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Mineração de carvão na China: História e impactos sociais

Guilherme José Purvin de Figueiredo


A Glimpse of the Coal Capital (1961). Artista: Fu Baoshi (Chinese, 1904-1965). 1961. China. Horizontal scroll; ink and color on paper. Nanjing Museum. Fonte: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/76706
A Glimpse of the Coal Capital (1961). Artista: Fu Baoshi (Chinese, 1904-1965). 1961. China. Horizontal scroll; ink and color on paper. Nanjing Museum. Fonte: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/76706

Dentre as fontes mais poluentes em termos de emissão de gases de efeito estufa (GEE), considerando seu impacto global e potencial de aquecimento, a queima de carvão mineral ocupava em 2023 o primeiro lugar, conforme tabela[1] a seguir:


 

Fonte de emissão

%

Principais gases emitidos

1

Geração de energia por queima de carvão mineral

~30%

CO2 (principal), CH4, N2O, SOx

2

Petróleo (Transporte/Indústria)

~25%

CO2, NOx, MP (material particulado)

3

Gás Natural (Combustão, vazamentos)

~18%

CO2, CH4

4

Pecuária Intensiva (Agropecuária)

~14%

CH4 (gado), N2O (esterco)

5

Mudança no uso da terra (desmatamento e queimadas)

~10%

CO2 (biomassa), CH4


A China, sozinha, consome mais de 50% do carvão mineral mundial, o que a torna o maior emissor global de dióxido de carbono. Trata-se, na verdade, do país que possui as mais antigas evidências arqueológicas do uso sistemático do carvão mineral. Vestígios foram encontrados em fornos de fundição de bronze na província de Henan, datados da Idade do Bronze, há pelo menos quatro mil anos. Durante a Dinastia Han (206 a.C.–220 d.C.), documentos já descreviam o uso do carvão mineral (mei) para a fundição de ferro e o aquecimento doméstico, sendo preferido em grandes fornalhas por sua capacidade de manter altas temperaturas.


A região de Fushun, no nordeste da China, até poucos anos, destacava-se desde a antiguidade pela facilidade de acesso ao carvão por meio de afloramentos superficiais. Hoje, abriga um dos maiores sítios históricos da mineração mundial, com uma mina a céu aberto de 6,6 km de extensão, 2,2 km de largura e 400 metros de profundidade, além de um museu dedicado à memória mineradora local.


No período imperial (anterior ao século XX), a força de trabalho era composta majoritariamente por camponeses locais em regime sazonal, que conciliavam mineração com agricultura. A extração era rudimentar, feita manualmente em poços rasos e sem regulamentação. A organização seguia uma hierarquia simples, com mestres mineiros supervisionando pequenos grupos.


Durante a ocupação japonesa da Manchúria (1905–1945), a exploração intensificou-se com o uso de mão de obra forçada ou semiescrava. Trabalhadores chineses eram recrutados compulsoriamente ou submetidos a contratos abusivos. As jornadas variavam entre 12 e 16 horas diárias, sob duras condições e riscos constantes (desmoronamentos, explosões). O controle da produção cabia à South Manchuria Railway Company, que privilegiava metas produtivas em detrimento da segurança.


Com a Revolução Comunista (1949), as minas foram nacionalizadas, abolindo-se o trabalho forçado. Criaram-se sindicatos estatais e um sistema de bem-estar rígido, ligado à lealdade ao Partido Comunista. Os trabalhadores passaram a ter acesso a moradia, saúde e educação em troca de obediência e estabilidade política.


Sob a ótica da Geografia Agrária, nota-se que, até o início do século XX, Fushun era predominantemente agrícola, sendo a mineração uma atividade complementar. Os vilarejos funcionavam de forma autônoma, com pouca intervenção estatal. A ocupação japonesa desencadeou um êxodo rural em massa, migrando camponeses — por necessidade ou coerção — para as minas. Surgem então bairros operários precários, com elevada densidade populacional e surtos de doenças como tuberculose e silicose. A prostituição e o tráfico de ópio proliferam, controlados por redes criminosas locais.


Já sob o regime comunista, Fushun transforma-se em cidade industrial modelo, dotada de infraestrutura estatal (hospitais, escolas, moradias coletivas). Consolida-se uma identidade de classe operária, com orgulho no trabalho nas minas, mas também com forte dependência econômica da indústria carbonífera. Famílias inteiras atuavam no setor, perpetuando uma vocação mineradora intergeracional.


Na virada para o século XXI, porém, o esgotamento das reservas de carvão provocou crise econômica, com desemprego em massa. A juventude migrou para outras regiões do país, deixando uma população local envelhecida e dependente de benefícios públicos residuais.


Atualmente a produção de carvão industrial concentra-se em outras regiões da China, especialmente Shanxi e a Mongólia Interior. Shanxi, no norte da China, é a maior produtora de carvão mineral do país. Suas jazidas de carvão betuminoso e antracito abastecem tanto termelétricas quanto siderúrgicas, com minas subterrâneas e a céu aberto operando em larga escala.


Do que foi até aqui exposto, cabem as seguintes reflexões:


1 - A persistência da queima de carvão mineral como principal fonte de gases de efeito estufa reafirma seu papel central na intensificação da crise climática global. Em 2023, cerca de 30% das emissões de GEE derivavam dessa atividade, responsável por liberar maciçamente dióxido de carbono, metano e óxidos de nitrogênio na atmosfera. A despeito de avanços tecnológicos e discursos sobre transição energética, o carvão continua sendo o insumo básico de geração elétrica em diversos países, configurando um aparente paradoxo entre o discurso climático e a prática energética dominante.


O consumo de carvão mineral é, certamente, um dos eixos da crise climática, mas isso significa que o paradoxo entre discurso verde e dependência fóssil seja inevitável? Talvez a persistência do carvão seja fruto da lógica capitalista, que prioriza lucro sobre sustentabilidade: ele persiste por ser lucrativo para elites e Estados obcecados com crescimento rápido, enquanto lobbies corporativos sabotam a transição energética, reduzindo-a a falsas soluções de mercado como créditos de carbono. Apesar da possível viabilidade das fontes renováveis, o capitalismo prefere a extração predatória — por seu retorno imediato — a investir em sistemas coletivos e descentralizados. A solução não estaria em reformas técnicas ou apelos morais, mas na socialização democrática da energia, rompendo com o controle privado; na transição justa que garanta empregos dignos aos trabalhadores do setor fóssil; e na superação do produtivismo, substituindo a ditadura do PIB por uma economia que respeite limites ecológicos e necessidades humanas reais. O carvão, portanto, não é um acidente: é símbolo de um sistema que mercantiliza a natureza, e sua superação exige não apenas mudar a matriz energética, mas transformar radicalmente a economia e o poder.


2 - Embora a abordagem do capitaloceno — amplamente difundida na ecocrítica e na teoria política ambiental — aponte o capitalismo como motor estruturante da devastação ecológica, a centralidade da China, um Estado governado há décadas por um regime socialista, comprometeria qualquer leitura monocausal. Generalizar os efeitos do capital como uma força transnacional indiferenciada obscurece as mediações políticas, históricas e culturais específicas de cada modelo de exploração. O caso chinês impõe, portanto, um exame mais situado: o desenvolvimento industrial agressivo, impulsionado por um nacionalismo produtivista e centralizado, ancorado na extração em larga escala, demonstra que há mais de um caminho institucional possível para a devastação ambiental — e que a crítica à crise ecológica global deve incluir também os projetos estatais de crescimento, mesmo quando não estruturados pela lógica do mercado capitalista clássico.


A China não escapa à lógica do sistema capitalista global. O "socialismo de mercado" chinês opera sob a mesma dinâmica de acumulação e extrativismo que caracteriza o Capitaloceno, apenas com o Estado no controle centralizado da produção. A integração da China nas cadeias globais de valor, seu modelo exportador e sua dependência do carvão revelam que seu desenvolvimento segue a matriz produtivista típica da modernidade industrial, independentemente de rótulos ideológicos. O Capitaloceno não se restringe ao capitalismo liberal, mas abrange todas as formas de organização socioeconômica que perpetuam a exploração desenfreada dos recursos naturais em nome do crescimento — incluindo variantes estatais e autoritárias. A URSS também promoveu devastação ambiental, o que demonstra que a crise ecológica é um fenômeno sistêmico, não determinado apenas pela propriedade privada ou pelo mercado.


O caso chinês não invalida o Capitaloceno, mas o reforça, mostrando que a raiz do problema está na lógica expansionista da acumulação — seja ela gerida por corporações ou por Estados. A crítica, portanto, deve mirar qualquer modelo que naturalize a destruição ecológica como preço do "progresso", que reproduza a lógica da Inglaterra do Século XIX, na qual, segundo Andreas Malm, a opção pelo carvão (energia a vapor) não decorreu de um progresso tecnológico neutro. Substituir a energia hidráulica, mais barata, limpa e eficiente, pela máquina a vapor pemitiu localizar a produção onde a mão de obra fosse abundante e os sindicatos fracos. Afinal, esclarece Malm, as máquinas a vapor podiam funcionar a qualquer hora, em qualquer lugar — desde que houvesse carvão e trabalhadores — enquanto as rodas d'água vinculavam a produção a localizações rurais específicas [2]. Carvão, portanto, significava controle sobre o trabalhado.


Tanto a China atual quanto a antiga URSS reproduziram a mesma lógica. O problema fundamental está na priorização da aceleração, segurança energética, e crescimento material como fontes de legitimidade política e no tratamento da natureza como recurso a ser dominado.


3 - É de se indagar se a trajetória de Fushun evidenciaria como a mineração intensiva é, por definição, insustentável, tanto ambiental quanto socialmente. O salto de uma economia agrícola autônoma para um polo minerador global implicou profundas rupturas nos modos de vida locais, agravadas por períodos de trabalho forçado e exploração industrial predatória. Ainda que a nacionalização comunista tenha promovido certa estabilidade social e infraestrutura pública, o modelo permaneceu dependente do extrativismo mineral. Com o esgotamento do carvão, sobreveio a crise que revela a falência do paradigma extrativista. Ao contrário de modelos baseados na agricultura comunitária, diversidade econômica e preservação cultural, a mineração deixa rastros de colapso e dependência, legados recorrentes nas regiões onde o subsolo foi tratado como única promessa de futuro.


O colapso de Fushun, porém, talvez não fosse inevitável. A solução não estaria apenas em abandonar a mineração, mas em desmontar a lógica produtivista que a sustenta: reduzir drasticamente a demanda por energia e matérias-primas, descentralizar a produção e priorizar economias locais de baixo impacto. O erro de Fushun não foi apenas deixar de diversificar sua economia, mas tê-la subordinado a uma ideia de desenvolvimento baseada em escala e velocidade, ignorando os ritmos ecológicos e sociais. Cidades mineiras falidas são muitas vezes resultado de uma economia acelerada e orientada para o crescimento infinito.


A desaceleração proporia uma transição justa: desmantelar gradualmente a indústria extrativa enquanto se fortalecem sistemas agroecológicos, cooperativas de trabalho e políticas de redução do consumo — não como nostalgia pelo passado agrícola, mas como um projeto pós-extrativista que rejeita a ideia de que o futuro depende de exploração em massa. Não se condena, pois, a mineração de carvão em si, mas a falta de planejamento para frear sua expansão antes que esgote pessoas, ecossistemas e as próprias jazidas.


[1] Referências: 1. EDGAR – Emissions Database for Global Atmospheric Research. GHG Emissions of All World Countries – 2024 Report. European Commission, Joint Research Centre, 2024. Disponível em: https://edgar.jrc.ec.europa.eu/report_2024. Acesso em: 22 abr. 2025. 2. INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Global Energy Review 2025. Paris: IEA, 2025. Disponível em: https://www.iea.org/reports/global-energy-review-2025. Acesso em: 22 abr. 2025.


[2] MALM, Andreas. Capital fóssil. São Paulo: Editora Elefante; 1ª edição (31 março 2025).


Sobre o autor: Guilherme José Purvin de Figueiredo, Doutor em Direito pela Universidade de São Paulo, com graduação também em Letras pela mesma instituição, desenvolve pesquisa pós-doutoral no Departamento de Geografia da FFLCH-USP, dedicando-se ao estudo das interfaces entre Literatura, Ecologia e Mineração na cultura andina. Idealizador do curso "Literatura e Ecologia" do Programa Apolo-USP, desenvolve investigações transdisciplinares nas áreas de Direito Ambiental, Geografia e Literatura. Exerce a coordenação internacional do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública e da Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil, além da Academia Latino Americana de Direito Ambiental. Autor de obras jurídicas e literárias, publicou recentemente seu quinto livro de contos, "Onde começa o hemisfério".


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