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  • Guilherme Purvin

"Le Métèque" George Moustaki, uma conexão Grécia-França-Brasil

- Guilherme Purvin -


A sonoridade metálica dos instrumentos gregos de cordas tangidas sempre me fascinou. Na infância e adolescência, não me cansava de ouvir certas canções como Lady D'Arbanville, de Cat Stevens, ou She came up from the North, clássico grego de Manos Hadjidakis na voz de Demis Roussos, que eu conhecia como vocalista da banda Aphrodite's Child. Tanto Steve Demetre Georgiou como Artemios Ventouris Roussos tinham ascendência grega e não escondiam a influência musical recebida de suas famílias. Vale lembrar que na década de 1960, o filme "Zorba, o Grego", fizera um sucesso estrondoso em todo o planeta. Sua trilha sonora, composta por Mikis Theodorakis, é conhecida até hoje, decorridos quase sessenta anos do seu lançamento.


Steve Demetre mudou o nome para Cat Stevens e Artemios Ventouris para Demis Roussos. Mas, dentre os cantores de origem grega, pelo menos um deles optou por não adotar o inglês. Seu nome era Yussef Mustacchi, nascido em Alexandria, em 3 de maio de 1934. Em 1951, sua família judia migrou para Paris, onde ele viria conhecer Georges Brassens. Sua admiração pelo músico francês motivou-o a adotar seu primeiro nome. Agora era Georges Moustaki.


De acordo com o obituário do jornal The Guardian, Moustaki dizia que seu gosto pela música veio das canções francesas: Charles Trénet, que o encantou, e a quem, muito tempo depois, revelaria sua admiração; Henri Salvador; Georges Ulmer; Yves Montand; Georges Guétary, Luis Mariano: "Eu pegava as calças compridas do meu pai (quando era jovem) para ir ouvi-los cantar. Eu ouvia Piaf com a minha mãe quando tinha 13 anos, 10 anos antes de conhecê-la pessoalmente", disse ele. Esse encontro se daria no final dos anos 1950, por intermédio de amigos comuns, que o apresentaram como um grande compositor. A musa da canção francesa, com uma dose de sarcasmo, pediu então para que ele tocasse suas melhores canções. Conta Moustaki: "Peguei um violão e fui lamentável. Mas algo deve tê-la tocado. Ela me pediu para ir vê-la se apresentar na mesma noite no Olympia e mostrar a ela depois as músicas que eu tinha acabado de massacrar."

A mais famosa composição de Moustaki para Édith Piaf, com quem teve um período de amor tórrido foi "Milord," que fala sobre uma garota de classe baixa que se apaixona por um aristocrata britânico. A canção chegou ao 1º lugar na Alemanha.

Sua consagração na França viria a ocorrer no ano de 1969, quando Moustaki lançou um álbum chamado Le Métèque. Nesse LP, pelo menos uma canção tornou-se conhecida no Brasil, a bonita Joseph, que foi gravada no ano seguinte por Rita Lee, em seu primeiro álbum solo, Build Up:

O título do álbum de 1969, "Le métèque" tem origem grega. A palavra"μέτοικος" (métoikos) era usada na Atenas antiga para se referir a estrangeiros ou pessoas de outras cidades-estados que viviam na cidade. Em Atenas, os "métoikos" eram geralmente estrangeiros que não tinham a cidadania ateniense, mas que viviam na cidade e tinham certas obrigações legais e fiscais. Moustaki, com essa canção de sua autoria, trouxe essa nova palavrinha para o idioma de Rabelais, muitas vezes utilizada pejorativamente para referir-se a um estrangeiro residente na França.


Diz a letra da canção "La métèque":


Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec et mes cheveux aux quatre vents

Com minha aparência de "métèque", de judeu errante, de pastor grego e meus cabelos aos quatro ventos

Avec mes yeux tout délavés qui me donnent l'air de rêver, moi qui ne rêve plus souvent Com meus olhos tão desbotados que me fazem parecer sonhar, eu que não sonho mais frequentemente

Avec mes mains de maraudeur, de musicien et de rôdeur qui ont pillé tant de jardins Com minhas mãos de marujo, de músico e de vagabundo, que saquearam tantos jardins

Avec ma bouche qui a bu, qui a embrassé et mordu sans jamais assouvir sa faim

Com minha boca que bebeu, que beijou e mordeu sem jamais saciar sua fome


Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec et mes cheveux aux quatre vents

Com minha aparência de "métèque", de judeu errante, de pastor grego e meus cabelos aos quatro ventos

Avec ma peau qui s'est frottée au soleil de tous les étés et tout ce qui portait jupon Com minha pele que se bronzeou sob o sol de todos os verões e tudo o que usava vestido

Avec mon cœur qui a su faire souffrir autant qu'il a souffert sans pour cela faire d'histoires

Com meu coração que soube fazer sofrer tanto quanto sofreu, sem fazer disso um escândalo Avec mon âme qui n'a plus la moindre chance de salut pour éviter le purgatoir

Com minha alma que não tem mais chance de salvação para evitar o purgatório


Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec et mes cheveux aux quatre vents

Com minha aparência de "métèque", de judeu errante, de pastor grego e meus cabelos aos quatro ventos

Je viendrai ma douce captive, mon âme sœur, ma source vive, je viendrai boire tes 20 ans Eu virei, minha doce cativa, minha alma gêmea, minha fonte viva, eu virei beber dos teus vinte anos

Et je serai prince de sang, rêveur ou bien adolescent comme il te plaira de choisir

E serei um príncipe de sangue, sonhador ou adolescente, como preferires escolher

Et nous ferons de chaque jour toute une éternité d'amour que nous vivrons à en mourir

E faremos de cada dia uma eternidade de amor que viveremos até o fim


Et nous ferons de chaque jour / E faremos de cada dia Toute une éternité d'amour / Uma eternidade de amor Que nous vivrons à en mourir / Que viveremos até o fim


Da mesma forma que Henri Salvador, Georges Moustaki também tinha uma estreita ligação com a cultura brasileira. No início dos anos 1970, começou a frequentar o nosso país e se apaixonou pelos nossos maiores compositores.


A cantora francesa Nicoletta representou a Grécia no VII Festival Internacional da Canção, no ano de 1972, interpretando Rien n’a Changé, de Georges Moustaki. Também dele era a canção Mon Vieux Joseph (ou Joseph), que ganhou uma versão da brasileira Nara Leão, gravada por Rita Lee no disco Build Up (1970)


Sua releitura de "Fado Tropical", de Chico Buarque e Ruy Guerra é tocante, pois Moustaki realiza uma transformação radical do significado da canção original, permanecendo porém fiel à atmosfera e ao simbolismo da obra original, de alguma forma transcrevendo para o âmbito da canção a reviravolta do "vento da história" que sopra sobre Portugal em 1974, como destaca Adriana Coelho-Florent em seu artigo Fado tropical de Chico Buarque et Portugal de Georges Moustaki. De la dictature de Salazar à la Révolution des œillets au Portugal.


Oh muse ma complice / Petite sœur d'exil

Ó musa minha cúmplice / Irmãzinha de exílio Tu as les cicatrices / D'un 21 avril

Você tem as cicatrizes / De um 21 de abril


Comentário: escolha da data não foi aleatória. Se Chico Buarque referia-se ao golpe empresarial militar de 1º de abril de 1964, Georges Moustaki foi buscar na história da Grécia a data equivalente: 21 de abril de 1967, dia em que ocorreu o golpe de estado dos coronéis no país de seus pais, retratado no clássico "Z", filme do também grego Costa-Gavras e cuja exibição foi censurada no Brasil.


Mais ne sois pas sévère / Pour ceux qui t'ont déçue

Mas não seja severa / Com aqueles que te desapontaram

De n'avoir rien pu faire / Ou de n'avoir jamais su

Por não terem feito nada / Ou por nunca terem sabido

A ceux qui ne croient plus / Voir s'accomplir leur idéal

Para aqueles que não acreditam mais / Que seu ideal se realize

Dis leur qu'un œillet rouge / A fleuri au Portugal

Diga a eles que um cravo vermelho / Floresceu em Portugal


Comentário: Há que se levar em conta que "Fado Tropical" foi composto um ano antes da Revolução dos Cravos


On crucifie l'Espagne / On torture au Chili

Espanha está sendo crucificada / Tortura acontece no Chile La guerre du Viêt-Nam / Continue dans l'oubli

A guerra do Vietnã / Continua no esquecimento


Comentário: O que era uma parábola sobre a ditadura militar brasileira, na versão de Georges Moustaki transforma-se num libelo contra todas as ditaduras no mundo. A alusão à Espanha de Francisco Franco, que contou com a conivência, quando não com a participação ativa da Igreja Católica, é pertinente, pois somente em 20 de novembro de 1975 é que o líder espanhol morreria, pondo um fim 36 anos de ditadura. Por outro lado, em 11 de setembro de 1973, Augusto Pinochet comandaria o golpe que culminaria com a morte de Salvador Allende e de artistas como Victor Jara, uma das milhares de pessoas presas no Estádio Nacional do Chile.


Aux quatre coins du monde / Des frères ennemis

Nos quatro cantos do mundo / Irmãos inimigos S'expliquent par les bombes / Par la fureur et le bruit

Se explicam com bombas / Com fúria e barulho

A ceux qui ne croient plus / Voir s'accomplir leur idéal

Para aqueles que não acreditam mais / Que seu ideal se realize Dis leur qu'un œillet rouge / À fleuri au Portugal

Diga a eles que um cravo vermelho / Floresceu em Portugal

Pour tous les camarades / Pourchassés dans les villes

Para todos os camaradas / Perseguidos nas cidades Enfermés dans les stades / Déportés dans les îles

Presos nos estádios / Deportados para as ilhas

Oh muse ma compagne / Ne vois-tu rien venir

Oh, musa minha companheira / Não vês nada chegando? Je vois comme une flamme / Qui éclaire l'avenir

Vejo como uma chama / Que ilumina o futuro A ceux qui ne croient plus / Voir s'accomplir leur idéal

Para aqueles que não acreditam mais / Que seu ideal se realize Dis leur qu'un œillet rouge / À fleuri au Portugal

Diga a eles que um cravo vermelho / Floresceu em Portugal

Débouche une bouteille / Prends ton accordéon

Abra uma garrafa / Pegue seu acordeão Que de bouche à oreille / S'envole ta chanson

Que de boca em boca / Sua canção se espalhe

Car enfin le soleil / Réchauffe les pétales

Pois afinal o sol / Aquece as pétalas De mille fleurs vermeilles / En avril au Portugal

De mil flores vermelhas / Em abril em Portugal

Et cette fleur nouvelle / Qui fleurit au Portugal

E esta nova flor / Que floresce em Portugal C'est peut-être la fin / D'un empire colonial?

Pode ser o fim / De um império colonial?


Adriana Coelho-Florent, examinando a versão de Georges Moustaki, considerou que a letra de "Portugal" foi quase completamente modificada, de acordo com o novo contexto em que agora se inseria (pós-25 de abril de 1974). Nesse sentido, a nova versão acabou sendo mais fiel à canção original do que aparenta. E conclui afirmando, com razão, que a "musa cúmplice" de Georges Moustaki, seria uma bela infiel revolucionária, muito mais próxima daquela de Chico Buarque do que a imagem politicamente correta de um triunfante lusofonismo que tenta ocultar.


Moustaki ainda elaboraria outras versões francesas de canções brasileiras, como o clássico de Tom Jobim "Águas de Março", que podemos ouvir no próximo vídeo, numa interpretação de Maria Teresa & Moustaki Quartet para o álbum "Pour un ami", lançado em outubro de 2016.


Em seu livro "Les Filles de la Mémoire" (As filhas da memória), publicado em 1988, Georges Moustaki dedicou um capítulo, "Brésil" (pp.188-194) para falar de sua visita ao Brasil e de sua amizade com Jorge Amado e Zélia Gattai. Aliás, em artigo publicado na revista literária "Europe", fundada por Romain Rolland, dizia Georges Moustaki:


“Há trinta anos, lendo Mar Morto, eu descobri Jorge Amado. Eu devorei literalmente este romance. Não como uma imagem. Eu tive uma verdadeira impressão de participar de uma festa, destas de sabores, de cores, de odores, de sensualidade, de lirismo, de revolta, de irreverência e calmaria, de coragem e de humor. Encher os olhos, tocar os lábios, entender as músicas que acompanham luto e alegria, namorar com as meninas, me embriagar com os marinheiros, chorar de rir e também por se entristecer, me inquietar pelos pescadores valentes que entram no mar todo o tempo, vibrar pelos heróis retirados do cotidiano baiano, e que se tornam figuras legendárias através das penas de Jorge Amado. Este foi meu primeiro encontro com ele. Este encontro me deu a vontade de conhecer toda sua obra. Foi o que eu fiz. E continuo a fazer” (In: Joice Lemos dos Santos. A recepção da obra de Jorge Amado na França. Linguistics. Université Rennes 2; Universidade federal da Bahia, 2018. Portuguese. NNT : 2018REN20072. tel-02024326)


Concluo este artigo em homenagem a George Moustaki, falecido em maio de 2013, com uma referência ao álbum que gravou no Rio de Janeiro, em 2005. "Vagabond" traz, além de sua versão de Águas de Março, uma composição especialmente dedicada ao seu ídolo, "Tom", repleta de citações melódicas do mais conhecido compositor brasileiro no planeta, onde se refere, entre outros, às suas amigas Nara Leão e Elis Regina.


 

Guilherme Purvin é escritor. Formado em Direito e em Letras pela USP, doutor em Direito Ambiental. Autor dos livros de contos "Virando o Ipiranga" (semifinalista do Prêmio Oceanos de 2022), "Sambas & Polonaises" e "Laboratório de Manipulação". Toda a sua produção literária pode ser adquirida pelo site da Editora Terra Redonda.

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