• Guilherme Purvin

Xilografia popular do Nordeste

Atualizado: 5 de out.

- Guilherme Purvin -


De acordo com o Dicionário Houaiss, xilografia é o processo e técnica de gravura em relevo sobre madeira que permite a impressão tipográfica de figura(s) ou texto(s), cujos caracteres (não móveis) são entalhados na prancha de suporte. À estampa obtida através dessa técnica é dado o nome de xilogravura.


Meu primeiro contato com a arte da xilogravura veio das ilustrações de livros de cordel do Nordeste do Brasil. Eram folhetos impressos, dobrados e grampeados em forma de caderninhos, com a transcrição de poesias populares. Essas poesias contavam histórias de amor ou brincadeiras maliciosas, feitos de herois populares como Lampião e Padre Cícero. As capas geralmente eram feitas com uma folha de papel de cor diferente, em tons esmaecidos (azul claro, rosa, verde claro), na qual eram impressas xilogravuras rústicas ilustrando os poemas.


Fred Navarro, em seu Dicionário do Nordeste (Recife : CEPE, 2013), afirma que cordel é "O romanceiro popular nordestino, a literatura de cordel, tanto em sua forma oral, declamada nas praças e ruas, quanto na escrita, vendida através de folhetos de baixo custo; o formato é quase o mesmo, há dois séculos: páginas de 16 cm por 10 cm com estrofes em redondilha maior (sete sílabas em cada verso), com seis ou sete versos rimados; os de menor tamanho, com até oito páginas, são chamados de folheto de trovador; e os maiores, com mais de dezesseis páginas, de romance ou história (...)".


A literatura de cordel, embora bastante difundida nos Estados do Nordeste, não é uma invenção brasileira. Ela está fincada numa tradição ibérica (portuguesa e espanhola). Segundo Veríssimo de Melo, citado por Câmara Cascudo no verbete "Literatura de Cordel", de seu Dicionário do Folclore Brasileiro, 9ª edição (São Paulo : Global, 2000), "as folhas soltas ou folhas volantes de que falava Theófilo Braga, existentes desde o século XVII, em Portugal, correspondiam aos pliegos sueltos na Espanha, consoante menciona Ramón Menendez Pidal. Literatura popular impressa que se conhece também na França pela denominação de litérature de colportages, literatura ambulante" (p.332).


Hoje, os livros de cordel não cuidam apenas de poemas épicos populares. Há uma infinidade de livros humorísticos e didáticos. Um dos temas desenvolvidos pelos poetas cordelistas contemporâneos é o meio ambiente. O poeta, cordelista, violeiro, compositor e declamador Abdias Campos, por exemplo, é um dos grandes divulgadores da questão ecológica em literatura de cordel.



Com o surgimento de xilogravuristas mais talentosos, os livros de cordel deixaram de ser a única forma de veiculação dessas gravuras e os artistas gráficos começaram a vender seus trabalhos desvinculadamente.


Dentre os grandes xilogravuristas brasileiros, destaca-se a figura de J. Borges, que trabalha não apenas com a tradicional gravura em preto e branco, mas também utiliza-se de tintas de impressão coloridas. Seguem algumas informações a seu respeito, colhidas do site da FTC Mag:


Aos oito anos, José Francisco já trabalhava na terra com o pai. Aos dez, fabricava e comercializava na feira colheres de pau. Foi oleiro, confeccionou brinquedos artesanais e vendeu livros de cordel. Aos vinte e um anos, José resolveu que iria escrever literatura de cordel. Foi quando fez O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina, que vendeu mais de cinco mil exemplares em dois meses.

Como não tinha dinheiro para pagar um ilustrador, J. Borges resolveu fazer ele mesmo: começou a entalhar os desenhos na madeira. Desde então, não parou mais de ilustrar os mais de 200 cordéis que lançou ao longo da vida.

Descoberto por colecionadores e marchands, viu seu trabalho de xilogravura ser levado aos meios acadêmicos do país. Ganhou exposição na França, Espanha, Estados Unidos, Venezuela, Alemanha e Suíça. O grande escritor Ariano Suassuna o considerava o melhor gravador popular do Nordeste.

A xilografia foi, uma das primeiras e mais simples técnica de impressão. Datada da Idade Média, era utilizada como forma de reprodução de outras obras de arte com o maior detalhamento possível. Ou seja, tinha o objetivo de dar ao leitor / observador uma ideia do que seria a imagem real - um substituto das pinturas a óleo. Seu diferencial era que podia ser reproduzido em escala. Lembremo-nos que a prensa de Guttenberg começava a tornar-se conhecida, permitindo a divulgação da Bíblia Sagrada e utilizava tipos móveis de madeira. O que talvez poucas pessoas saibam é que grandes artistas plásticos se utilizaram dessa técnica para a criação de belíssimas obras de arte. Na próxima quarta-feira voltarei a falar sobre o assunto.


 

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