecemos da canção de Milton Nascimento e Fernando Brant: "A novidade é que o Brasil não é só litoral / é muito mais, é muito mais que qualquer zona sul / tem gente boa espalhada por esse Brasil, / que vai fazer desse lugar um bom país!". Nos esquecemos, tragicamente nos esquecemos do que é ou do que pode vir a ser o Brasil e, domesticados pelos EUA, saímos dizendo que o melhor lugar é Guarulhos ou Galeão.


Fato é que nunca saberemos ao certo se o desenho no livro de Saint-Éxupery era o de uma jiboia digerindo um elefante ou apenas de um chapéu. O máximo a que podemos nos arriscar a dizer é que se tratou de um dos desenhos feios mais famosos da literatura infantilizada do século XX. O que não reduz o mérito de toda a restante e vasta obra desse autor tão apreciado pelos meus leitores Fermino e Mané. É o que eu penso, mas, como diria Riobaldo, pão ou pães é questão de opiniães.


Rev. em 5/1/26, 18h24, Lyon/FR.

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