Cassoulet au glyphosate
- Guilherme Purvin
- há 3 dias
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Guilherme José Purvin de Figueiredo

O acordo Mercosul–União Europeia tem repercutido fortemente na França, notadamente aqui em Lyon. Em conversas com colegas e professores da Aliança Francesa, tenho a impressão de que não apenas os agricultores, mas a maior parte da população francesa concorda que esse acordo compromete seriamente os esforços do setor agrário nacional voltados à adoção de um modelo de produção sustentável. Esse modelo, segundo os ruralistas franceses, estaria em estrita conformidade com a legislação ambiental francesa e com as normativas da União Europeia, especialmente no que se refere ao uso de agrotóxicos.
O raciocínio subjacente é claro: a não observância dessas exigências reduz drasticamente os custos de produção. Disso decorre o risco concreto de uma entrada maciça de produtos alimentícios significativamente mais baratos, oriundos do Mercosul, nas prateleiras dos supermercados, com o consequente desestímulo — quando não desprezo — aos produtos franceses elaborados em rigorosa conformidade com a legislação vigente.
A França é um dos países europeus desenvolvidos em que o setor agrário conserva peso político e econômico significativo. Não se trata, porém, de uma força comparável à do ruralismo brasileiro. No Brasil, uma bancada parlamentar fortemente alinhada aos interesses do agronegócio atua de modo sistemático no centro do poder legislativo, buscando moldar normas ambientais e sanitárias conforme seus interesses econômicos. Na França — e, de modo mais amplo, na União Europeia — vigora um arcabouço normativo rigoroso de proteção à saúde do consumidor e ao meio ambiente, relativamente resistente às pressões do setor agrário. No Mercosul, ao contrário, a formulação da legislação ambiental e sanitária permanece mais vulnerável a disputas políticas e a interesses econômicos de curto prazo, o que aprofunda o contraste percebido pelos agricultores europeus diante do acordo.
Já se estende por mais de uma década o processo de desmantelamento da legislação ambiental e de defesa do consumidor construída no Brasil, cujo apogeu se deu nos primeiros anos de vigência da Constituição Federal de 1988. Nesse contexto, para o movimento ambientalista brasileiro, impõe-se a pergunta: o acordo Mercosul–União Europeia é realmente motivo de comemoração? Tudo indica que não. Ontem, em Lyon, mais de setenta tratores ocuparam o centro da cidade em protesto convocado por sindicatos agrícolas, denunciando o risco de concorrência desleal e a ameaça à agricultura francesa submetida a rigorosas normas ambientais. Essas manifestações estão longe, é verdade, de serem caracterizadas como protestos ambientalistas. São, antes, lutas corporativas. Legítimas, sim, mas corporativas, de um setor tradicional e relevante da economia francesa.
Ainda assim, quando se considera o volume de agrotóxicos utilizados na agricultura brasileira e argentina, permanece a dúvida sobre se estaríamos, de fato, alinhados apenas aos interesses europeus ao endossar tais protestos. Não serei eu, porém, quem irá assumir o papel de crítico antipatriota neste momento de tanto júbilo do presidente Lula. Mas, que um grande volume de produtos agrícolas franceses vai sumir das gôndolas, dando lugar a produtos do Mercosul, isso é quase certo. Nesse contexto, resta saber por quanto tempo os brios patrióticos do consumidor francês serão mantidos, mesmo tendo à sua frente bananas, laranjas, feijão, arroz e picanha a preços muito mais compatíveis com a cada vez mais minguada renda da classe trabalhadora europeia. Nesse acordo, quem sai perdendo é o trabalhador rural e o consumidor, e não só o da França, mas o do Brasil, país que, em nome do agronegócio, venceu economicamente uma queda de braço, sem se adequar aos padrões de exigência ambiental e sanitária europeia. E que se dane a agroecologia brasileira, que ficou por dois anos dando bom dia e boa noite em Curitiba.
Lyon, 16/1/2026




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