Av. Paulista, 11/10/2026, e o filme The Anniversary
Guilherme José Purvin de Figueiredo
A manifestação de hoje reuniu mais de um milhão de pessoas, mas sua dimensão política foi diminuída pela cobertura jornalística. Estive ali: para atravessar da Rua Augusta à Rua Pamplona, levei mais de uma hora e meia. As laterais estavam igualmente apinhadas. Entretanto, essa experiência coletiva desapareceu das representações oferecidas ao público. Na reportagem da Reuters, a manifestação foi enquadrada principalmente na disputa eleitoral: embora reconhecesse a grande concentração e a presença juvenil, o texto privilegiou declarações de Lula, sem dimensionar o público.
A reflexão de Michel Pêcheux permite examinar esse contraste como uma disputa pela interpretação do ocorrido. O acontecimento, situado no encontro entre uma atualidade e uma memória, pode desestabilizar sentidos sedimentados ou ser absorvido por interpretações que preservam sua regularidade. Ao privilegiar o discurso de Lula e reduzir a visibilidade da multidão, a cobertura enquadra a manifestação como episódio convencional de campanha. Está em questão a possibilidade de reconhecer, nessa presença coletiva, algo que exceda os sentidos previamente estabelecidos da rotina eleitoral.
A manipulação jornalística não depende exclusivamente da mentira explícita. Opera também pela escolha do enquadramento, pela hierarquia das notícias, pelo recorte fotográfico e pela substituição do sujeito coletivo pela fala de uma personalidade. Uma multidão politicamente mobilizada converte-se, assim, em simples cenário eleitoral. Sua força desaparece enquanto algumas declarações permanecem disponíveis para comentários e controvérsias.
É nesse mecanismo que identifico o funcionamento de um consenso neoliberal totalitário: a pretensão de controlar o horizonte do reconhecimento público, tornando secundárias ou invisíveis manifestações que desafiam sua autoridade. A contribuição de Pêcheux permite compreender como a memória pode absorver ou bloquear aquilo que ameaça suas regularidades, procurando estabilizar sua interpretação e conter a emergência de outros sentidos.
Denomino esse processo à luz de The Anniversary, disponível no Prime Video. Liz Nettles infiltra-se na família Taylor como noiva de um dos filhos e autora de The Change: The New Social Contract. Patrocinado por uma corporação, o livro oferece a linguagem de legitimação de uma ordem que promete superar divisões enquanto elimina o dissenso. A destruição da família acompanha a transformação dos Estados Unidos numa autocracia digna de The Man in the High Castle. A distopia evidencia a articulação entre poder empresarial, adesão ideológica e repressão: primeiro, fabrica-se o consenso; depois, perseguem-se aqueles que recusam integrá-lo.
No filme, Moses, o jovem que pretende seguir o jornalismo, é intimidado por Josh, já convertido ao fanatismo do novo regime. A hostilidade revela que investigar, perguntar e confrontar o poder se tornaram atividades ameaçadoras para a ordem imposta. No Brasil, o jornalismo neoliberal pode ser exercido sem esse risco: inteiramente cooptado, não precisa ser silenciado de fora, pois já incorpora os limites do consenso que ajuda a fabricar. Enquanto a distopia mostra a intimidação de quem poderia contestar o regime, nossa realidade exibe a colaboração de quem deveria interrogar o poder. O apagamento da multidão constitui uma expressão dessa adesão.
À luz de Michel Pêcheux, a disputa não termina quando a multidão deixa as ruas: prossegue na inscrição do acontecimento na memória e nos possíveis deslocamentos de sentido produzidos pelos discursos que o interpretam. Ao diminuir a manifestação, o jornalismo procura absorver sua força na rotina eleitoral, como se nada tivesse ocorrido capaz de contrariar a ordem dominante. Não elimina o vivido, mas restringe seu reconhecimento público e sua potência histórica. Resta à literatura enfrentar essa operação: suprir as omissões do jornalismo e narrar o que foi silenciado. Em The Anniversary, um livro ajuda a legitimar a autocracia; mas a escrita também pode combater essa submissão, preservando aquilo que o consenso neoliberal totalitário pretende apagar. Se o poder fabrica a unanimidade, cabe à literatura tornar incontornável a existência de quem a recusa.
Dados técnicos do filme: Anniversary — título no Prime Video: Anniversary: Mudança Radical. Estados Unidos, 2025. Direção: Jan Komasa. Roteiro: Lori Rosene-Gambino; argumento de Jan Komasa e Lori Rosene-Gambino. Gênero: suspense político e distopia. Duração: 111 minutos. Elenco principal: Diane Lane, Kyle Chandler, Phoebe Dynevor, Dylan O’Brien, Zoey Deutch, Madeline Brewer, Mckenna Grace e Daryl McCormack. Fotografia: Piotr Sobociński Jr. Montagem: Michał Czarnecki. Música: Danny Bensi e Saunder Jurriaans.





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