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  • Guilherme Purvin

Roda de conversa no quintal da Biblioteca Nacional de STP

Guilherme Purvin



Foto: (c) Guilherme Purvin

A Biblioteca Nacional de São Tomé e Príncipe leva o nome do geógrafo e poeta Francisco José Tenreiro. Nascido na ilha de São Tomé no dia 20 de janeiro de 1921, Tenreiro partiu ainda cedo para Lisboa e, em 1961, obteve o diploma de geógrafo na Universidade de Lisboa, passando a trabalhar como professor no Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina. Foi deputado de São Tomé e Príncipe na Assembleia Nacional Portuguesa e tornou-se conhecido mundialmente através de sua poesia. Dentre seus poemas, um dos mais famosos é a "Canção do Mestiço":

Mestiço!

Nasci do negro e do branco

e quem olhar para mim

é como se olhasse

para um tabuleiro de xadrez:

a vista passando depressa

fica baralhando corno olho alumbrado de quem me vê.

Mestiço!

E tenho no peito uma alma grande

uma alma feita de adição

como 1 e 1 são 2.

Foi por isso que um dia

o branco cheio de raiva

contou os dedos das mãos

fez uma tabuada e falou grosso:

- mestiço!

a tua conta está errada.

Teu lugar é ao pé do negro.

Ah!

Mas eu não me danei ...

E muito calminho

arrepanhei o meu cabelo para trás

fiz saltar fumo do meu cigarro

cantei do alto

a minha gargalhada livre

que encheu o branco de calor! ...

Mestiço!

Quando amo a branca

sou branco...

Quando amo a negra

sou negro.

Pois é...


A Biblioteca Nacional Francisco José Tenreiro foi inaugurada em 2002, graças sobretudo ao financiamento pela República Popular da China. Além das salas de leitura, a biblioteca oferece outros serviços como rodas de conversa no quintal, com a participação de convidados especiais, ou ainda laboratórios de (re)escrita, espécie de oficina literária.


Na condição de coordenador internacional do IBAP, eu havia agendado com a diretora da biblioteca, Sra. Marlene José, uma cerimônia de doação dos livros "Estudos de Direito Ambiental", "Colapso - Narrativas do Antropoceno" e "Os Sacramentos", assim como de meus quatro livros individuais de contos, "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises", "Virando o Ipiranga" e "Paredes Descascadas". Recebi então o gentil convite para ministrar uma palestra na tarde do dia 15 de janeiro, sobre o tema "Consciência Ambiental e Literatura", inaugurando as "Rodas de Conversa no Quintal" do ano de 2024.


Arte: (c) Biblioteca Nacional de STP
Foto: (c) Guilherme Purvin
Foto: (c) Guilherme Purvin

A experiência foi muito gratificante. Além da própria diretora da biblioteca, conheci escritores das novas gerações, integrantes da AJES - Associação dos Jovens Escritores Santomenses; a representante da Direcção Geral de Cultura de São Tomé e Príncipe; o colega advogado, professor e escritor Pedro Sequeira de Carvalho, que lançou recentemente o romance "Leonor" pela Editora Chiado; e o neto do grande geógrafo e poeta Francisco José Tenreiro, o astrofísico Francisco Cabral, que está em São Tomé e Príncipe para participar da comemoração do aniversário de nascimento do patrono da biblioteca (próximo dia 20 de janeiro).


Foto: (c) Ana Bonchristiano

Foto: (c) Ana Bonchristiano

Na oportunidade, discorri sobre a importância da inserção das questões ambientais na Literatura, ao lado de outros temas também relevantes como combate à desigualdade de gênero e ao racismo. Iniciei minha exposição citando a abertura do romance "Ressurreição", de Leon Tolstoi, em cujos parágrafos iniciais ressalta que o que realmente importa para a felicidade humana é tudo o que a natureza já nos oferece: as águas, as árvores com suas flores e frutos, a luz do sol. No entanto, ignorando a beleza da primavera, o ser humano se embrenha em problemas e intrigas egoistas, totalmente cego ao que realmente importa na vida. Falei sobre a surpresa que foi conhecer a natureza num lugar paradisíaco como Príncipe e sobre o valor inestimável que é o caráter do povo santomense, sobretudo no que diz respeito à solidariedade e ao respeito ao próximo. Expus meu ponto de vista a respeito das roças visitadas, da gestão de resíduo sólido urbano (sobretudo embalagens dos produtos importados) e do modelo de economia que o povo santomense pretende adotar: uma vocação para o turismo ecológico e cultural ou para a degradação ecológica?


A diretora Marlene José abriu então a roda para a participação de todos. As intervenções foram todas muito enriquecedoras, sobretudo por parte dos jovens escritores. Dentre as propostas apresentadas, chamou-me a atenção a de Francisco Cabral, neto de Francisco José Tenreiro, para que as roças hoje praticamente abandonadas transformem-se em sítios produtivos voltados à educação ambiental e à agroecologia. A ideia pareceu-me estupenda: nem a "gourmetização" de roças para um turismo de elite, nem a volta aos velhos métodos coloniais pouco preocupados com a questão ambiental, mas algo novo, inteiramente consentâneo com os objetivos do milênio elencados pela Organização das Nações Unidas.


Foto: (c) Ana Bonchristiano

Firmamos por fim uma parceria do IBAP e da APRODAB com a Biblioteca Nacional (e demais órgãos culturais de STP) para os próximos literários, a começar com o 6º Concurso Literário da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, que deverá adotar como eixos temáticos as questões envolvendo "Igualdade de Gênero", "Justiça Socioambiental", "Democracia Participativa" e "Cidadania Plena".


São Tomé, 16/1/2024

Guilherme Purvin





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