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O portuguës de Vladivostok - 1

27 de jul.
4 min de leitura

A fotografia


Houve um tempo em que fotografar exigia solenidade. Não era como nos dias de hoje, em que, por qualquer motivo, a qualquer tempo, a pessoa saca o celular do bolso e publica a imagem irrelevante para todos os seus seguidores, que devem ter a delicadeza de colocar um polegar para cima ou um coração na postagem, comprovando a visualização. Não. A começar pela máquina de fotografar: sanfonadas, com lentes sobressalentes. Era preciso comprar o rolo de filme. Era preciso estar num lugar muito escuro, inserir o filme virgem no compartimento traseiro da máquina, fixar a ponta do filme numa fenda de um rolo giratório, tudo feito quase às cegas. Procedimento que exigia habilidade e concentração de um adulto. Normalmente, comprava-se um rolo de filme para doze poses, às vezes vinte e quatro. E, depois que o filme estivesse devidamente inserido, vinha o momento da fotografia. O preço do filme impunha maior rigor na escolha do cenário, da ocasião a ser rememorada: uma festa de aniversário, um casamento, um batizado, o Natal. Ou então um dia especial em que, por qualquer motivo, valesse a pena retirar a máquina fotográfica da caixa.

A foto era em preto e branco. O mundo era colorido. Por isso, a foto não mentia: ela não era o mundo que vivíamos, apenas o sugeria. O menino usa um boné branco e vestia um calção com suspensórios azul claro. Seu pai está agachado, de cócoras, amparando o filho que ainda mal se equilibra. Um homem de seus 35 anos de idade. Jovial e elegante, distingue-se do comum dos moradores daquela região da Mooca, onde o mundo rural é apenas resgate arqueológico de uma realidade fabril. Normalmente, o pai estaria usando terno e gravata, mas desta vez está apenas com a camisa branca, as mangas parcialmente erguidas, dobradas até a metade do antebraço, deixando ver o relógio de pulso. Como sempre, calça sapatos pretos de couro, bem engraxados, reluzentes.

As mulheres, onde estariam nesse momento? Na cozinha, todas elas, ajudando a sogra daquele homem a preparar o almoço. A imagem é nítida, quem quer que estivesse empunhando a câmera, excepcionalmente, teria mantido as mãos firmes. O pai parece querer brincar com o filho, tenta convencê-lo a voltar o rosto na direção do fotógrafo, talvez o cunhado, ou o sogro. A foto é batida antes que o menino atenda ao pedido do pai, o fotógrafo perdeu a paciência com aquela experiência cujos frutos somente serão conhecidos dentro de algumas semanas, depois que todo o rolo seja rodado e que o filme seja levado para revelação.

Uma foto prematura, flagrante de um momento numa manhã de verão de 1959. No terreiro lateral à casa dos sogros, o filho tem a atenção voltada para o Duque. Duque é o cão de guarda da família. Cães têm uma função, são vigilantes da casa e é somente por isso que são alimentados. Duque está preso do outro lado do quintal, atrás da câmera, no muro que separa a propriedade do sogro, Sr. José, e a do vizinho garrafeiro, um certo senhor sobre quem, nos próximos anos, a mãe do menino sempre lembrará: “Quem não estuda, vai puxar carroça para o resto da vida, como o Sr. Arlindo”.

Duque não está ali para brincar. É uma fera acorrentada, que é solto à noite, para proteger a casa, resquício de alguma época em que se pensou que aquele lugar teria vocação para tornar-se um bairro residencial. Mas tudo à volta são galpões industriais, à exceção da casa do carroceiro. Dois portões de metal, um deles para a passagem de pessoas, outro para veículos. Só há uma pessoa na família com um veículo: Guerino, marido da cunhada que mora em São Caetano do Sul. Tem um caminhão de mudanças e chama o pai do garoto de “português”. O homem de terno aceita a alcunha, alegra-se por sua nacionalidade, embora nascido na Sibéria. Seu filho cresceria ouvindo o tio de bigode e barrigão chamando o pai de “português”. Mas, mais tarde, a lembrança daquela palavra soaria como um insulto. “O português”, um tom de desprezo como se dissesse “o carroceiro”, dirigido àquele homem que tinha diploma universitário.

O filho nem sabia que a avó, a sogra, é também portuguesa, e, no caso dela, veio de Lamego, não de Vladivostok como seu pai. Mesmo o sogro, o avô, tinha tanto sotaque português quanto o pai. Isso apesar de nascido em São Paulo, na Ladeira Porto Geral, pertinho do Mercado da Cantareira. Mas, na voz desse concunhado, desse tio, o tio do caminhão, Guerino, parente (irmão? cunhado? primo? tudo ao mesmo tempo?) do Sr. Arlindo carroceiro, a palavra “português” era uma resposta: sim, Guerino era motorista de caminhão, não tinha diploma, mas sabia fazer contas e não tinha sotaque, falava como qualquer paulistano da Mooca.

Guerino era casado com Jandira, filha mais velha do Sr. José; o pai do menino casara-se com Alice, a irmã dela. Não tinha filho; o Adolfinho havia morrido aos cinco anos. “Português”. Uma cusparada de Guerino tão grande quanto a que passaria a dar ao sobrinho nos tempos dos Beatles, tratando-o por “a menininha”, pelos cabelos longos. Adolfinho, tivesse vingado, teria agora quinze anos. Estaria ajudando Guerino nas mudanças, com cabelos cortados como homem, não como esse degenerado filho do português.

Mas neste exato momento em que é fotografado, o menino não sabe a diferença entre tios, vizinhos, italianos, judeus, portugueses, engenheiros, carroceiros, caminhoneiros. Não sabe de nenhum primo. Só sabe que não deve se aproximar do Duque, que basta um movimento do animal para derrubá-lo. Só sabe que seu pai está ali ao seu lado, amparando seus passos para que não caia no chão.

Quando crescer, o cão não estará mais naquele enorme terreiro. Não restará mais ninguém naquela propriedade. Até mesmo o próprio lugar deixará de existir. Primeiro diminuirá de tamanho, passará de resquício de uma fazenda para passagem de carro, de casa para terreno baldio, galpão de fábrica, vazio. Mas agora estão lá o pai e o filho, e daqui a pouco ele e sua irmã brincarão de “Aventuras Submarinas”, ele pilotando o terraço transformado em barco, Duque em monstro marinho. Mais um pouco, o pai colocará terno e gravata, embarcará para os Estados Unidos, em missão profissional. E o menino já não saberá dizer se tudo aquilo realmente aconteceu ou não passou de uma explicação inventada para essa velha foto em branco e preto. A única em que os dois aparecem juntos. Sem figurantes. Somente os dois: pai e filho, filho e pai.

 


 
 
 

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