• Guilherme Purvin

Nos tempos em que o humor era possível (1)

Atualizado: 15 de jul.

- Guilherme Purvin -


Busto de Aristóteles. Mámore, cópia romana de um original grego em bronze por Lísipo cerca 330 AEC; o manto em alabastro é uma adição moderna. Domínio público.

É conhecidíssima a afirmação de Aristóteles que, enquanto a comédia procura imitar os homens piores, a tragédia aqueles melhores do que ordinariamente são: “A tragédia é, como dissemos, imitação de homens inferiores; não, todavia, quanto a toda a espécie de vícios, mas só quanto àquela parte do torpe que é ridículo. O ridículo é apenas certo defeito, torpeza anódina e inocente; que bem o demonstra, por exemplo, a máscara cômica, que, sendo feia e disforme, não tem [expressão de] dor” (1979:245).


O fato de nunca ter sido escrito (ou não haver chegado a nós) nenhum estudo mais alentado de Aristóteles sobre a relevância e o alcance da comédia levou Umberto Eco a escrever o romance O nome da rosa. A trama desse best seller que tornou o autor famoso fora do círculo acadêmico é a existência de estudo de Aristóteles sobre a comédia que é guardado a sete chaves pela igreja católica, temerosa de seu poder subversivo.


O humor é subversivo pois desconstrói narrativas do poder e se faz presente em praticamente toda obra literária. Não é preciso distinguir tragédias de comédias. Mikhail Bakhtin negava a existência de gêneros estanques (tragédia / comédia), já que “a riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infinitas, porque são inesgotáveis as possibilidades da multifacetada atividade humana e porque em cada campo dessa atividade vem sendo elaborado todo um repertório de gêneros do discurso, que cresce e se diferencia à medida que tal campo se desenvolve e ganha complexidade” (2016:12). Se tomarmos uma série de discursos políticos, de autoria dos mais diversos nomes do espectro político brasileiro, vai ser muito difícil encontrar um único que não se valha ao menos uma ou duas vezes de recursos humorísticos, quando mais não seja como recurso para manter a atenção da audiência.


Como aconteceu com muita gente de minha geração, meu gosto pela Literatura começou nos bancos escolares. Se fosse, contudo, mencionar três livros que me marcaram na infância e pré-adolescência, nenhum deles, que eu me recorde, apresentava laivos de humorismo. Um deles era Os meninos da Rua Paulo, do húngaro Ferenc Molnar e que foi traduzido primorosamente no Brasil por Paulo Rónai. O tema era a lealdade entre amigos. Outro, que por acaso encontrava-se na estante de livros de meus pais, era Viagem ao centro da Terra, de Jules Verne – um livro de aventuras que alimentou em muito meu interesse pela ciência. Mais tarde, já com 13 ou 14 anos, fiquei comovido com o romance Olha os lírios do campo, de Érico Veríssimo, que nada tinha de engraçado.


Isso, porém, não fazia de mim ou dos meus amigos de infância e pré-adolescência indivíduos cabisbaixos e sensaborões. Brincávamos, e muito. Lembro-me de um coleguinha com quem voltava para casa na mesma perua escolar, um certo Giacomo Salemo, que tinha mais ou menos o mesmo tipo de humor. Ríamos desbragadamente com piadas absurdas, jogos mentais em que revertíamos expectativas lógicas, tudo no mais completo nonsense. O riso era contagiante e parecia incomodar demais o motorista da perua escolar, que às vezes parava o veículo só para ver se nosso riso decorria de alguma travessura que estivéssemos praticando com outros colegas. Não era nada: todo o humor passeava exclusivamente por nossas cabeças.


Para não deixar passar em brancas nuvens, decerto havia contato com o humor das histórias em quadrinhos e desenhos animados. Mas uma experiência marcante foi a peça Pluft, o Fantasminha, de Maria Clara Machado, que minha irmã Silvia resolveu encenar com a turma da rua. Nela eu fazia o papel do sonolento Tio Gerúndio, um dorminhoco fantasma que só acordava para comer pastéis. Eu era totalmente incompetente para desempenhar qualquer papel, pois não conseguia conter o riso no momento de minhas poucas falas. Pode-se dizer que eu era um verdadeiro bobo-alegre...


E foi nessa condição de bobo-alegre que, já com 16 anos ou mais comecei a me deparar com uma Literatura bem mais instigante do que tudo o que vinha lendo até então (Joaquim Manoel de Macedo, José de Alencar, Júlio Dinis). Primeiro foram os livros da maturidade de Machado de Assis. Não mais Helena ou Iaiá Garcia, mas Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. Li-os numa sentada, sem ser obrigado pela escola, assim como Manuel Antonio de Almeida e suas Memórias de um Sargento de Milícias. Depois veio Mário de Andrade e o Macunaíma. Cada obra dessas me deixava extasiado. Já no início da Faculdade de Direito da USP conheci a obra de Oswald de Andrade, que era lançada pela Civilização Brasileira. Fiquei pasmo com Memórias Sentimentais de João Miramar e com Serafim Ponte Grande – que, por sinal, reli há alguns meses com idêntica fascinação. E mais, conheci Cervantes, Rabelais, Pirandello.


O que havia de comum entre as obras de todos esses autores era, basicamente, o uso de boas doses de humor, ironia e nonsense na narrativa – o que as tornava muito mais próximas de minha própria forma de sentir e pensar. Para mim, que não conseguia controlar o riso diante de certos rituais cômicos nas missas a que éramos obrigados a assistir toda primeira sexta-feira do mês na capela do colégio, a ponto de certo dia ter sido expulso da igreja pelo Padre Ballint, saber que havia um lugar privilegiado do conhecimento humano inteiramente dedicado ao riso era um bálsamo. Estava redimido: não era um doido ou, se era, estava bem acompanhado por nomes respeitáveis da Literatura, do Teatro e do Cinema.


(continuação)

 

Guilherme Purvin é escritor, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros. Graduado em Letras e Direito pela USP, doutor em Direito Ambiental. Presidente do IBAP. Fundador e ex-coordenador geral da APRODAB. É editor da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares


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