• Guilherme Purvin

Viva Zapátria

- Guilherme Purvin -

No ano de 1972, a era dourada dos festivais de música popular da TV Record já havia acabado. Vários incêndios de origem suspeita haviam destruído grande parte da memória televisiva dos anos 1960, impossibilitando a visualização de dezenas de shows que tornaram populares Chico Buarque, Nara Leão, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Rita Lee, Edu Lobo, Marília Medalha etc.


Ao mesmo tempo, crescia a TV Globo, com o financiamento pelo grupo Time-Life, sua "assistente técnica" (confira-se aqui). E o que se pretendia era demonstrar que a nova empresa também era capaz de realizar festivais de música tão bons quanto os de sua agora combalida concorrente. O VII Festival Internacional da Canção - o primeiro transmitido em cores pela televisão - era realizado no âmbito do governo Emílio Garrastazu Médici.


Concorreram à fase brasileira do festival quase 2 mil canções, tendo sido selecionadas 30. Dentre elas estava "Mande um abraço pra velha", com os iconoclastas Mutantes expondo o ridículo de uma competição musical e propondo festas ao ar livre, como em Woodstock (dois anos mais tarde, teríamos o nosso Festival de Iacanga). Walter Franco aparecia pela primeira vez na TV, apresentando uma composição que até hoje ainda pode ser considerada de vanguarda: "Cabeça". Foi muito mais vaiado do que Sérgio Ricardo, no célebre festival da Record em que arrebentou um violão e atirou-o ao público (antecipando-se a Jimi Hendrix, Peter Towshend e Keith Moon). Um jovem bahiano chamado Raul Seixas, por sua vez, classificara duas canções - "Let me sing" e "Eu sou eu, Nicuri é o diabo". E também tínhamos canções inofensivas para o gosto popular, como "Fio Maravilha", do Jorge (então) Ben, interpretada por Maria Alcina.


Nenhuma dessas canções falava sobre o momento político. As exceções eram "Eu quero botar meu bloco na rua", de Sérgio Sampaio, que só foi classificada por pressão de Nara Leão (presidente da comissão de jurados); e "Viva Zapátria", de um desconhecido Sirlan, dono de uma timbre límpido e potente que lembrava o de Milton Nascimento. Sua composição falava sobre a América, carabinas, sirenes e sangue, em evidente alusão às ditaduras latino-americanas e, em particular, à brasileira.


A despeito do sucesso que começava a alcançar, o 7º FIC acabou sendo marcado pelo signo do caos. A ditadura exigiu a retirada de Nara Leão do corpo de jurados em razão de uma declaração que fez na imprensa contra os militares. Ao final, todos os jurados foram destituídos. Um deles, Roberto Freire, ao tentar subir no palco para ler um manifesto de desagravo, foi agarrado e espancado por seguranças da Globo / agentes do governo. Mais informações sobre o episódio podem ser lidas aqui.


Passados 50 anos, pergunto: o que teria acontecido com aquele cantor e compositor que parecia tão promissor? "Viva Zapátria" havia sido bem acolhida pelo público. Lembrava-me daquela canção e de uma breve participação de Sirlan na canção censurada "Hoje é dia d'El Rey", de Milton Nascimento (do álbum Milagre dos Peixes - vide aqui a ficha técnica).


Após pesquisas, descobri que Sirlan teve sua carreira artística destruída pela ditadura militar por simples gosto da polícia federal pela perseguição. A história começou quando os censores chamaram Sirlan e Murilo Antunes, os autores de "Viva Zapátria", para explicarem o significado da canção, que dizia o seguinte:


Esse meu sangue fervendo de amor / Aterrisam falcões, onde estou?

Carabinas, sorriso, onde estou?

Um compromisso a sirene chamou / Duplicatas, meu senso de humor

Se perdeu na cidade onde estou

Viva zapátria, saudou esse meu senhor / Beijos, abraços, ano um chegou

Salve zapátria, ê, viva zapátria, ê / Esta cidade foi uma herança só

Viva zapátria, saudando o senhor / Horizonte aberto onde estou

Esta América mãe onde estou.


Sirlan e Murilo Antunes fizeram-se de matutos ingênuos e conseguiram convencer que se tratava de uma homenagem a Marlon Brando, que havia atuado no filme "Viva Zapata". A canção foi liberada mas, quando a Polícia Federal percebeu que havia sido enganada, decidiu partir para a forra.


O resultado disso foi a censura integral do álbum que Sirlan havia composto para ser lançado logo após o festival. Não uma nem duas, mas todas as suas composições foram proibidas de serem lançadas em 1972. Nos anos subsequentes, a perseguição prosseguiu, impedindo que Sirlan se tornasse um novo nome na MPB, até mesmo na condição de intérprete de outros autores. Matéria assinada pelo jornalista Daniel Camargos, do jornal O Estado de Minas, de 16.02.2014, cita umade Tavinho Moura e de Murilo Antunes em que havia o trecho: “Portenha Madre Nuestra canta o que ficou atrás do Sol”:


Sirlan ainda guarda a justificativa da censura, que cravou: “Portenha Madre Nuestra lembra o local onde surgiu o movimento de Fidel Castro (Sierra Maestra)”. Além disso, os censores argumentaram que “canta o que ficou atrás do sol” era uma referência a “lembranças do passado presente”. A pressão foi tamanha que Sirlan se emociona ao lembrar do conselho de sua mãe: “Ela disse algo que deve ser muito difícil para uma mãe: ‘Filho, sai do país. Vai embora. Eles querem te pegar’” (CAMARGOS, Daniel. Música ganhou os bares no auge da repressão na ditadura militar)


Esse bullying macartista prosseguiu até 1979, quando foi liberado o álbum "Profissão de fé". Mas agora os tempos eram outros: poucos se recordavam do efeito catártico gerado por "Viva Zapátria" nos tempos de Médici. Composições carregadas de tamanha dramaticidade não empolgavam mais. Era tempo de Gilberto Gil e "Realce", Caetano e "Cinema Transcendental", Beto Guedes e "Sol de Primavera". Mesmo a canção "Cálice", de Chico Buarque e Gilberto Gil, também só agora liberada, não tinha mais o impacto que causara à época de seu lançamento.


 

Guilherme Purvin, graduado em Direito e em Letras (USP), doutor pela Fac. Direito da USP, é atualmente presidente do IBAP e Editor-Chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares. Escritor, é autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação" (Ed. Letras do Pensamento, 2017), "Sambas & Polonaises" (Ed. Tribo da Ilha, 2019) e "Virando o Ipiranga (Ed. Terra Redonda, 2021) e de diversas obras jurídicas nas áreas do Direito Ambiental.



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