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  • Guilherme Purvin

Diferenças entre São Tomé e Príncipe

Guilherme Purvin



Pintura exposta no Hotel Pestana São Tomé. Obs: identificar autor do quadro.

Doze horas de barco ou meia hora de avião separam a ilha de São Tomé da de Príncipe, distantes menos de 150 km uma da outra. Ao sul, São Tomé está diante do Gabão. Ao norte, Príncipe encontra-se na linha da Guinea Equatorial. Na mesma região do Golfo da Guinea, encontram-se duas outras ilhas, Malabo, e Ano-Bom (Annobón), ao sul de São Tomé, que pertencem à Guinea Equatorial. Assim, em termos geográficos, é curioso que estas duas ilhas tenham permanecido sob o domínio português e conquistado sua independência, quando sabemos que encontram-se entre duas outras ilhas pertencentes a um país que foi colonizado por espanhóis e que não se tornaram independentes. Aliás, a Guinea Equatorial hoje também integra a CPLP na condição de membro de pleno direito desde 23 de julho de 2014. Na ilha de Ano-Bom, fala-se o Fá d'Ambô, uma língua crioula de base lexical portuguesa.


Os habitantes das duas ilhas concordam que em Príncipe o respeito ao meio ambiente é muito maior do que em São Tomé. Não se trata apenas de preservação da natureza, mas também de limpeza e reciclagem. Há algumas explicações óbvias para essa diferença. Uma delas é o tamanho das populações. Embora não haja um censo demográfico preciso, calcula-se que não chegue a 10 mil pessoas em Príncipe, que tem uma área de 142 km2. Já São Tomé, com seus 859 km2, conta com mais de 200 mil habitantes. Comparativamente, a densidade demográfica de São Tomé é, portanto, de cerca de 232 hab./km2, enquanto em Príncipe é de 63 hab./km2.


Outro aspecto relevante é o fato de que os produtos industrializados cheguem à ilha de Príncipe em muito menor volume e a preços bem mais elevados, devido ao custo do transporte. Isso, naturalmente, gera menos resíduos sólidos (embalagens, garrafas etc). A poluição é causada sobretudo pela queima de combustível. A energia elétrica é produzida por óleo diesel (gasóleo).


O caráter do povo de São Tomé e Príncipe é o que há de mais encantador: em sua imensa maioria são muito gentis e educados. Pode-se caminhar pelas ruas, movimentadas ou desertas, sem medo. O único incômodo eventual é o assédio de vendedores de artesanato que, por vezes, chega a ser exasperador, obrigando-nos a responder com certa secura. Caso contrário, você poderá cair na lábia de um vendedor mais insistente que vem gritando de longe "primo! primo!" e, ao final, acabar desembolsando 20 euros por uma peça tosca de madeira que, em outro recanto, estaria a venda por 2 euros. Tudo para se desvencilhar do assediador. Para compensar o estrago, consegui uma entrevista com o vendedor, que pretendo editar para uma série que estou planejando no novo podcast MEL - Música, Ecologia e Literatura a respeito de São Tomé e Príncipe.


Foto: (c) Guilherme Purvin

Assim, o mais recomendável é que você saia para a rua só com o dinheiro contado para as suas refeições (ou com seu cartão de crédito internacional, que é aceito em alguns restaurantes). Isso acontece mais em São Tomé, que é uma cidade. Em Príncipe, há alguns vendedores nos pontos turísticos mais procurados, mas nada tão intenso como na capital do país.


Há também muitas crianças pedindo que você lhes pague uma refeição. Nesse caso, é fome mesmo: ao contrário do que acontece no Brasil, a criança vai com você até um bar e come com gosto uma coxa de frango assada na brasa ou uma banana.


Não sei se a influência da cultura caboverdiana é realmente mais intensa em Príncipe do que em São Tomé. A distância é irrelevante: embora esteja um pouco mais ao norte e, portanto, mais próximo de Cabo Verde, o imigrante teria necessariamente que passar antes por São Tomé, já que o pequeno aeroporto de Príncipe não comporta voos internacionais. Pode, claro, acontecer de se formarem pequenas comunidades de descendentes de caboverdianos em Príncipe, que preservam o crioulo caboverdiano como língua materna. No entanto, tivemos a surpresa de ouvir a canção "Sodade", que se tornou mundialmente conhecida na voz da caboverdiana Cesária Évora, na noite de sexta-feira, durante o jantar no Hotel Pestana São Tomé.



O esforço dos hotéis em oferecer jantares diferenciados é visível. Em Príncipe, por exemplo, os jantares eram itinerantes: uma noite no restaurante, outra no quiosque à beira da piscina, no último dia mais distante, num mirador da Praia da Banana. E, na maior parte das vezes, era oferecida aos turistas atração musical. No vídeo a seguir, uma apresentação do grupo de um cantor chamado Arton (ou Warton), no Hotel Roça Belo Monte:



Em São Tomé, embora não haja espaços diferentes para a realização dos jantares (tudo acontece no terraço defronte ao mar, ao lado da piscina), a estrutura é mais profissional, com a apresentação até mesmo de danças folclóricas.



Em resumo, o que Príncipe ganha em matéria de turismo ecológico e limpeza, São Tomé oferece em atrações culturais da região e numa relativa variedade de restaurantes. Em comum, a honestidade da população e a grande variedade de frutas (jacas, ananás, mangas, mamão, maçã, banana, carambola). Há também um detalhe interessante que acabou surpreendendo: viemos com dois tubos de repelentes de insetos, mas não estão sendo necessários. Não sei se é por causa da época do ano, mas de fato não vimos mosquitos, moscas ou pernilongos em nenhuma das ilhas.


São Tomé, 14/1/2024

Guilherme Purvin

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