Abandonando o ‘Antropoceno’: por que ecólogos dizem que o termo ainda importa
- Guilherme Purvin
- 7 de out. de 2025
- 4 min de leitura
A revista Nature (News, 14 mar. 2024) publicou o artigo de David Adam, “Ditching ‘Anthropocene’: why ecologists say the term still matters” (DOI: 10.1038/d41586-024-00786-2). Após 15 anos de debates, geólogos decidiram não oficializar o Antropoceno como nova época geológica, mantendo o Holoceno; propunha-se 1952 como marco inicial (sedimentos com plutônio no lago Crawford, Canadá). O texto destaca que, apesar da decisão estratigráfica, o termo permanece relevante em pesquisa e debate público, como sustentam Chris Thomas, Jacquelyn Gill e Yadvinder Malhi. A seguir, apresenta-se a tradução integral em português, para fins exclusivamente didáticos e leitura privada (Curso de Literatura e Ecologia - DG FFLCH USP).
Além de definições estratigráficas, o nome tem um significado mais amplo para compreender o lugar dos humanos na Terra.
Por David Adam
Após 15 anos de discussão, geólogos decidiram na semana passada que o Antropoceno — geralmente entendido como a era dos impactos humanos irreversíveis no planeta — não se tornará uma época oficial na linha do tempo geológica da Terra.
A proposta rejeitada teria codificado o fim do atual Holoceno, em vigor desde o fim da última era do gelo, há 11.700 anos. Ela sugeria que o Antropoceno começou em 1952, quando o plutônio de testes de bombas de hidrogênio apareceu no sedimento do lago Crawford, perto de Toronto, Canadá.
A votação gerou controvérsia sobre detalhes processuais, e o debate sobre sua legitimidade continua. Mas, seja ou não formalmente aprovado como termo estratigráfico, a ideia do Antropoceno está agora firmemente enraizada na pesquisa. Então, como os cientistas estão usando o termo e o que ele significa para eles e seus campos?
‘É um termo que pertence a todos’Como diretor do Leverhulme Centre for Anthropocene Biodiversity na Universidade de York, Reino Unido, Chris Thomas talvez tenha mais em jogo no termo do que a maioria. “Quando a notícia disso — o que parece uma votação um tanto duvidosa — aconteceu, pensei: é o nosso fim? Mas acho que não”, diz ele.
Para Thomas, a palavra Antropoceno resume bem a ideia de que os humanos fazem parte do sistema terrestre e são integrais a seus processos — o que ele chama de interconexão indivisível. “Isso ajuda a nos afastar da noção de que, de alguma forma, a humanidade está separada do resto da natureza e dos sistemas naturais”, afirma. “É irreversível — a mudança está em toda parte.”
O conceito de uma era de mudanças impulsionadas pelos humanos também fornece um terreno comum conveniente para que ele colabore com pesquisadores de outras disciplinas. “Isso é algo que pessoas das artes, humanidades e ciências sociais também adotaram”, diz. “É um meio de possibilitar a comunicação sobre até que ponto vivemos em um mundo verdadeiramente inédito e alterado pelos humanos.”
Sob essa ótica, o fato de o Antropoceno ter sido formalmente rejeitado porque os cientistas não conseguem concordar sobre quando começou parece irrelevante. “Muitas pessoas nas humanidades que usam a expressão acham que a ideia de articular um ano específico, com base em um depósito em um lago específico, é uma forma ridícula de enquadrar o conceito de um planeta alterado pelos humanos.”
Jacquelyn Gill, paleoecóloga da Universidade do Maine, em Orono, concorda. “É um termo que pertence a todos. Às pessoas que trabalham em filosofia e crítica literária, nas artes, nas humanidades, nas ciências”, afirma. “Acho que é muito mais significativo na forma como está sendo usado atualmente do que em quaisquer tentativas que estratígrafos poderiam ter feito para restringi-lo ou defini-lo em algum sentido estreito.”
Ela acrescenta: “Serve melhor à humanidade como um conceito flexível que podemos usar para definir algo que todos compreendemos amplamente, que é o fato de vivermos em uma era em que os humanos são a força dominante nos processos ecológicos e geológicos.”
Capturando influências humanasA ideia do Antropoceno é especialmente útil para deixar claro que os humanos moldam o planeta há milhares de anos e que nem todas essas mudanças foram ruins, diz Gill. “Poderíamos fazer melhor em pensar sobre as relações humano–ambiente de maneiras que não sejam inerentemente negativas o tempo todo”, afirma. “As pessoas não são um monólito, e tampouco nossas atitudes ou relações com a natureza.”
Cerca de 80% da biodiversidade está atualmente sob os cuidados de terras indígenas, aponta Gill. “O que já deveria lhe dizer algo, certo? Que não é a presença das pessoas que é o problema”, diz. “A solução para esses problemas é mudar a forma como muitas culturas dominantes se relacionam com o mundo natural.”
O conceito de Antropoceno pertence a muitos campos, afirma Gill. “Isso reitera a importância de compreender que o papel das pessoas em nosso planeta exige muitas formas diferentes de conhecimento e muitas disciplinas diferentes.”
Humanos versus Terra: a busca para definir o Antropoceno
Em um mundo em que a ameaça das mudanças climáticas domina os debates ambientais, o termo Antropoceno pode ajudar a ampliar a discussão, diz Yadvinder Malhi, pesquisador de biodiversidade da Universidade de Oxford, Reino Unido.
“Uso o termo o tempo todo. Para mim, ele captura o momento em que a influência humana tem um efeito planetário global, e é multidimensional. É muito mais do que apenas mudanças climáticas”, diz. “É o que estamos fazendo. Os oceanos, os recursos que estamos extraindo, habitats mudando.”
Ele acrescenta: “Preciso desse termo quando tento capturar a ideia de humanos afetando o planeta de várias maneiras por causa da escala de nossa atividade.”
A flexibilidade do termo é popular, mas uma definição formal ajudaria de alguma forma? Malhi acha que sim. “Não há outro termo disponível que capture os impactos globais multidimensionais sobre o planeta”, afirma. “Mas há um problema em não ter uma definição formal se as pessoas estão usando em termos diferentes, de maneiras diferentes.”
Embora a palavra ‘Antropoceno’ faça alguns pesquisadores pensarem em processos que começaram há 10.000 anos, outros a consideram como referente apenas ao último século. “Acho que uma adoção formal, como uma definição, realmente ajudaria a esclarecer isso.”




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