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Aquilo que cativamos

Guilherme José Purvin de Figueiredo


Chegamos em Lyon no dia 27 de dezembro. Uma mudança de temperatura da ordem de cerca de 30 graus. Em que pese o fato de que nenhuma viagem de avião pode ser considerada agradável, desta vez testei um novo aparelho portátil para respiração (CPAP) e consegui alguns momentos de sono.


Lembro-me dos roncos de meu avô de madrugada, quando tirava uns dias para ficar no sítio com ele e meus amigos Fernando e Marcos. Naquela época, "roncar" era algo cômico. Todo velho roncava e isso era motivo de risos. Depois veio o CPAP para tentar resgatar noites de sono mais saudáveis, sem risco de isquemias. Mas nessa época eu já estava quase com a idade de meu avô...


Fomos recebidos pelo Eric. A Carol ficou no apartamento para que todos coubessem no veículo. O aeroporto chama-se Antoine de Saint-Éxupery, autor do famoso "O pequeno príncipe", sempre citado pelas candidatas a Miss Universo como livro de cabeceira. Lembro-me dos tempos em que colocava de oito a dez livros ao lado da cama, além de dois maços de cigarro. Era incapaz de ir dormir com tranquilidade se não tivesse pelo menos uns três livros na mesinha e um maço fechado de cigarros, que consumia em menos de cinco horas.


Houve um tempo em que eu procurava controlar o consumo de cigarros e estabelecia um intervalo obrigatório entre o último cigarro apagado e o próximo a acender: dez minutos no mínimo. Com isso, acabava conseguindo fumar apenas uns quatro ou cinco cigarros por hora.


Algo que sempre me aborrecia no Fernando era o fato dele pedir para dar uma tragada no meu cigarro. Em primeiro lugar, ele babava; ademais, tragava com tanta ânsia que o filtro ficava espremido, inutilizado. Era uma época em que cada um tinha controle sobre seus próprios cigarros. Não era costume dar cigarros aos amigos. Cada um sustentava seu próprio vício.


Uma vez apareceu o livro "O pequeno príncipe" na casa da dona Nica, nossa vizinha. Ela disse que era um livro muito difícil. Ninguém sabia ao certo do que se tratava, a não ser que era o livro da moda e falava de um menino solitário vivendo num asteróide. Algumas frases circulavam, pérolas de sabedoria filosófica como "tu te tornas responsável por aquilo que cativas". Eu, que não tinha a menor habilidade com o tuteio, que não guardava o menor senso de responsabilidade pelo que fosse e que só devia ter lido a palavra "cativeiro" em algum livro do José de Alencar, associava a frase com aquelas garotas muito altas e sorridentes de maiô.


Se você aceita criar laços de afeto com alguém ao longo do tempo torna-se responsável pela pessoa que se afeiçoou por você. Este deve ser, possivelmente, o significado da frase. No entanto, o próprio verbo "cativar" já é horrível - lembra escravizar, colocar em cativeiro, domesticar. Estimamos cãezinhos, cativamos gatos. Não humanos.


Lembro-me de que havia também desenhos no livrinho "difícil" da dona Nica. Um deles era o de um elefante devorado por uma jibóia. Não sei se elefantes são domesticáveis. Sei apenas que até umas décadas atrás havia elefantes em circos, mas aí começou a campanha "circo legal é circo sem animal", onde só é permitida exploração humana. Animais são poupados porque, como dizem por aí, são "leais".


Lealdade é fidelidade consciente a alguém, é vínculo, a um compromisso ou a um conjunto de valores. Cães são ditos animais fiéis, pois cumprem algo parecido com um compromisso assumido. Se um estranho vier todos os dias ao quintal de minha casa e entregar ao meu cãozinho um saboroso filé mignon, ainda assim ele não cairá em tentação. Continuará fiel a mim, comendo a ração indicada pela veterinária. Ao menos é o que afirmam os antropormofizadores de sentimentos caninos.


Gostamos dos animais porque são fiéis. Gostamos de exercer o domínio sobre eles. Somos responsáveis pelo que cativamos, mas não pelo vício tabagístico do amigo adolescente que não tem dinheiro para comprar MInister e fuma Arizona ou Continental sem filtro.


O Fernando tinha um cachorro muito bravo, o Sheik. Era tão furioso que atacava a toda a família. O medo deles era tão grande que tinham que empurrar o prato de comida com um rodo, pena de levarem uma mordida. Quando meu pai comprou o sítio, meu avô disse que era bom termos um cão muito bravo para proteger a casa, que ficava no meio da floresta, a mais de 10 km da cidade mais próxima, por uma estradinha de terra. Foi quando a mãe do Fernando resolveu propor que levassem o Sheik. Meu avô achou ótima a proposta, em que pesassem todos os antecedentes caninos. Era dezembro de 1972. Em meados de fevereiro, fui visitar o sítio com o Fernando. Sheik continuava feroz como um gárgula, guardião das profundezas do inferno. No entanto, diante de meu avô, vinha com o rabo entre as pernas, cabisbaixo, pedir arroz marinheiro e buxo cozido e, se possível, um pouco de carinho. Havia se tornado um cão leal, um policial que vigiaria por muitos anos a casa no sítio.


Faz um frio do cão em Lyon, mas não neva. A temperatura oscila entre cinco negativos e três positivos. Logo de cara apanho uma gripe que torna inviável o uso do CPAP, pois tenho que respirar com a boca. Espero me recuperar rapidamente, para que ao menos consiga continuar a leitura de Dom Quixote e de seu leal escudeiro Sancho Pança, o primeiro em sua incessante luta contra a injustiça e os malfeitos, o outro à espera de uma ilha para governar - ou de um prato de comida. Sancho acredita na palavra de Quixote, mesmo que toda a realidade o contradiga, mas até agora ninguém apareceu à sua frente com a proposta de um prato de filé.


Os dois buldogues franceses da Carol, Patapuf e Leon, roncam abraçados no sofá. Passam o dia dormindo, a não ser quando comem algo e quando os levam para baixo para fazerem cocô. É quase uma hibernação, que me faz lembrar dos desenhos do Zé Colmeia e Catatau, que bem poderiam ser o Dom Quixote e o Sancho Pança da turma de Hannah-Barbera. Ou, pensando melhor, eram dois Sanchos Pança, só preocupados em filar sanduíches dos turistas. Essa ideia de ursinhos carinhosos vem da mitologia estadunidense. Ursos hibernam e comem. Carne. Durante treze anos, o casal Timothy Treadwell e Amie Huguenard acreditou ter criado uma relação especial de amizade profunda com ursos pardos no Parque Nacional de Katmai, no sudoeste do Alasca. Até que certa vez voltaram ao local no fim da temporada, quando os animais estão famintos. Não deu outra: os ursinhos carinhosos foram implacáveis e devoraram o casal.


Animais não são leais nem desleais. Eles não traem e nem mentem. Eles agem por instinto e, se num momento são mansos, isso não é gratidão ou pacto moral. Quando estiverem famintos, quando seu território estiver sendo invadido, quando se sentirem ameaçados, lutarão. Projetar valores humanos na natureza é fofinho, mas estúpido.


Lyon, 2 de janeiro de 2026



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