As noites brancas de Ronan Rivière
- Guilherme Purvin
- há 1 hora
- 5 min de leitura
Guilherme José Purvin de Figueiredo

Adaptar uma obra literária para outro meio exige audácia, respeito e uma visão própria que não traia o espírito do original. Não por acaso, adaptações realmente bem-sucedidas são raras, e a pergunta que acompanha qualquer plateia exigente é sempre a mesma: quando uma adaptação não desmerece a obra de partida?
Algumas versões se afastam demais do texto de origem; outras o seguem com fidelidade quase documental, correndo o risco de transformar o teatro em simples leitura dramatizada. Foi a sensação deixada, em Lyon, pela montagem de La guerre n’a pas un visage de femme, baseada no livro de Svetlana Alexievich, dirigida por Julie Deliquet com um elenco exclusivamente feminino no Théâtre des Célestins. O livro, construído como mosaico de testemunhos, é poderoso justamente por não possuir trama tradicional. No palco, porém, a reprodução quase literal das falas produziu um efeito de leitura coletiva, com atrizes majoritariamente sentadas, sem interação dramática. O mérito permanece concentrado na obra de Alexievich, enquanto direção e interpretação assumem um papel secundário. Esse tipo de adaptação ilustra uma armadilha recorrente: converter palavras em récita, esvaziando o que faz o teatro ser teatro — presença, conflito, movimento e relação em cena.
Contrastando com essa leitura está a peça que vimos ontem à noite em Paris, no Théâtre du Lucernaire, no 6e arrondissement, lugar pequeno que comporta várias salas de exibição (inclusive de cinema). Subimos três lances de escada, a última deles em caracol, e chegamos à sala onde se apresentou Les Nuits blanches, de Fiódor Dostoiévski, com adaptação, direção e interpretação de Ronan Rivière, ao lado de Laura Chétrit, e acompanhado ao piano por Olivier Mazal.
Ronan Rivière é ator, diretor e adaptador francês, atuante no circuito parisiense e especializado em adaptações de obras russas. Trabalha sobretudo a partir de Fiódor Dostoiévski, de Nikolai Gogol (Le Journal d’un fou, Le Nez, Le Revizor) e de Mikhaïl Boulgakov (Le Roman de Monsieur Molière). Formado também no Cours Simon, fundou em 2014 o coletivo Voix des Plumes e costuma assinar adaptação, direção e atuação. Seus espetáculos passaram pelo Lucernaire, Ranelagh e pelo Festival Off d’Avignon.
Partir do livro de Dostoiévski — uma delicada narrativa de amor, sonho e desilusão — e condensá-lo para uma peça que dura pouco mais de uma hora é, por si só, um ato de risco criativo. E, até certo ponto, esse risco foi mitigado: Rivière capta a essência do protagonista, um rapaz sonhador e solitário, que jamais conversou com uma garota e que é mais amigo dos prédios que vê nas ruas de São Peterburgo, do que de seres humanos. Sua atuação é sensível de uma maneira que faz crer que ele — de fato — se fundiu com a alma do personagem. Chetrit, por sua vez, constrói uma jovem cujo desejo de amor e de sonho respira nas pausas, mesmo que sua interpretação, em alguns momentos, não convença totalmente como a menina também sonhadora que a narrativa exige. Sua própria entrada em cena é algo um pouco exagerado, levando-se em conta o tom da narrativa: surge por detrás de um piano e sobe nele, apoiando-se numa coluna que, lembrando-nos da novela de Dostoievski, faria as vezes de grade para o rio Nieva onde os dois se encontram pela primeira vez. O pianista Mazal, com temas românticos — Rachmaninoff entre eles —, tece a atmosfera sonora própria da Rússia, que sustenta o sonho e o seu desvanecer.
A magnífica atuação de Ronan Rivière nos deixa hipnotizados: seu olhar, sua postura corporal, a forma como ele pousa e retira as suas mãos das de Nastenka nos envolvem, compensando a opção pela substituição da ambiência numa São Petersburgo dos fins do Século XIX para um banco sob uma placa “вокзал” (“estação ferroviária” em russo) evocando os tempos da União Soviética.
Tudo vai bem até o desfecho inesperado, que nos deixa perplexos. Na novela original, há um solilóquio final que é uma pequena epifania — uma linha de beleza quase irrepetível em Dostoiévski. O ator confessa seu amor por Nastenka, ela se surpreende e, diante da perspectiva de não mais voltar a ver aquele a quem amava, cogita a possibilidade de vir a ficar com o amigo sonhador. Mas na encenação de Rivière, talvez devido à ausência de um terceiro ator para representar o amado de Nastenka, cria uma lacuna. Em vez de desenvolver poeticamente o desenlace, a moça olha para o fundo do palco, sugerindo que vê alguém. Sorri e despede-se apressadamente, deixando o protagonista, sozinho no centro, que murmura: “A noite está linda.” As luzes se apagam e a plateia fica em silêncio por um longo tempo — um silêncio que talvez não seja de êxtase, mas confusão: pensamos apenas que a peça, que vinha se desenvolvendo tão bem, não poderia acabar assim, bruscamente! Tem-se a impressão de que o diretor, também intérprete principal, desprezou o momento mais belo da obra à pressa por um encerramento que pudesse provocar alguma emoção decorrente da ruptura.
Imagino que o ator e diretor refletiu muitas vezes sobre como resolver a cena final, trabalhando apenas com dois atores. Talvez tenha cogitado usar a figura do pianista, apenas para contracenar com a atriz no momento de seu retorno. Decerto não seriam exigidos grandes dotes dramáticos para fazer essa ponta. Pode ser ainda que a peça exigisse um tempo de duração rígido de 75 minutos, muito embora sempre fosse possível enxugar uma ou outra passagem do miolo para não sacrificar o epílogo. Em sua “Note d’intention”, Ronan Rivière afirmou que sua leitura de Noites Brancas foi a de uma comédia sobre o colapso da candura amorosa, escrita com o humor amargo de um jovem Dostoiévski, já desencantado aos 25 anos. Rivière afirma que a engrenagem da novela é tão sutil que nos surpreende ver aquele casal romanesco, ao qual nos havíamos afeiçoado, transformar-se em um “duo tóxico”. Ele, intencionalmente, coloca as personagens em figurinos que oscilam entre o popular e o abandono (a derrelição). (*)
É arriscado fazer adaptações artísticas — e ainda mais dirigir e encenar peças de teatro baseadas em obras que carregam sua própria grandeza literária. Há uma linha tênue entre a fidelidade e a criação, entre o texto e a cena. A melhor adaptação nem sempre é a mais fiel, nem a mais original: é aquela que nos faz acreditar que o texto de origem nasceu ali, naquele novo corpo de luz e som. Quando isso não acontece, mesmo com grande esforço e talento, o espectador tem a sensação de que faltou transformar texto em experiência. Adaptar é reinventar. Les Nuits Blanches vale a pena, se não pelos cinco minutos finais, sem dúvida pelos setenta iniciais. Espero poder ver muitas outras peças dirigidas, adaptadas ou encenadas por esse grande artista que é Ronan Rivière.
Lyon, 23-1-2026 / Paris, 12-2-2026
(*) - No original: “Ma lecture des Nuits Blanches est cella d’une comédie sur l’effondrement de la candeur amoureuse, écrite avec l’humour amer d’un jeune Dostoievski à 25 ans déjà désabusé. La mécanique est si fine qu’on est surpris que ce couple romanesque auguel on s’était attaché devienne un duo toxique. Ce drame est fait de détails comiques, d’incompréhensions et de réactions maladroites. Les personnages sont drôles et touchants, égocentrés mais fragiles, inteligents. Pour jouer avec la modernité de l’oeuvre tout em gardant la distance, j’ai transporté l’histoire dans la Russie soviétique des années 60, autour d’un abribus, lieu d’attente et de rencontre, un espace glauque, la nuit dans le coin d’un quartier de gare éclairé par des réverbères et j’ai glassé les personnages dans des costumes qui hésitent entre le pop et la déréliction. Le pianiste, présence étrange, fait écho à la langue de Dostoievski, oscillant entre le romantisme et la séchrenesse des musiques de Rachmaninov."





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