Guilherme José Purvin de Figueiredo, frequentemente identificado como Guilherme Purvin, ocupa um lugar singular no panorama intelectual brasileiro porque percorre, com a mesma naturalidade, os corredores da advocacia pública, a sala de aula do direito ambiental e o território mais instável — e, por isso mesmo, mais fértil — em que literatura, teatro e ecologia se tornam instrumentos de leitura do mundo. Seu perfil público combina a tradição do jurista que escreve para formar gerações de operadores do direito com a inquietação do pesquisador que se volta, hoje, para as relações entre mineração, direitos humanos e memória histórica, numa investigação declaradamente ligada à USP.
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Esse percurso não se entende apenas pela soma de títulos acadêmicos, mas pela espessura de uma formação que começou a se desenhar muito antes da especialização técnica. Purvin ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, a tradicional "São Francisco" da USP, onde se formou em 1982. Mas os anos de graduação não foram apenas de estudo jurídico: foi também nesse período que ele revelou sua vocação para a escrita criativa e para o teatro. Integrando o Grupo de Teatro do Centro Acadêmico XI de Agosto, escreveu a peça Vamos comer pedregulhos?, encenada em 1979 e 1980 sob a direção de João Luís de Oliveira Joy, e em seguida escreveu e atuou em O fantasma de Magali Bertée, em 1980. A experiência foi suficientemente séria para levá-lo a se filiar à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, a SBAT, dando ao jovem estudante uma credencial formal como dramaturgo que ele carregaria para além dos palcos universitários.
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Nesse mesmo período de formação múltipla, Purvin criou, ao lado de Antenor Nascimento Neto, o Ponto Marginal, um jornal de humor de circulação universitária que chegou a ter oito edições entre 1978 e 1981 — semente do que viria a ser, décadas depois, uma escrita satírica sistemática.
Paralelamente ao curso de Direito, matriculou-se no curso de Graduação em Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP, que frequentou de 1980 a 1984, e onde aprofundou o contato com a linguagem da imprensa, da crônica e da reportagem.
A vocação literária apareceu cedo também fora do ambiente acadêmico: em 1986, seu conto A madrugada de Mariana foi selecionado entre aproximadamente dois mil inscritos em concurso promovido pela Editora Brasiliense, figurando na antologia Contos Jovens de 1987.
Muitos anos depois, em 2018, quando já era um jurista consagrado, Purvin completaria o círculo aberto na juventude ao concluir a graduação em Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, com habilitação em Inglês — dado que ilumina a consistência de uma trajetória intelectual que nunca abandonou as humanidades.
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A formação na área jurídica prosseguiu com o mesmo rigor. Em 1990, após sete anos de advocacia liberal, Purvin ingressou por concurso público nos quadros da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo, instituição à qual permaneceu vinculado por décadas e da qual se aposentaria mais tarde como Procurador do Estado.
Em 1993 obteve a especialização em Direito do Trabalho pela Faculdade de Direito da USP; em 1996 foi laureado com o Prêmio PGE pela monografia sobre pessoas jurídicas de direito público nas relações trabalhistas, publicada no ano seguinte pela Editora LTr com o título O Estado no Direito do Trabalho.
O mestrado em Direito do Trabalho, concluído na USP em 1998, resultou em dissertação sobre a tutela da vida e da saúde dos trabalhadores no meio ambiente laboral — trabalho que, ampliado e publicado sob o título Direito Ambiental e a Saúde dos Trabalhadores, chegaria a uma segunda edição pela mesma LTr.
O doutorado em Direito do Estado, também pela USP, foi concluído em 2002, com tese sobre a dimensão ambiental da função social da propriedade, que se tornou o livro A Propriedade no Direito Ambiental, publicado pela Editora Revista dos Tribunais e atualmente em sua quarta edição.
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A partir desse chão institucional e acadêmico, a obra jurídica de Purvin se consolidou com solidez reconhecível. Além de A Propriedade no Direito Ambiental, o título que mais amplamente o identifica como professor é o Curso de Direito Ambiental, publicado pela Revista dos Tribunais e hoje em sua sexta edição — um dos manuais de referência da área no país. Ao lado dessas obras individuais,
Purvin organizou e coautor dezenas de coletâneas jurídicas, entre as quais Direito Ambiental e Proteção dos Animais, pela Editora Letras Jurídicas, e o volume Direito Ambiental e as Funções Essenciais à Justiça, organizado em parceria com Antonio Herman Benjamin pela Revista dos Tribunais. A associação com Herman Benjamin tem peso simbólico e prático: jurista de formação central para o direito ambiental brasileiro, Benjamin ocupa a presidência do Superior Tribunal de Justiça no mandato 2024–2026. A parceria editorial entre os dois, nesse volume, reforça a vocação de Purvin para pensar o direito ambiental não como disciplina isolada, mas como campo que exige mediação institucional — Estado, Judiciário, advocacia pública, tutela coletiva — e, sobretudo, continuidade argumentativa.
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O magistério acompanhou essa produção como prática constante. Purvin lecionou Direito Processual do Trabalho na graduação em Direito da Faculdade de Direito da USP, Direito Administrativo e Direito Ambiental nos cursos de graduação e pós-graduação da Universidade São Francisco, e Direito Ambiental nos cursos de pós-graduação das Faculdades de Saúde Pública da USP, e das faculdades de Direito da PUC-SP, PUC-PR, PUC-Rio, Tancredo Neves e UniAnchieta. Além disso, é professor convidado em cursos de pós-graduação da Escola Paulista de Magistratura, do COGEAE-PUC/SP, da Escola de Advocacia Pública da PGE-SP e do NIMA-JUR/PUC-Rio. É, ainda, Diretor de Ensino de Direito Ambiental do IDPV — Instituto O Direito por um Planeta Verde, e membro da Academia Latino-Americana de Direito Ambiental, a ALADA, que o inclui entre os seus integrantes no Brasil por sua pesquisa que relaciona mineração, direitos humanos e memória histórica.
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No plano institucional, a trajetória de Purvin se confunde, em boa medida, com a própria consolidação de dois organismos centrais para o campo jurídico brasileiro. O primeiro deles é o Instituto Brasileiro de Advocacia Pública, o IBAP. Fundado como Instituto Paulista de Advocacia Pública, o IBAP realizou seu primeiro congresso em 1997, em Campos do Jordão, e desde então cresceu para se tornar referência nacional em defesa do interesse público, do Estado Democrático de Direito e dos direitos humanos. Purvin é um de seus fundadores e foi seu presidente, exercendo papel central na construção do projeto institucional que aproximou sistematicamente as carreiras jurídicas — advogados públicos e privados, magistratura, Ministério Público e Defensoria — em torno de um eixo comum de compromissos democráticos e sociais.
Ao longo dos anos, o IBAP promoveu iniciativas de relevância pública que foram além do campo estritamente técnico, como os Cursos de Promotoras Legais Populares, voltados à formação em direitos de mulheres em situação de vulnerabilidade — projeto ao qual Purvin esteve ligado desde as primeiras edições, realizadas inicialmente no Sindicato de Servidores Públicos de São Paulo. Hoje, Purvin é presidente honorário do IBAP e ocupa o cargo de diretor-secretário geral da entidade, além de coordenar o GP-ELIDA, o Grupo de Pesquisas de Ecocrítica Literária e Direito Ambiental, que representa uma das fronteiras mais inovadoras de seu trabalho atual.
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O segundo organismo com o qual seu nome se identifica historicamente é a APRODAB, a Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil. Purvin é seu sócio-fundador e foi o primeiro coordenador-geral da entidade, cargo que exerceu até 2021, quando passou a ocupar a coordenação internacional.
É também o fundador e presidente da Revista de Direito e Política, — um dos veículos de mais longa continuidade na área de direito ambiental e advocacia pública no país. Em novembro de 2025, a própria APRODAB ampliou sua colaboração com a revista, reforçando o papel de Purvin como articulador de redes interdisciplinares entre o Sul Global, a USP e entidades parceiras internacionais.
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A partir de meados da década de 2010, Purvin mergulhou com decisão crescente em uma vertente criativa que, a rigor, nunca havia abandonado: a ficção.
Em 2017, lançou pela então Editora Letras do Pensamento o seu primeiro livro individual de contos, Laboratório de Manipulação, reunindo dezessete narrativas e uma apresentação assinada pela personagem Jurema Polenta — gesto que já antecipava a ironia metalinguística que marcaria os livros seguintes.
Em 2019, veio Sambas & Polonaises, publicado pela Editora Tribo da Ilha, com xilografias do próprio autor — um trópico de cruzamentos improvável entre a música popular brasileira e a melancolia da Europa Central, entre o samba do subúrbio e a dança de salão dos países eslavos.
Em 2021, pela Editora Terra Redonda, lançou Virando o Ipiranga, terceiro volume do tríptico de coletâneas, livro que alcançou o posto de semifinalista do Prêmio Oceanos 2022, um dos mais importantes prêmios de literatura em língua portuguesa.
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Em 2023, ainda pela Terra Redonda, veio Paredes Descascadas, quarto livro de contos.
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Em 2025, lançou pela Terra Redonda seu quinto livro de contos, "Onde começa o meridiano", apresentado como uma coleção de dezoito narrativas inéditas em que o autor admite, sem pudor, o surreal, o cômico, o grotesco e o inquietante. O conto Onde começa o meridiano, publicado na Revista PUB, circula como uma das peças mais recentes de sua escrita contística, mantendo a mesma matéria-prima urbana e memorialística que percorre toda a obra — o futebol improvisado, a geografia afetiva do bairro, o olhar que registra o mundo pelo detalhe.
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Esses livros não são obras isoladas: eles se alimentam de uma produção paralela mais extensa, que inclui romances de teor ecológico e humorístico escritos em parceria com Guian de Bastos, publicados a partir de 2012, entre os quais Batalha das Libélulas, Queda de Babilônia, As aventuras de Gordinho Roy e seus sete amigos pela Mata Atlântica, Memórias de um Derrotado e Gladius Dei. Antes ainda,
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Purvin publicou um livro de crônicas intitulado Dias simplesmente perfeitos e uma coletânea de poesias chamada O charme das minas.
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Em 2019, editou e publicou o e-book de A Falência, romance de Júlia Lopes de Almeida, com apresentação sua — gesto de recuperação de uma autora da literatura brasileira do início do século XX que revela um trabalho cuidadoso de pesquisa literária.
Essa dimensão literária se aprofundou também através de iniciativas coletivas.
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No início dos anos 2000, Purvin participou da formação do grupo literário linguabrasileira, reunindo poetas, contistas, cronistas e artistas plásticos de São Paulo e de Pernambuco.
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Em 2020, durante a pandemia, criou o Laboratório Alfabético, híbrido de clube de leitura e oficina literária criado no ambiente virtual do IBAP, que reuniu autores de diferentes estados e do qual resultaram publicações coletivas e individuais.
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Foi também nesse contexto que organizou coletâneas de contos de temática ecológica, como Natureza Degradada, Colapso — prefaciada pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão — e Antropocenas, pela Editora Terra Redonda, iniciativas que articulam a ficção ao debate urgente sobre a crise ambiental e o Antropoceno.
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É dessa convergência entre direito, ecologia e literatura que nasce o campo no qual Purvin mais investe intelectualmente hoje: a Ecocrítica Literária aplicada ao magistério de Direito Ambiental. A ideia central é usar a literatura — contos, romances, narrativas de viagem, poesia — como ferramenta pedagógica e crítica para iluminar dimensões do dano ambiental, da memória histórica e do conflito territorial que os instrumentos jurídicos convencionais frequentemente não alcançam.
É por isso que seu nome aparece associado ao podcast Narrativas do Antropoceno, que ele produz e apresenta, aproximando explicitamente ecologia, cultura e crítica do presente. E é por isso também que o GP-ELIDA, o grupo de pesquisa que coordena no âmbito do IBAP, funciona como laboratório para essa fronteira entre campos que raramente dialogam com a consistência que ele busca.
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A circulação pública de Purvin como editor é parte inseparável desse projeto. A Revista PUB — Diálogos Interdisciplinares, que ele idealizou e coordena, funciona como espaço de encontro entre o direito e outras disciplinas: sociologia, política, literatura, linguística, geografia, história, artes, ecologia. No blog da revista, associados e convidados publicam análises políticas, artigos opinativos, crônicas, poemas, contos, resenhas, cartoons e fotografias artísticas — um formato que coloca a produção jurídica em contato com a vida cultural mais ampla.
O Concurso Literário da Revista PUB, que já alcançou sua quinta edição, estimula a escrita criativa entre advogados públicos, com premiações batizadas com nomes como Campos de Carvalho, Lygia Fagundes Telles, Augusto de Campos e Oduvaldo Viana Filho — revelando o mapa literário de Purvin, que transita entre o humor experimental, a ficção científica de tom marginal, o concretismo e a dramaturgia engajada.
Esse mapa tem ainda um ponto de ironia marcado com atenção especial: o pseudônimo Glautúrnio Polenta, associado aos seus escritos humorísticos. A circulação desse nome no circuito editorial e em materiais públicos reforça a existência de uma segunda máscara autoral — não para esconder a assinatura, mas para liberar uma energia satírica que, muitas vezes, a linguagem institucional não comporta. A personagem Jurema Polenta, que assina a apresentação de Laboratório de Manipulação, pertence ao mesmo universo ficcional, sugerindo que Purvin construiu, ao longo dos anos, uma família imaginária de alter egos com os quais conversa e aos quais delega as falas mais ácidas sobre o país real.
Em suma, Guilherme Purvin é um intelectual cuja obra se apoia em duas fidelidades que raramente coexistem com equilíbrio: fidelidade ao trabalho institucional de longo prazo — associações, cursos, publicações, formação de repertório técnico e defesa do interesse público — e fidelidade ao risco da linguagem, que o leva a produzir peças teatrais, contos, crônicas, romances, poesias e projetos culturais como formas de interrogar o mesmo tempo histórico que o direito tenta regular. Entre a dogmática da propriedade e o teatro social do Antropoceno, entre o manual jurídico e o conto de bairro, entre a voz pública e o pseudônimo, entre o palco universitário do Largo São Francisco e a ficção científica de bolso escrita em parceria, ele compõe uma trajetória em que a disciplina do jurista não sufoca a imaginação do escritor — e em que a imaginação do escritor devolve ao jurista uma sensibilidade rara para aquilo que, nos autos e nas leis, tende a ficar invisível.
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