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O Mar do Aral na Literatura

Imagens aéreas do Mar do Aral em 1989 e em 2008. Por NASA, derivative work by Zafiroblue05 at en.wikipedia - 1989: earthobservatory.nasa.gov, aral sea 1989 250mFile:Aral Sea 05 October 2008.jpg, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5957380
Imagens aéreas do Mar do Aral em 1989 e em 2008. Por NASA, derivative work by Zafiroblue05 at en.wikipedia - 1989: earthobservatory.nasa.gov, aral sea 1989 250mFile:Aral Sea 05 October 2008.jpg, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5957380

Excertos do romance МЕРТВЫЕ БРОДЯТ В ПЕСК, publicado no Cazaquistão em 1986. Original em russo. Tradução livre para fins exclusivamente didáticos. A divulgação deste material para fora dos limites do Curso sobre Literatura e Ecologia promovido pela FFLCH-USP e PROLAM é expressamente proibida.

Uma versão em inglês deste livro está disponível gratuitamente na Amazon para os assinantes do plano Kindle Unlimited. Link aqui.


Os mortos vagueiam nas areias

Rollan Seisenbayev (1)


Prólogo

1968


Aqui, próximo à aldeia de Karaoi, o rio Syr Darya se alarga, turbilhona ruidosamente e espirra em suas margens, transformando-se em uma espuma fulva. (2) Quem quer que esteja em sua beira pode sentir a alegria do rio. Aqui, afinal, junto a Karaoi, depois de longos dias rastejando pelas areias abrasadoras, sufocando e perdendo a esperança de alcançar o mar, ela de repente pressente o seu rumor distante e estremece de volta à vida em puro deleite — e corre para encontrá-lo, fiel e devotada, como faz há milhares e milhares de anos.


Mas qualquer pessoa que esteja na beira não pode deixar de notar outra coisa. Perceberá que, ao longo dos anos, o rio foi diminuindo lenta mas inexoravelmente, o seu leito se tornou mais raso, suas margens, desmoronadas. E pode refletir sobre isso por um instante e sentir tristeza no coração.


Assim estava o jovem professor de geografia, à margem, contemplando com pesar o rio. Sim, ele encolhia. Longe, em seus altos cursos, as fábricas erigidas nos últimos anos às margens do rio haviam-lhe sugado a água com avidez. E, mais abaixo, à medida que se torcia pelo deserto, suas águas eram despejadas nas vastas plantações de algodão e arroz que se estendiam por ambos os lados... Se continuar assim, o Syr Darya logo será bebido até a última gota. Deixará de levar suas águas ao mar. Morrerá. E se o rio morrer, o mar também morrerá. E se o mar morrer, então morrerão os pescadores, os camponeses e os pastores que vivem em suas margens. Os auls, suas antigas aldeias, se desfazerão em pó.


Era difícil para Zhalelkhan imaginar, mas poderia acontecer. Ele lecionava havia três anos em Karaoi, para onde viera logo após a graduação. Nesses três anos, reunira ao seu redor um pequeno círculo de alunos entusiasmados de geografia e frequentemente os levava em excursões de campo. No verão passado, haviam subido o Amu Darya. Naquele ano, caminhavam ao longo do Syr Darya.


Tinham andado o dia inteiro, e só ao entardecer Zhalelkhan finalmente chamou: “Está bem, pessoal. Hora de parar.” A fumaça subia da fogueira enquanto o pequeno grupo preparava a ceia — precedida por um mergulho coletivo no rio fresco. Depois do jantar, como já era hábito nessas caminhadas, alguém tocou violão, e algumas das crianças, exaustas da longa jornada, adormeceram. Então o professor, remexendo a fogueira com um graveto, perguntou:


“Vocês sabiam que, em toda a história, foram raríssimos os grandes governantes que não se encontraram às margens do Syr Darya?”


As crianças se calaram, expectantes. O sol carmesim já havia mergulhado por trás das dunas, e a penumbra se espalhava. Esquilos-da-estepe corriam pelo campo, perseguidos por raposas.


“Há cerca de dois mil e quinhentos anos, estas estepes eram a pátria do feroz povo saka. O rei persa Ciro, o Grande, veio aqui para conquistá-los. Mas a terra natal era preciosa para os sakas, e eles derrotaram os persas e fizeram Ciro prisioneiro.”


A voz suave do professor mantinha as crianças absortas. E não apenas as crianças. Sua jovem colega Zhadyra, recém-formada, ouvia com a intensidade tímida e juvenil que revelava seus crescentes sentimentos por ele.


— Os saka eram uma tribo extraordinária. As mulheres dominavam tudo. Os homens eram governados pelas mulheres e veneravam seus espíritos. Depois da captura de Ciro, sua rainha, Tomíris, ordenou a seus guerreiros que lhe cortassem a cabeça e a mergulhassem em um odre cheio de sangue. “Tinhas sede de sangue, Ciro?”, ela gritou. “Então sacia-te dele!” Em seguida, os guerreiros amarraram bem o odre e o lançaram no Syr Darya. Vale a pena ler as histórias de Heródoto — essa lenda está lá.


— E depois de Ciro, Dario tomou o trono da Pérsia. Reuniu um imenso exército e decidiu conquistar os citas, como chamamos agora os saka. Os citas recuaram e, enquanto o faziam, queimavam tudo atrás de si e destruíam todos os poços. Dario desafiou-os a se deter e lutar. Mas, em vez de responder diretamente, o rei cita Idantirso enviou presentes aos persas: um pássaro de asas velozes, um rato, um sapo e cinco flechas.


— “Os citas estão pedindo clemência!” — exultou Dario. Mas seu sábio comandante Garil explicou: “Ó, todo-poderoso Dario! Com esses presentes, eles dizem: ‘Persas, voai como pássaros, correi como ratos, saltais como sapos por nossos pântanos, longe da nossa terra! Caso contrário, a morte pelas flechas citas vos espera!’”. E Dario deixou de imediato as terras citas.


— Durante essa campanha, porém, Dario mandou arrancar os olhos do bravo guerreiro Imanbek, que viera pedir ao rei a libertação de seu amigo cativo. Imanbek perdeu os olhos, mas libertou o amigo. Assim, Dario compreendeu que tal povo, tal tribo, jamais inclinaria a cabeça diante de ninguém. O cego Imanbek viveu às margens do Syr Darya e se tornou músico, curandeiro, profeta e poeta.


O menino Omash, do sétimo ano, exclamou:


— Meu avô me dizia que o túmulo do Santo Imanbek ainda existe!


— Existe, sim. Antigamente, as pessoas viajavam até lá para se inclinar diante do santuário do santo Imanbek — e dizia-se que curava os enfermos. Agora, fica em Baikonur e é impossível chegar até lá.


Omash fitou na direção em que imaginava estar Baikonur e se pôs a pensar. Uma linha do poente carmesim riscava o alto das dunas distantes, e ele a imaginava como um vasto exército persa, com os capacetes de ferro transformados em cobre pelo céu. O ar soava com o zumbido de vozes, o tilintar de espadas e o estrépito das lanças...


— Mais tarde, no século III ou IV, estas terras foram dominadas pelos Caganatos túrquicos.


— Professor! — lembrou Omash. — O senhor prometeu nos ler poemas.


— Dos guerreiros dos Caganatos? Fica para outra vez... — Ele se calou, e então perguntou: — Omash, sabes dizer-me: o que é o homem?


— Eu? — o menino ficou atrapalhado e deixou escapar a primeira coisa que lhe veio à cabeça. — O homem... é orgulhoso!


Todos começaram a rir.


— Isso é verdade, claro. Mas o que você mesmo pensa?


Omash permaneceu em silêncio, incapaz de encontrar as palavras certas.


— O homem é o início da vida inteligente — disse Zhalelkhan. — Só o homem possui mente. Mas é isso também que o torna perigoso. O conhecimento humano pode se tornar uma terrível força destrutiva.


— Como? — perguntaram as crianças, perplexas.


O professor ficou em silêncio, depois suspirou. — Às vezes, me parece que o ser humano é o grande erro da Natureza.


As crianças se entreolharam nervosamente.


— Porque o homem desafia a Natureza, a mãe que lhe deu a vida.


Zhadyra jogou a cabeça para trás e respondeu com uma sinceridade desafiadora:


— Subjugar a Natureza, dobrá-la à nossa vontade — não é esse o nosso destino?


Zhalelkhan sorriu tristemente.


— Não, Zhadyra. Não em essência. A Natureza deve ser amada, não subjugada e conquistada. Isso não é possível. A Natureza tomará uma dura vingança contra o homem por sua interferência.


Zhadyra olhou para ele sem compreender.


— Mas esse é um tema para debate sério, e falaremos sobre isso um dia. Só me ocorreu porque percebi que os juncos estão ralos e o rio, raso... Enfim, é hora de dormir!


— E os poemas? — clamaram as crianças.


— Professor, por que o nosso exército entrou na Tchecoslováquia? — perguntou Omash de repente.


— Porque os tchecos queriam derrubar o socialismo! — gritaram todos.


— E o que você pensa disso, Omash? — Zhalelkhan o olhou, curioso. Gostava particularmente de Omash por sua franqueza e seu espírito já quase adulto.


— Eu não gosto de violência — respondeu o menino, baixinho.


— Nem eu.


— Leia os poemas para nós, Zhalelkhan — pediu Zhadyra.


Ele sorriu para ela em agradecimento por aliviar a tensão, fosse de propósito ou não.


— Está bem. Vocês me convenceram.


Acautelai-vos, ó sábios, deste mundo terrível, acautelai-vos.

Acautelai-vos, ó tolos, do demônio humano, acautelai-vos.

Aqui, a morte é soberana. Aqui reina o caos.

A opressão é o herói; a duplicidade, a senhora.

Aqui, a ordem é impossível. E a justiça é invisível.

A bondade é raridade; a saúde, sempre frágil.

O morcego ainda guerreia contra o dia; mariposas fogem da chama da vela.

Vós destes armas aos bárbaros, mutilastes cérebros,

Entregastes leões às formigas para a destruição: é essa a tua justiça, mundo?

Permitistes que moscas derrotassem elefantes: é essa a tua equidade, vida?


Omash ficou deitado de olhos abertos por muito tempo. Quantas estrelas havia no céu! Como pareciam próximas! Era como se bastasse chamá-las, e elas se desprenderiam e cairiam no chão como uma chuva prateada.


Na aldeia, o cão da louca Kyzbala sentou-se no meio do pátio, ergueu a cabeça e uivou. Um uivo sinistro. Um presságio não apenas de uma morte, mas de dez. Em Karaoi, os cães que normalmente reagiam até ao mais leve som se calaram, tomados de medo, como se o cão da louca Kyzbala estivesse enterrando não apenas pessoas, mas todas as criaturas vivas do mundo.


No alto de uma colina arenosa perto do mar, um lobo macho ergueu a cabeça e uivou. Uma loba e seus filhotes juntaram-se a ele. Mas logo também se calaram e correram colina abaixo, em direção ao distante Balkhash...


Enquanto isso, bandos de antílopes saiga passaram em disparada por Karaoi. Um... dois... três... Correndo de cabeça baixa, fugiam sem olhar para trás, voando em direção a Balkhash também.


As pessoas do aul ainda dormiam, alheias à agitação na estepe que punha tudo em movimento. Por fim, os cães captaram o cheiro da noite agitada. Um após outro, cheiraram, escutaram e começaram a latir. Um latido. Depois outro. Até que, finalmente, seus latidos se avolumaram e se fundiram num único e imenso uivo lúgubre. O povo despertou e correu para fora, e logo todo Karaoi estava de pé.


O velho pescador Nasyr lançou um chapan leve sobre os ombros e saiu à rua. Além da forja, viu as saigas correndo em fluxo contínuo e se perguntou o que as teria assustado. Um pressentimento sombrio tocou seu coração. Rezou para que nada tivesse acontecido a Omash. Afinal, Zhalelkhan era professor, mas ainda inexperiente e imaturo. Veja só no que se meteram: caminhar todo o trajeto ao longo do Syr Darya até Tashkent.


Omash despertou, sentindo-se mal. Tentou se levantar e caminhar até a margem do rio para vomitar. Mas não conseguiu. Apenas ergueu o corpo até a metade, antes de tombar de volta e perder a consciência.


Zhalelkhan tremia. Gemeu baixinho. Sua cabeça latejava com uma dor lancinante, como se fosse se partir em duas. Tentou ficar de pé, mas seu corpo estava mole como algodão. Esforçou-se para virar de lado e então vomitou. Isso lhe trouxe algum alívio. Sentou-se e olhou em volta.


Todos os dezessete alunos estavam lá — exceto Omash. O dia já despontava. O professor estendeu a mão para a chaleira a fim de tomar um gole de água, mas tornou a vomitar. Então viu Omash caído de bruços. Zhalelkhan ergueu a cabeça do garoto, mas ele estava inconsciente. Apressado, acordou as crianças. Nenhuma conseguia ficar de pé. Gemiam, tentavam se levantar e logo tombavam como se derrubadas por um golpe invisível. Zhadyra abriu os olhos. Zhalelkhan disse-lhe:


— Acho que fomos envenenados.


Lutando contra a dor terrível na cabeça, Zhalelkhan cambaleou em direção à cabana do chaban, a um quarto de milha dali, por trás da duna. Lá deveria haver alguém, alguém que pudesse ajudá-los... Se ao menos conseguisse chegar, se ao menos pudesse avisar...


De repente, viu as cobras.


Eram centenas, milhares. O chão da estepe se contorcia e cintilava à luz do sol nascente — um tapete vivo e faiscante. Mas as serpentes não davam atenção ao homem que tropeçava exausto entre elas. A avalanche sibilante deslizava para longe do rio, em direção ao deserto.


Zhalelkhan aproximou-se da cabana do chaban. Pressentindo as cobras, os cavalos relincharam e sacudiram as cabeças, tomados de medo. O garanhão, preso a um poste no centro do pátio, disparava em círculos, bufando e empinando.


Por mais que batesse à porta, ninguém respondeu. Será que o chaban também teria sido envenenado? Então lhe ocorreu, de repente. Era a água do rio... a água do Syr Darya.


Ele alcançou o garanhão. Então seu corpo estremeceu em convulsões, e ele vomitou violentamente. O cavalo recuou, afastando-se do fedor nauseante. Zhalelkhan estendeu a mão para o cabresto, mas o animal o repeliu com um safanão.


Com enorme esforço, o professor montou o cavalo relutante. — É preciso avisar... tenho que avisar... — murmurava febrilmente.


Ele galopou em direção à estrada, enquanto as cobras se espalhavam sob os cascos, silvando e se enroscando.


Kakharman Nasyrov, chefe das pescarias locais, havia se levantado mais cedo do que de costume naquela manhã. Naquele momento, seguia apressado em direção ao escritório do oblast regional. (3)


— O que é aquilo! — gritou o motorista, apavorado, freando bruscamente ao ver uma imensa fita de serpentes atravessando a estrada diante deles.


— Deixe que passem — acalmou Kakharman, irritado. Olhou para o relógio.


— Mas são tantas, Kakharman-aga! Olhe! Vai levar o dia inteiro.


— O que as pôs em movimento desse jeito? — perguntou Kakharman, intrigado.


— Veja, um cavaleiro! — apontou o motorista. O cavaleiro acenava desesperadamente e gritava, mas não conseguiam entender as palavras. — É Zhalelkhan!


— As crianças! — bradou Zhalelkhan, já próximo. — As crianças foram envenenadas... As crianças...


Kakharman saltou do carro, ajudou o professor a descer do cavalo e o colocou dentro do automóvel.


— Ao oblast! — gritou para o motorista, enquanto corria de volta ao cavalo. — Avise-os no oblast!


E partiu velozmente em direção ao rio.


Omash estava em delírio. Recuperava a consciência apenas por breves instantes. Abriu os olhos, viu as cobras se aproximando, e desmaiou de terror. Ao redor, algumas crianças se contorciam em agonia, outras gemiam baixinho, enquanto algumas ainda tentavam se erguer. Mas as serpentes não se aproximavam delas: deslizavam rápidas em direção às areias.


— Omash!


— Papai! — murmurou Omash, esboçando um sorriso frágil. — Eu não quero morrer...


— Você não vai morrer, filho... você não vai morrer...


Kakharman ergueu o filho nos braços. Acolheu-o contra o peito enquanto as cobras se arrastavam ao redor. Parecia-lhe que o rio transbordara de suas margens, soltando uma enchente dessas criaturas vis para declarar guerra à raça humana.


Mas era mais simples do que isso. Simples demais. Embora Kakharman ainda não soubesse, no dia anterior uma fábrica química nas altas margens do Syr Darya havia despejado no rio um desfolhante japonês especialmente tóxico. Dezessete crianças e dois professores de Karaoi, o chaban e sua família, tornaram-se as primeiras vítimas da catástrofe de Sinemorye. (4)


Kakharman permaneceu parado, com o filho morto nos braços, sem entender por que ele estava morto.


Assim como não sabia que peixes mortos eram levados às margens por todo o curso do rio. Que já começavam a apodrecer. Que o cheiro, o fedor pútrido, se erguia do rio e lançava ao desespero qualquer um que permanecesse à sua beira...


Notas:

(1) Rollan Seisenbayev (n. 1948, Semey, Cazaquistão) é escritor, poeta e dramaturgo cazaque, conhecido internacionalmente por sua prosa marcada pelo engajamento social e ambiental. Formado em engenharia, tornou-se figura ativa da vida cultural soviética a partir dos anos 1970. Sua obra mais célebre, Os mortos vagueiam nas areias (1989), denuncia a catástrofe ecológica do Mar de Aral, transformando em ficção o sofrimento humano diante do colapso ambiental. Também publicou poesia, ensaios e peças teatrais, explorando identidade nacional, memória coletiva e os impactos da modernidade sobre o povo cazaque. Traduzido para várias línguas, é considerado uma das vozes mais importantes da literatura cazaque contemporânea, unindo crítica política e reflexão humanista.

(2) A região do romance é a bacia endorreica do Mar de Aral, alimentada pelos rios Amu Dária (Pamir/Tian Shan → sul) e Syr Dária (Tian Shan → norte). Já havia irrigação pré-soviética, mas, a partir dos anos 1960, projetos soviéticos desviaram maciçamente as vazões para algodão e arroz, reduzindo drasticamente o afluxo ao Aral. Entre 1960–1990, a área do Aral caiu ~40% e o volume ~60%; a salinidade saltou, colapsando a pesca e expondo leitos salinos ao vento, que dispersam poeiras tóxicas. A literatura técnica identifica a expansão da irrigação como causa dominante da dessecagem; poluentes agrícolas/industriais agravaram os impactos na saúde. No norte, o Cazaquistão ergueu a barragem Kok-Aral (2005) e executou o projeto Syr Darya Control & Northern Aral Sea, elevando níveis d’água e permitindo a volta de espécies e da pesca local. Hoje, a recuperação parcial do Aral Norte contrasta com a persistente crise no Aral Sul, ainda dependente de usos intensivos de água a montante.

(3) Ir à oblast (область), neste contexto, significa ir à sede administrativa regional.

(4) O episódio do “desfolhante japonês” despejado no Syr Darya, narrado por Rollan Seisenbayev em Os mortos vagueiam nas areias, não corresponde a um acidente histórico documentado. Trata-se de recurso literário: o autor condensa em um desastre súbito a longa crise ambiental e sanitária do Mar de Aral. Na realidade, o que ocorreu foi um processo cumulativo: desvio maciço de águas para irrigação, aumento da salinidade e uso intensivo de pesticidas e desfolhantes no cultivo de algodão, que contaminaram solos, rios e populações. Assim, a cena é ficcional, mas fundamentada em problemas reais da Ásia Central soviética, e deve ser lida como metáfora da degradação ambiental que se abateu sobre a região.





LIVRO UM


Por muitos anos, até a cheia do ano passado, o mar secou, e a praia transformou-se em deserto.

— Deus egípcio Amon ensinando seu filho, Khonsu, no século XX a.C.


Um dia procura pelos homens do desastre.

— Cartas morais de Sêneca a Lucílio, c. século IV a.C.


Se o cavaleiro está em apuros, ele cruza o rio com botas; se o cavalo está em apuros, ele beberá água pela embocadura.

— Provérbio cazaque


I


O velho pescador Nasyr mal conseguia dormir. Virava-se em sua cama dura, suspirando e murmurando palavras ininteligíveis. Os velhos dormem mal e pouco, perturbados pelas lembranças.


Mas quem pensar que o sono de Nasyr era perturbado apenas pelos incômodos da velhice estaria enganado. Nasyr era incomumente robusto e musculoso — um velho que não havia envelhecido. Apenas as rugas profundamente gravadas em seu rosto moreno e de maçãs salientes testemunhavam seus muitos anos neste mundo. Seus olhos vívidos olhavam o mundo com uma franqueza independente. Como muitos dali, era taciturno, reservado e decidido. Mas, se alguém conseguia arrancar-lhe uma conversa, de repente se revelava um contador de histórias fascinante. Narrava bem lendas e mitos populares. Sua voz adquiria um tom inesperado de autoridade. Nesses momentos, ninguém ousava interrompê-lo, adivinhando corretamente que isso o ofenderia.


Logo após a guerra, o kolkhoz (fazenda coletiva) de pescadores de Kokteniz-Sinemorye foi reativado, e o pescador Nasyr tornou-se seu presidente. A guerra deixara-lhe cicatrizes, mas, com coragem, voltou a conduzir os pescadores ao mar.


Que pescadores eram esses? Mutilados que regressavam da frente, viúvas de guerra e jovens órfãos.


E o mar respondeu à equipe de Nasyr com bondade: os peixes enchiam as redes remendadas dos kolkhozniki (os agricultores/pescadores coletivos). E, embora a vida fosse dura naquele tempo, o povo não se desesperava. Sabia que da desgraça à felicidade havia apenas um passo. Podia-se estar ferido hoje e curado amanhã...


Mas agora? Era como se a sorte e o infortúnio tivessem trocado de lugar. Como se o mar tivesse decidido atormentar o velho Nasyr ao se aproximar do fim da vida. Como se não quisesse permitir que o homem que o amara com tanta fidelidade e devoção durante toda a existência tivesse uma morte tranquila e honesta. Como se quisesse vingar-se nele pelos pecados de toda a humanidade. O mar estava morrendo. O homem lhe trouxera dores demais. Ele morria, e não concederia ao velho Nasyr um fim sossegado.


Por algum tempo, os pensamentos do velho pescador nadaram em círculos. Cochilava e despertava, fechava os olhos e os abria, mas continuava a pensar sempre na mesma coisa. Quando a natureza é ferida, ela revida. Quantas montanhas desapareceram da face da Terra e quantas se ergueram novamente desde o dia da criação? Quantos mares? E os rios e córregos? E quantos lares humanos foram sepultados sob cinzas, e ainda assim reconstruídos? A natureza precisa que isso aconteça. A natureza, e só a natureza, sabe por quê.


Que tolo o Homem descendente de Adão e Eva! Quão insensato e arrogante. Há muito deixou de respeitar a Natureza como mãe e passou a forçá-la à sua vontade, atacando-a vez após vez, de forma ignorante e irreparável, com violência crescente. E mesmo sendo paciente e benevolente, como uma mãe com seu filho rebelde, agora ela se vingava de sua insensatez e crueldade.


De fato, dizem que Deus abençoou o Homem com uma vida de paz e com inteligência. Não criou Ele as pessoas à sua imagem e não lhes disse: “vivei, e vossos descendentes se espalharão pela terra”? Disse: “Tudo é vosso — os peixes dos rios, as aves do céu, a abundância dos frutos gerados pela terra generosa. Gozai da terra e de suas riquezas.” Mas, embora Deus tenha provisto fartamente o estômago do Homem, deu-lhe pouca razão. Se lermos o Alcorão com atenção, não está escrito que o poder de um sobre o outro contraria a lei do equilíbrio na Natureza? Não significa isso que, com o tempo, o funcionamento normal da Natureza acabará por se romper?


Havia já muitos anos que pensamentos sombrios aravam sem descanso a mente de Nasyr. Em público, permanecia calado, temeroso de pronunciar tais pensamentos em voz alta. Ainda assim, o velho pescador não perdera a esperança. Acreditava que o homem não devia abandonar o mar ressequido em sua angústia. Se o homem lhe trouxera desgraça ao drená-lo, então o homem devia curá-lo.


Porque veja, apenas veja...


A praia arenosa e a estepe cor de ocre — vasta demais para abarcar com os olhos — haviam-se tornado um ermo, um deserto ressecado. Não caía uma gota de chuva havia anos. Como se o próprio céu tivesse se voltado contra o homem, aquele que atormenta a terra com concreto, que arranca as entranhas de suas florestas, que convulsiona sua superfície com explosões nucleares. Por gerações, o cazaque vagueara pela estepe em harmonia com a Mãe Natureza, sendo sua carne e seu sangue parte dela. Mas agora ele se arrancara de seu seio. Oh, filho estúpido! Não terás compaixão de tua Mãe. Ela se vingará de ti, disso podes estar certo. Agora sois inimigos. Não há mais paz entre vós, nem força, nem estabilidade — a vida aqui vaga à deriva, como as areias que açoitam a costa e abandonam o mar para trás.


Seu sono era curto, como o sono de um pássaro. Mas então Nasyr, que dormia sem cobertas, sentiu um frio inesperado e tateou sonolento à procura delas. Uma brisa fresca soprou sobre ele, e despertou. Que maravilha! Uma lufada fresca entrando pela fresta da janela.


Mullah Nasyr jogou um chapan leve sobre os ombros e saiu porta afora, e o vento, como se o saudasse, arrancou o chapan e o lançou ao chão. O velho deixou-o ali e voltou o peito nu para o vento do norte. Ficou assim algum tempo, regozijando-se na frescura. Depois, apressado, curvado como os idosos fazem, correu em direção ao mar, vestido apenas de colete e calças.


Não ouviu a égua cor de cinza e seu potro relinchando ansiosos em suas cordas, nem o barulho dos cascos contra a cerca. Pela primeira vez em anos, viu o céu prenhe de grossas nuvens de chuva. O céu pesado pairava baixo sobre a terra. O vento norte soprava cada vez mais forte. E o velho, após tentar correr algumas centenas de metros, percebeu que jamais alcançaria a praia a pé. Voltou-se, e tropeçando, caindo e levantando-se de novo, chegou ao curral. Rapidamente selou a égua, montou desajeitadamente em seu dorso nu a partir da roda do carro de bois e galopou em direção ao litoral. Relinchando dolorosamente, o potro escapou pelo portão e correu atrás da mãe.


Ao ouvir seu brado, a égua diminuiu o galope e virou a cabeça de modo tão brusco que Mullah Nasyr quase caiu. Ele praguejou com raiva e bateu-lhe na garupa com a mão larga e calejada dos remos. Deveria ter trancado o potro, mas não voltaria atrás agora.


O vento atirava-lhe punhados de solo salobro no rosto, obrigando-o a cerrar os olhos. Cobrindo o rosto com uma das mãos, galopava rumo à praia, sem duvidar de que o cavalo compreendia que devia levá-lo às pressas até o mar. Tinha apenas um desejo: chegar à beira-mar de imediato.


Só ele sabia por que estava tão desesperado em alcançá-la.


O mar, que por tanto tempo recuara, privado de água, sufocado pelo sal e expirando dia após dia, respirava com dificuldade enquanto o vento encrespava suas águas e arremessava ondas contra a praia. Os barcos dos pescadores saltavam e balançavam desajeitados no cimo das ondas. Vinte ou mais já haviam sido levados para longe da margem. Quando Mullah Nasyr tentou desmontar, uma rajada violenta o atingiu e o lançou ao chão arenoso. Sentiu algo estalar em seu tornozelo ao cair, mas sua mente estava em outra coisa. Apressado, começou a mover os lábios numa prece longa e cuidadosamente pronunciada.


O trovão ribombava como se o céu fosse desabar. Relâmpagos riscavam o firmamento escurecido por nuvens. O vento uivava como uma alcateia. O velho tentava mover-se curvado rente ao chão, mas foi derrubado duas vezes. Torrentes de chuva castigavam-lhe os ombros.


Será possível que a vida esteja voltando a estas terras? Será possível que a natureza, como uma mãe de coração terno, tenha estendido a mão em paz?


Curvado, o velho rezava. Inclinando-se para a frente, tocava o chão com a testa e rezava de novo, enquanto os joelhos se afundavam cada vez mais fundo na lama mole. Quando se ergueu, seu colete já se tornara cinzento com a água que despencava sobre ele. Mas o velho Nasyr não percebia nada disso. Naquele momento, estava falando diretamente com Deus.


“Ó, Onipotente Alá! Tua bondade para conosco foi generosa e sem limites, mas por fim voltaste Teu rosto para longe de nós. Quantas vezes te roguei! Que histórias amargas te contei das misérias que se acumularam sobre nosso povo! Não respondeste; bem, essa foi a Tua vontade. Mas agora tiveste piedade de nós com esta chuva abençoada! Amém!”


Ansiava por um dilúvio. Que tudo fosse inundado, submerso por completo, apenas para encher de novo o mar! Mas mesmo por este pequeno aguaceiro já se devia agradecer a Deus. Interrompeu sua oração e só então sentiu o ardor nos olhos. Piscou e passou as palmas do rosto. Lambeu os lábios — salgados. “O sal vem da terra”, pensou. Jamais suspeitou do pior. Nunca percebeu que a salinidade vinha porque a chuva era ácida. Em breve, ele e o povo destas terras — os cultivadores de algodão e arroz do Cazaquistão, do Uzbequistão e do Caracalpaquistão, e até os pastores lá em cima, no Altai e no Tarbagatai — sofreriam uma nova calamidade e seriam vencidos por ela. Sem se dar conta, Nasyr continuava a rezar.


“Ó, Alá! Nosso povo guarda muitas lembranças. Lembra-se da fome e da aflição. Lembra-se dos anos duros da década de trinta e dos tempos desesperados após a guerra. Mas ninguém recorda uma miséria como a que padece agora. A prosperidade e a felicidade fugiram de Sinemorye e de seu povo! O mar já foi nossa fonte de alegria e consolo. Não me envergonho em dizer isto, Alá: seu corpo e sua alma eram a nossa consciência. Quem, olhando para suas águas límpidas e frescas, poderia imaginar que um dia secariam por completo? Nossas redes de pesca nunca vinham vazias. Nossos barcos dançavam em sua superfície lisa. Agora, restam apenas margens salgadas onde antes havia ilhas. E aquelas irmãs — o Amu Dária e o Syr Dária — já não trazem suas águas para o mar. O mar está diminuindo, encolhendo cada vez mais distante de suas antigas margens, e tudo o que resta para trás é terra seca, salgada e morta.


“Não direi que o velho Sinemorye entrega a vida facilmente, mas tem estado sozinho em sua luta contra a morte. Obrigado, Alá, por veres seu sofrimento.”


Parecia que o aguaceiro jamais cessaria. Na verdade, intensificava-se. E também as preces de Nasyr. Cravando os joelhos mais fundo na lama encharcada, ele rezava para que a chuva continuasse.


Assim fora no fim da década de trinta. A chuva caíra durante uma semana. O nível do mar subira. Pequenas ilhas e baías desapareceram sob sua superfície, e a água invadira a terra e as casas dos pescadores. Estes foram obrigados a levantar cabanas de junco e viver nelas durante todo o verão. No inverno, mudavam-se para tocas escavadas. A água jorrava dos desfiladeiros montanhosos do Pamir e do Tian Shan através do Amu e do Syr. Mas o povo não se queixava nem passava privações — havia peixes em abundância no mar naqueles anos.


Se esta chuva prosseguisse por mais alguns dias, os dois rios em fúria romperiam suas margens artificiais e verteriam no mar, e os peixes, cansados da água salgada, correriam para a doce água fresca.


E os pescadores ficariam sem captura.


Já agora os peixes se agrupavam em cardumes compactos e subiam à superfície. E as redes tornavam-se inúteis, retorcidas em nós pelas águas turbulentas. Mas agora o mar havia mudado! Como fervilhava de vida! Ondas volumosas corriam para a praia. E o céu, enlaçado por cordas de nuvens negras, continuava a despejar chuvas sobre os picos nevados do Pamir e do Tian Shan. As neves perenes derretiam-se, despejando água fresca nos dois grandes rios, no antigo curso predestinado por Deus. As barreiras de pedra que os homens haviam construído para desviar a água para os campos de arroz e algodão começaram a ceder e a ruir, e hora a hora o mar se enchia de água doce.


Uma onda atingiu o ajoelhado Nasyr. Ele estacou, atônito, enquanto medo e esperança se misturavam em sua alma. E quando uma segunda onda se lançou sobre ele, encheu as mãos calejadas com a água e bebeu sofregamente, em grandes goles. O sal queimava-lhe a língua, mas ainda assim ele colhia e engolia de novo e de novo.


Antigamente, às vezes, os barcos regressavam à costa sem água potável. Mas naquela época bastava cavar na areia úmida e beber direto do buraco. Esse tempo passou. Agora, são quarenta, talvez cinquenta quilômetros da antiga linha da praia até a beira d’água. Ó, Água! Claro que te lembras de tuas antigas margens, e agora te esforças por alcançá-las. Mas estás fraca demais. Pois bem, Alá há de reabastecer-te com este grande aguaceiro. Tem paciência. Os dois rios te salvarão. E Nasyr reza ardorosamente por ti.


Ele tem rezado há anos, mas pouco resultado veio de suas preces. Ao longo desses anos, tuas margens verdejantes transformaram-se em crosta salina. E vendo isso, Nasyr desesperou-se. Certa vez, numa conversa, deixou escapar que acreditava que suas orações salvariam o mar. O povo do aul zombou dele aberta e impiedosamente. Os jovens achavam que ele estava louco e que faria boa dupla com a velha tresloucada, Kyzbala, que vivia na beira da aldeia. Mullah Nasyr suportou a zombaria com paciência. Mas agora, hoje, sozinho na alvorada, na praia deserta, ele está feliz. Havia prometido invocar uma chuva sobre o mar. Havia prometido salvar Sinemorye. Que todos vejam e contemplem. Alá não abandonou Nasyr. Alá ouvira suas palavras e o abençoara!


O velho Nasyr vivera muitos anos antes que o povo insistisse para que se tornasse seu mullah. As pessoas o conheciam como um bom pescador. Tornara-se presidente do kolkhoz. Fora um forte paluan, um lutador. O velho pescador se aposentara com honra. Mas não suportava a inatividade por muito tempo. Ainda agora, muitas vezes entrava no mar, levando consigo o neto, Berish.


Mas o mar já não era o que fora. Quase não havia peixes, apenas bagres e lingues tolerantes ao sal. Agora, podia-se chamá-lo de morto, verdadeiramente morto. Os olhos viam o mar morrer, mas a alma não acreditava. A alma não conseguia esquecer que esta terra já fora povoada. Mas quando a desgraça atingiu o mar, as pessoas começaram a deixar essas terras. Alguns desistiram da pesca por completo e se mudaram para longe de Sinemorye. Os navios-fábrica ficaram encalhados na areia.


Auls inteiros e kolkhozes foram abandonados.


Agora apenas algum saiga errante atravessa suas portas bamboleantes, buscando sombra contra o calor do verão. A terra entre Sinemorye e Balkhash transformou-se em deserto, cheio de cães selvagens reunidos em bandos para caçar, à maneira dos lobos, cervos e saigas. Lobos também vagueiam por essa terra abandonada. No último inverno, caçadores os abateram de helicópteros. Mataram também cães. Do alto, é difícil distingui-los. O próprio Mullah Nasyr vira muitas vezes os corpos dos cães sobre as dunas cobertas de neve.


Junto com muitos outros, o conhecido e respeitado Mullah Berkimbai deixou seu aul. Mas como pode um aul viver sem mullah? Como poderiam os mortos ser devidamente sepultados? Assim, o astuto jovem Kaiyr tornou-se mullah. Diz-se de pessoas como ele que conseguem se esgueirar por qualquer brecha. Também se dizia que estudara em algum lugar — talvez em Kazan ou em Leningrado — mas nunca concluíra os estudos e voltara ao seu aul, onde rapidamente conquistou a aprovação de Berkimbai. Nunca se separava de seu mentor, não faltava a uma única oração ou cerimônia fúnebre. Era jovem, mas mostrava-se profundamente piedoso. Berkimbai dizia às pessoas que Kaiyr havia estudado num seminário em Kazan e sabia bem o árabe.


“Não foi na academia naval?”, perguntavam alguns no aul. “E não foi expulso de lá?”


Outros balançavam a cabeça e diziam: “Conhecíamos o pai dele — era um trapaceiro, e o filho saiu ao pai. Lembram como ele era na escola? Nada tinha de erudito em árabe!”


Mas um dia, Mullah Berkimbai pôs fim às fofocas:“É pecado para um muçulmano julgar aquilo de que não tem conhecimento. Apenas atrairá sobre si a retribuição divina. Ele foi expulso da academia naval porque, na época, frequentava um seminário. A devoção do jovem a Alá merece apenas louvor.”


Assim falou Berkimbai, olhando severamente para o povo sob suas sobrancelhas pesadas.


Nasyr respeitava Berkimbai. O mullah era fluente em árabe e sabia explicar com clareza os cânones do Alcorão. Mas Berkimbai deixou o aul, e Kaiyr ocupou o seu lugar. O povo dizia: “Quando o chacal aparece, o corvo morre de fome.” No ano em que Kaiyr se tornou mullah, houve muitos funerais. Morriam velhos e jovens. Parecia que Deus decidira que deviam repousar em sua terra natal, e não ser sepultados longe. O novo mullah esteve muito ocupado. Kaiyr lia fervorosamente os ritos fúnebres e não rejeitava as recompensas por sua dedicação, aceitando tanto dinheiro quanto gado. Enriquecia rapidamente. Os anciãos começaram a exortá-lo a casar-se, pois não é bom para um mullah permanecer solteiro.


Então Kaiyr noivou-se com uma jovem formosa de Bishkek e fez um casamento modesto. Ninguém do aul fez amizade com ela. E como poderia? Criada na cidade, tão mimada pelos pais que nem aprendera a língua materna. Quando solteiro, Kaiyr vivia com o irmão na casa dos pais; depois do casamento, mudou-se para uma das vilas abandonadas no centro do aul.


Certa vez, o velho zhyrau Akbalak, do aul de Shumgen, adoeceu gravemente.A filha de Akbalak pediu ao curandeiro Otkeldy que cuidasse de seu pai. O zhyrau e o curandeiro eram grandes amigos, mas junto com o curandeiro também chegou o Mullah Kaiyr. Akbalak recebeu o jovem moreno, de nariz adunco, com pouca satisfação.


“Não convidei meu velho amigo Otkeldy?”, exclamou. “O que fazes aqui, corvo negro?”


E assim Akbalak despediu o jovem mullah. E, assim que Kaiyr saiu pela porta, disse:


“Esse não é mullah nenhum; é um predador! Só para contrariá-lo, não morrerei!”


O povo espalhou com gosto as palavras de Akbalak.


Enquanto isso, os parentes de Kaiyr iam deixando o aul um a um. E Kaiyr preparava-se para partir também, rumo a Zaysan.


Quando criança, Nasyr havia estudado com o mullah e aprendera a ler o Alcorão fluentemente. As pessoas começaram a pedir que Nasyr se tornasse mullah. Já não saía muito ao mar, e decidiu não ofender a comunidade recusando. Tirou o Alcorão do esconderijo no fundo de um velho baú e tornou-se mullah — o último mullah de Sinemorye.


Nasyr escutava atentamente. Parecia que a tempestade ia diminuindo, mas o mar ainda arremessava grandes ondas contra a costa. Elas batiam na areia e arfavam até se desfazer, mas, a cada vaga que expirava, outra surgia atrás dela. O estrondo das ondas misturava-se ao ribombo incessante da chuva. Mullah Nasyr não ia a lugar algum. Continuava de joelhos, encharcado. A perna esquerda dormente, e o menor movimento arrancava-lhe um gemido, com a dor atravessando-lhe o tornozelo. Então rezava. Não era hora de preocupar-se com seu filho, Kakharman, mas o rapaz estava sempre em sua mente, sobretudo quando orava.


Kakharman, Kakharman…


Nasyr tivera apenas um filho homem, embora Alá lhe houvesse dado muitos filhos: cinco ao todo, quatro filhas além do único rapaz.


Kakharman também deixara sua terra natal. De repente, em um único dia, arrumara suas coisas e partira para sempre do mar com toda a família. Era diretor da Koktenizrybprom. Mas o Comitê Regional se voltara contra ele, e teve de partir. Gostavam dele os subordinados, e tinha bons amigos. E, quando Kakharman abandonou seu aul natal, eles também começaram a ir embora. Alguns mudaram-se para o Mar Cáspio, outros foram além do Cazaquistão, rumo à Sibéria e ao Báltico. O povo simples seguia o exemplo dos instruídos e partia igualmente. Barcos de pesca, navios, escunas e embarcações ficaram largados na praia. Há muito devorados pela ferrugem. Há muito despedaçados pelo vento.


Antes, Nasyr via o filho com frequência. Ainda hoje pensa nele diariamente e não consegue entender por que as autoridades o afastaram. É crime banir um homem tão à frente de seu tempo em intelecto, capacidades e educação? Não é justamente esse o tipo de jovem talentoso que deveria ascender aos mais altos postos de governo? Um homem de mente clara e desejo de servir ao povo.


Cinco secretários do Comitê Regional haviam passado por aquele distrito nos últimos vinte anos. Cada um começava o trabalho da mesma forma: descartando o que o antecessor fizera. Ah, como todos eles bagunçaram as coisas! Um decidiu transformar aquelas terras em celeiro de grãos. “O Cazaquistão é a república do pão! Como podemos ficar atrás dos outros?” E, em resposta a esse decreto, os já pobres campos de feno de Sinemorye foram arados.


O secretário seguinte, porém, quis restaurar tudo ao estado original. “Como pode um lugar tão árido produzir pão em tal quantidade?” Depois, o terceiro secretário iniciou a irrigação da margem de Sinemorye para transformá-la, da noite para o dia, em jardim miraculoso. Mas seu gênio foi derrotado pelo astuto Syr Darya, que se recusou a fornecer água suficiente para o grande projeto.


Uma coisa Nasyr jamais conseguiu entender: por que não havia ali quem apontasse os erros desses secretários? Os secretários caíram no esquecimento, mas os infortúnios de Sinemorye eram reais e duradouros. Onde estava a verdade? Quando deixaremos de pensar que, se algo é dito lá de cima, é como se o próprio Profeta tivesse falado? As pessoas não são escravas… ou são?


E o que aconteceu com Kakharman, que lhes dizia a verdade? Foi perseguido. Foi forçado a deixar Sinemorye. Assim acontece com aqueles que sofrem pela causa com toda a alma.


E esses secretários — por que se preocupariam com a doença do mar? Só adoeceriam a si mesmos. É claro que nunca gostaram que Kakharman fosse tantas vezes a Moscou para alertá-los sobre o perigo — para pedir, suplicar, implorar —, mas sempre em vão. Em Moscou, o professor Matvei Panteleevich Slavikov — a quem os cazaques chamavam de Mustafa — conhecia o destino do mar e o sofria nas profundezas da alma. Embora fosse um cientista mundialmente famoso, Slavikov nada podia fazer para ajudar Kakharman, pois não tinha influência sobre os burocratas. Já nos anos 1950, Mustafa escrevia que a morte do mar era inevitável se o povo não aprendesse a usar corretamente a água dos dois rios.


E então os peixes começaram a desaparecer. Nos últimos anos, os pescadores foram obrigados a viajar ao lago Balkhash e ao mar Cáspio, da primavera ao outono, para conseguir peixe suficiente e cumprir a cota. E quando o desastre atingiu os pescadores de Sinemorye, Kakharman abriu oficinas nos auls e pôs as mulheres a trabalhar em pequenas fábricas de malhas. Criou tantas pequenas empresas e cuidou tão bem das pessoas que elas nunca passaram fome. Ainda assim, as autoridades o detestavam e o demitiram por não cumprir a cota de pesca! Indignou-se com a injustiça, abalado no mais fundo da alma. Voltou do Comitê Regional como uma nuvem de tempestade. Passou aquele dia na casa dos pais. No dia seguinte, porém, partiu, levando a família para terras estrangeiras. Nem Korlan nem Nasyr tentaram detê-lo. Apenas pediram que deixasse o neto, Berish, com eles durante o verão. Berish fora criado desde bebê pelo casal — chamava seus pais de tio e tia — e recusava-se a deixá-los.


“Meu destino”, disse Kakharman naquela noite, “sempre esteve ligado ao destino destas terras, mas viver aqui e ver o mar morrer um pouco a cada dia... é como morrer eu mesmo, lenta e dolorosamente. Acharei trabalho no estrangeiro, e Aitugan também. Não se preocupem; ficaremos bem. Têm certeza de que querem ficar? Nada os faria mudar de ideia?”


Após longa pausa, Nasyr ergueu a cabeça e olhou o filho nos olhos:“Que o teu caminho seja bom. Não há razão para irmos contigo. Parece que fomos destinados a morrer aqui, junto com o mar.”


Korlan, que preparava o dastarkhan, suspirou. Era uma grande baibishe, de rosto alvo, voz suave e agradável. E disse:


“Kakharman, meu filho querido, eu te amo mais que a todos os meus filhos. Talvez porque tive muitas filhas e apenas um filho. Mas sempre vi algo especial em ti. Mesmo que fosse estranha, reconheceria que eras o melhor entre os teus. Agora cresceste, tornaste-te um homem digno. Tornaste-te a consciência e a honra de Sinemorye. Nosso povo te ama. Preocupa-se contigo. Chegaste ao Bureau do Comitê Regional, e agora aquela porta se abriu para nós. Todos querem ouvir falar de ti. Dizem que, se Kakharman parar de trabalhar, nós também pararemos. Que o primeiro-secretário do Comitê Regional suje as próprias mãos e apanhe os peixes, dizem eles! Que todos saibam o que realmente fazemos!”


E nesse momento, como a confirmar as palavras de Korlan, ouviram-se vozes altas no alpendre quando meia dúzia de pessoas entrou. Eram pescadores, os amigos mais próximos de Kakharman. Cada um apertou-lhe firmemente a mão e sentou-se.


Kakharman retomou a conversa:


“Demitem-me e colocam outro no meu lugar; não vale a pena pensar nisso! Agora digam-me” — perguntou à mãe e a Berish, com um sorriso —, “virão comigo ou ficarão com o velho?”


“Teu pai e Sinemorye são as coisas mais queridas deste mundo para mim. É tudo o que quero na vida. Que Deus te dê felicidade e prosperidade”, respondeu sua mãe, com serena decisão.


“Então é verdade que te despediram?”, perguntou sem rodeios o jovem Yesen, filho do velho Zhanyl.


“É a pura verdade, Yesen”, replicou Kakharman. Longe de estar abatido, falava com franqueza e energia.


Todos quiseram falar, mas foi Yesen quem se adiantou novamente:“Então por que, Kakharman-aga, devo continuar o curso de engenharia automotiva que arranjaste? Se teremos outro chefe, não vou!”


“Acham que porque Kakharman perdeu o emprego a vida vai parar?” — apaziguou Kakharman. “Todos nós amamos Sinemorye, Yesen. E nosso dever é dar ao mar tudo o que pudermos. O aprendizado nunca fez mal a ninguém. Podes pescar, Yesen, mas por que não dominar também as máquinas? Caso contrário, como sustentarás tua mãe? Deves continuar estudando. E não te preocupes comigo. Encontrarei meu caminho. Mas o mar... o mar poderá sofrer sem mim para cuidar dele.”


Quando chegou a hora da despedida, Korlan tomou o filho à parte e disse baixinho:


“Imagino que o oblast tenha levado a mal quando teu pai virou mullah.”

“Nada foi dito”, respondeu Kakharman evasivo, surpreso com a percepção da mãe.


De repente, as torrentes ferozes da chuva começaram a enfraquecer e logo cessaram por completo. O céu, contudo, ainda estava coberto de nuvens escuras, embora em alguns pontos se insinuassem clarões mais luminosos. A areia amarela estava inchada, encharcada. No aul, as pessoas esperaram o fim do dilúvio e então correram para o mar, alguns a pé, outros a cavalo. Estavam excitados, e suas vozes ecoavam pela praia no crepúsculo da madrugada.


Nasyr, ainda de joelhos em oração, virou-se e viu a velha louca Kyzbala correndo em direção à beira d’água. Como Nasyr, estava encharcada, seus cabelos grisalhos e ralos esvoaçando sob o platok.


Ela fitava intensamente as ondas, cheia de esperança.


O único filho de Kyzbala, sua única alegria, fora tomado pelo mar.


E se a alegria da mãe fora breve, tivera apenas um pequeno gole da alegria de mulher. Casara-se por pouco mais de um ano quando o marido partiu para a guerra e não voltou.


Nurdaulet fora um homem encantador. Atlético, bondoso, sempre risonho, era conhecido no aul como um dos melhores pescadores. No peito trazia tatuado o nome Sinemorye. Que solo de guerra cobriu essa palavra? Bielorrusso? Báltico? Alemão? Só Deus sabe. E a mesma tatuagem estava no peito de seu filho, Daulet.


Naquele dia, Daulet foi ao mar com Nasyr. Uma tempestade irrompeu, seu barco virou e ele se afogou.


Daulet estava no barco com Kaiyrgali, filho do curandeiro Otkeldy. Haviam terminado a pesca e voltavam para a costa. Enquanto se afastavam, Daulet gritou:


“Seguiremos na frente, tio Nasyr; será mais fácil o senhor nos acompanhar.”


Nasyr, recolhendo suas redes, acenou com a mão. O barco dos jovens já estava bem à frente quando ele e sua tripulação, Karibzhan e Korlan, também tomaram o caminho de casa. Mas, de repente, do céu azul límpido surgiu um fio escuro e revolto de nuvem que, como se os apressasse, começou a persegui-los.


“Veja como aquilo se move, Nasyr!”, exclamou Karibzhan. “Parece uma enguia atrás da presa!”


Nasyr fitou o céu, e seu coração tremeu de pavor.


Quando menino, ouvira os velhos pescadores contarem histórias de trombas-d’água que apareciam de súbito como fumaça negra, girando em espiral, sugando a água do mar em uma coluna revolta.


Tudo escureceu. Mas, por alguns minutos, o céu acima do barco de Daulet e Kaiyrgali permaneceu claro, enquanto a nuvem corria sobre eles. De repente, porém, a embarcação foi envolta por uma sombra imensa e ameaçadora. À esquerda do barco, a água se ergueu em um pilar como se fosse magnetizada pela nuvem. Inconcebivelmente, o mar tranquilo explodiu em fúria.


“Ó, Deus!”, gritou Karibzhan em horror. “O barco deles foi puxado para o céu!”


Nasyr olhou para trás e ainda conseguiu vislumbrar, por um instante, a popa. Num átimo, o barco inteiro com Daulet e Kaiyrgali foi tragado pelo vórtice da tromba-d’água.


Kyzbala os esperava na praia. “O coração de mãe pressente”, pensou Nasyr.Gritando com voz tão aguda que parecia rasgar-lhe o corpo, ela agarrou a camisa de Nasyr:


“Cadê meu Daulet? Onde está meu filho?”


Como poderia ele responder?


Os anos lhe mostraram pouca misericórdia. Em outros tempos, fora jovem e graciosa. Elegante. Os cabelos longos e lustrosos lhe desciam pelas costas. Mas no velório do marido, algo nela se quebrou. Kyzbala passou a desmaiar com frequência, a falar desconexa. Adoeceu por muitos meses, recolhendo-se à cama no início da primavera e só recuperando-se no outono. Contudo, tinha vontade férrea e sabia que precisava criar o filho. Criou-o, apesar de sua fragilidade.


Homens rodearam a bela viúva, mas ela não permitiu que ninguém se aproximasse. Houve pretendentes sérios, em sua maioria soldados que retornavam da frente. Até casamenteiros tentaram a sorte. Mas Kyzbala não aceitou nenhum. Permanecia fiel ao primeiro amor.


E assim seguiu em silêncio como viúva. A cada primavera, porém, recaía enferma. O mal jamais a abandonou. Por alguns dias, sucumbia: a cabeça girava, as palavras se perdiam. Os parentes tentaram convencê-la a casar de novo:


“Ah, não podes trazer Nurdaulet de volta, Kyzbala. Foste fiel durante anos. Não deste motivo a falatórios. Teus parentes estão satisfeitos. Até a alma de Nurdaulet deve estar em paz. Mas pensa em ti, querida. És jovem ainda. Se te unires a outro, não nos oporemos.”


Mas a jovem viúva foi categórica:


“Não vou acreditar em vocês. Nurdaulet não está morto. Não quero acreditar. Nunca me falem em casamento. Allah me consolará. Ele levou Nur, mas deixou-me Daulet. Ou já se esqueceram dele? Digam isso à minha família.”


Alguns se escandalizaram com sua obstinação. Outros sorriram. Os mais sensíveis deixaram cair lágrimas. Mas eram muitos os parentes dispostos a ajudar, e Daulet cresceu sem jamais sentir-se órfão de verdade.


Concluiu a educação básica, mas nunca partiu para estudos superiores. Jamais abandonaria a mãe. Foi trabalhar com Nasyr na pesca. E muitas vezes Nasyr o contemplava, lembrando-se de Nurdaulet: trabalhador, afável, sorridente. Formou-se na escola com medalha de ouro, e Kakharman tinha certeza de que deveria prosseguir nos estudos. Incentivou-o a matricular-se em cursos por correspondência no instituto.


“Não queres deixar tua mãe, eu entendo. Então sim, pesca, mas estuda também”, aconselhou Kakharman.


Daulet levou a mãe aos melhores médicos de Alma-Ata. O tratamento lhe fez bem: Kyzbala recuperou-se por completo. Um rubor de vida coloriu suas faces pálidas, e os olhos escuros brilharam. Chegou a pensar em dar aulas na escola.


Nasyr permaneceu imóvel, como uma árvore antiga. Não teve forças para afastar-se da soluçante Kyzbala. Olhara nos olhos da morte. Vira o que poucos veem em vida: uma tromba-d’água terrível, capaz de erguer um barco e sua tripulação no ar e lançá-los de volta ao fundo do mar para sempre—ou, como dizem as lendas, carregá-los até os céus...


O mar! Tanta beleza e majestade, mas tão cego em sua fúria.


Quantas canções se cantaram nas margens de Sinemorye!


Ó meu amor, minha morena de olhos negros,

trouxeste tanta alegria para mim!

Mas todas as tuas noites eram tristemente marcadas

quando eu partia para o mar.

Quisera ter-te roubado

e galopado para bem longe,

e ainda assim tive de inclinar minha alma

a tormentos todos os dias.


O amor pela vida corre fundo entre aqueles cujas existências estão ligadas ao ar, à água e ao fogo. Assim é a maneira como cantam suas canções, assim são os laços que tecem com amigos e familiares. Esse contato elementar, essa proximidade com o ar, a água e o fogo alimenta uma atitude diferente perante a vida e a morte. Suas vidas se desenrolam numa relação fatal com os caprichos da natureza: a cada minuto, a cada segundo, pode ser o último. E talvez por isso suas canções estejam sempre atravessadas de alegria e tristeza, de riso e de lágrimas.


Ah, aquelas noites maravilhosas! Noites em que as canções, tão caras ao coração do mullah Nasyr, eram partilhadas com tanto calor. Quantas vezes ele as aguardara com impaciência, enquanto o sol se afundava lentamente sobre o mar. Agora esperaria em vão. O mar abandonara suas margens. Onde estavam os rapazes buliçosos para puxar uma cantiga? Onde estavam aqueles que outrora riam nessas praias, que trabalhavam e gozavam a vida? O tempo levara suas vozes para longe...


O primeiro a chegar à beira-mar foi o velho zhyrau Akbalak. Vinha montado em um camelo, mas o animal, assustado com a cacofonia salgada, recusava-se a ajoelhar. Sacudia a cabeça, bramia, e o velho tentava em vão fazê-lo dobrar os joelhos. Kyzbala aproximou-se em silêncio, agarrou-o pelo cabresto e ordenou rouca: “Shok, maldita! Shok!” A camela sacudiu a cabeça com violência, balançou o corpo pesado e, por fim, obedeceu, ajoelhando-se.


Akbalak tornara-se genro de todo o aul. Sua filha também vivia em Karaoi, casada com um pescador local; ele ia com frequência visitar os netos. Quando a chuvarada começou e o povo correu ao mar, o zhyrau não conseguiu ficar em casa: ficou esperando que Nasyr terminasse o namaz.


Em tempos passados, o zhyrau Akbalak fora pescador, e dos bons. E como cantava! Mal o barco deixava a costa, melodias gloriosas brotavam de sua garganta. “Pai, pai, que voz!”, murmuravam, extasiados. E os pescadores brincavam: “O canto de Akbalak, de Shumgen, encanta até os peixes. Ele sai ao mar, canta da manhã ao meio-dia e, quando volta, seu barco está cheio! E olhem só o que traz! Nenhum peixe miúdo!”


Akbalak também era valente e independente, e em tempos idos ousara raptar a esposa do aul de Nasyr.


Foi numa tarde, quando os pescadores já tinham armado as redes e regressavam devagar para o jantar no aul sonolento. Akbalak surgiu de repente e arrebatou a bela Karashash, filha de Mergenbai, o pescador mais rico de Karaoi. Naquela noite, zarparam rumo às ilhas mais distantes de Sinemorye. Só um tolo apareceria com a noiva em seu Shumgen natal, a dois passos de Karaoi.


Ele e Karashash viveram meses nessas ilhas afastadas. Mergenbai mandou cinco filhos em busca deles, e alguns dzhigits locais se juntaram à procura. Furioso, Mergenbai estava decidido a pôr o aul abaixo para encontrá-los. Mas Akbalak não estava em Shumgen, e os dzhigits recusaram-se a retaliar inocentes. Persistente, Mergenbai procurou os aqsaqals de Shumgen, exigindo que lhe entregassem Akbalak e obrigassem o ladrão a cair a seus pés; se não, traria a morte a todo Shumgen.


Quando Mergenbai deu pela falta de Karashash, Akbalak já estava em alto-mar — e quem seria capaz de alcançar o barco mais veloz de Sinemorye? Mergenbai espumou de raiva por dias, até anunciar: “Perdoo a fugitiva e a afronta que me foi feita. Se ela escolheu esse zhyrau sem valor por marido, nada há a fazer — é o destino, e não posso mudá-lo. Mas jamais aparecerão ante meus olhos. Viverão no seu Shumgen.”


Nada mais se soube dos amantes por muito tempo; todos concluíram que haviam se afogado. Mas, numa tarde calma, o barco deles deslizou até a praia. Quanta felicidade houve em Shumgen! E não apenas lá: todo Sinemorye se reuniu para o casamento. Apenas Mergenbai e seus filhos ficaram de fora. Os aqsaqals foram até ele, caíram-lhe aos pés e suplicaram que perdoasse a filha. Mas o obstinado Mergenbai não encontrou uma gota de alegria no coração; nem as lágrimas da esposa amoleceram sua frieza.


Durante cinco anos, a bela Karashash viveu com seu precioso Akbalak. No fim, porém, Mergenbai a destruiu com sua dureza: cada vez mais aflita, Karashash lançou-se ao mar. Akbalak ficou inconsolável; passou o resto da vida sozinho. Tiveram um filho, que morreu na guerra, e uma filha, hoje uma respeitável baibishe em Karaoi.


E talvez essa lembrança tivesse inundado a mente do zhyrau Akbalak quando desceu do camelo e fitou o mar, à espera de que Nasyr terminasse suas orações. A essa altura, quase todos no aul já se dirigiam à praia. De repente, a transtornada Kyzbala gritou desvairada e apontou para as ondas escuras e revoltas. O mullah Nasyr continuava rezando e curvando-se. Mas Akbalak forçou os olhos a atravessar a cerração, e então paralisou, assombrado. Um barco de pesca, com o mastro partido ao meio, avançava à deriva em direção à costa. As pessoas na praia arfaram de espanto.


Kyzbala corria em círculos, gritando roucamente e de modo ininteligível. Puxava as pessoas, apontava para o barco, correndo desesperada de um a outro como um brinquedo de corda. Com ela iam um vira-lata preto com uma mancha clara no pescoço e uma cabra com o filhote branco. Ninguém conseguia entender o que Kyzbala queria.


Então ela correu até um velho barco abandonado na praia. Normalmente eram precisos três jovens dzhigits robustos para arrastar a pesada embarcação, mas a velha esticou cada nervo do corpo e conseguiu levá-la até a beira d’água sozinha, antes de atirar-se sobre ela numa tentativa desesperada de lançá-la ao mar. Alguns rapazes correram para contê-la e a puxaram de volta. Se a louca se atirasse no mar agora, morreria com certeza.


Kyzbala percebeu que não a deixariam entrar no barco. Gritou, chorou, mordeu as mãos que a seguravam até obrigá-los a soltá-la. Atirou-se ao mar e já estava com água até os joelhos quando uma onda colossal a cobriu e a lançou de volta à praia como se fosse um grão de areia. A velha batia as mãos na areia em desespero e soluçava.


“O mar está irado”, diziam as pessoas na multidão. “Suportou muitos insultos ao longo dos anos...”


“Ficou calmo por tanto tempo que até começou a esquecer como se enfurecer...”


“Nossas redes se foram.”


“E a tua mãe junto com as redes!”, amaldiçoou outro em resposta.


“De que servem redes, se todos os malditos peixes sumiram?”


Era o maneta Kadyrgaly, ex-presidente do kolkhoz. A mão lhe fora arrancada por um enorme bagre. Respeitavam Kadyrgaly por sua franqueza rude e pelo jeito direto de falar, sempre no momento certo.


O barco se aproximava da costa. O povo olhava, paralisado de medo. Mas o zhyrau Akbalak de súbito divisou duas figuras dentro dele — Yesen e Berish — e gritou:


“Saltem no mar, idiotas! Saltem!”


Naquela noite, Yesen decidira que precisava ir verificar as redes, e Berish insistira em acompanhá-lo. Haviam baixado o barco ao mar sob o olhar da lua nova. Remaram com vigor e silêncio, desfrutando a calma noturna. Como poderiam imaginar que a natureza desencadearia uma tormenta que recordariam por toda a vida?


No instante fatal, uma onda poderosa ergueu o barco no topo de sua crista e o lançou abaixo, arremessando os rapazes ao mar. Yesen gritou a Berish:


“Segure-se em mim! Vamos nadar!”


Berish engoliu muita água. Debatia braços e pernas com todas as forças até conseguir alcançar a superfície. Mas outra onda o engoliu de novo. Yesen voltou, mergulhou e, com um braço, puxou o enfraquecido Berish contra si, nadando com o outro em direção à praia. Alguns jovens correram para ajudá-los. E a jovem Aigul, colega de classe de Berish na escola, também se lançou às águas.


O vento soprava em rajadas ferozes, e a chuva caía em torrentes. O barco de Yesen foi arremessado contra a praia. Enterrou o motor na areia, rangeu e desmoronou. Logo a onda seguinte tomou as tábuas e as arrastou de volta ao mar. E, à medida que as ondas se sucediam, até o pesado motor foi tragado para as profundezas.


Exaustos, felizes, salvos! Yesen e Berish olharam para as pessoas que os cercavam. Elas riam. Kyzbala correu até Yesen, abraçou-o e começou a chorar de novo. Acariciou-lhe a cabeça, o rosto, os ombros, os braços. Então percebeu que não era Daulet. Silenciou e afastou-se, murmurando.


Berish saiu do círculo de gente sorridente e aproximou-se do avô.


“Ata, deixe-me ajudá-lo a levantar-se. Já é hora de irmos para casa.”“Parece que você não vê a hora de morrer”, disse o velho severamente. Mas, no fundo da alma, Nasyr sentia-se orgulhoso do neto. Berish mostrara-se corajoso e resoluto.


Nasyr tentou levantar-se. Mas a dor no tornozelo era forte demais.


“Parece um entorse... Tragam a égua... tragam-na até aqui.”


Berish e Yesen ajudaram o velho Nasyr a montar no cavalo. A chuva açoitou ainda mais forte. Todos voltaram para o aul. Nasyr gritou ao neto, que conduzia a égua pelo cabresto:“Eu disse a eles que minhas preces salvariam o mar! Riram de mim. Que riam agora!”


Berish permaneceu em silêncio. Pensava em Aigul. “Ah, ela é corajosa!”, refletiu. Queria que Aigul caminhasse a seu lado. Mas ela seguia adiante, junto das irmãs.


Somente a louca Kyzbala ficou na praia, com seu vira-lata de mancha branca no pescoço e a cabra com o cabritinho.


Entre Sinemorye e o lago Balkhash, agora se estende uma vasta estepe — um deserto pardo e poeirento, com apenas raros pontos verdes, onde árvores raquíticas lutam para sobreviver em ilhas solitárias de grama. Muitos saigas e corços habitam essas areias, e pilotos afirmam ter avistado recentemente uma tigresa com seu filhote. Seria extraordinário, pois os tigres-do-cáspio não são vistos ali há muitos anos — embora, no passado, espreitassem pelos tugai, entre canaviais grossos como o braço de um homem. Era assim. Nos auls, há muitas casas com suas peles listradas estendidas no chão. O caçador Musa possui duas.


Se os tigres já não existem, ainda há muitos cavalos selvagens nessa estepe. Ariscos e vigilantes, não permitem que ninguém se aproxime. Podem ser vistos reunindo-se nas dunas. Suas caudas e crinas crescem longas e espessas, fazendo-os parecer maiores que os cavalos domésticos. Frequentemente surgem perto dos auls de pescadores — já foram vistos mais de uma vez nos arredores de Karaoi. Há muitas éguas jovens nesses bandos, e elas tentam seduzir os garanhões domesticados com relinchos provocadores quando passam rente aos auls.


Naquela noite de chuva, apareceram outra vez perto de Karaoi e, dessa vez, levaram consigo o garanhão mais veloz do caçador Musa. No instante em que percebeu a perda, Musa montou a cavalo e partiu em disparada pela estepe em perseguição. Mas o bando selvagem já estava longe. A vida inteira, Musa criara aves de caça, cães e cavalos velozes. Sofreu terrivelmente com essa perda, adoecendo de desgosto. E não foi apenas Musa que se afligiu; todos no aul sabiam que o garanhão de Musa vencera diversas corridas distritais e regionais. Os anciãos sabiam a causa da desgraça: era mais um dos castigos de Deus sobre o aul.


Quantos bandos mais sobrevoarão agora Karaoi? Rápidos como o vento da estepe, roubando almas como o tempo? Não foram vocês, cavalos selvagens, que raptaram a beleza de Karaoi? Não foram vocês que roubaram a alegria da vida?


Por duas semanas, a chuva caiu sem cessar. Às vezes amainava, apenas para voltar com força renovada. O vento cortante jamais diminuiu, e o mar permaneceu revolto e cinzento. Só a alma de Nasyr estava tranquila e serena, e seu rosto irradiava uma luz jubilosa durante todas as duas semanas seguintes.


 
 
 

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Que imagens, terríveis e impactantes os textos trazem. Ver a natureza se contorcendo, nós nos contorcendo vitimados pelos crimes ambientais.

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