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A preguiça e o fim do mundo

Guilherme José Purvin de Figueiredo

Sempre fico um pouco angustiado quando percebo que certas pessoas realmente brilhantes, seja por sua capacidade criativa, sua integridade moral ou por sua lucidez intelectual, são ignoradas ou menosprezadas em meu meio social.

No campo da luta socioambiental, o primeiro nome que me ocorre é o de Greta Thunberg. No início, apostei em sua integridade moral e, ao que parece, não me equivoquei. Hoje, porém, minha admiração também decorre de sua lucidez intelectual. É muito bom acompanhar o enorme salto evolutivo que ela deu, constatando em poucos anos que não há como defender o planeta a partir da lógica do capitalismo. Isso estava claro para mim ao menos desde a época em que defendi meu doutorado em direito ambiental em 2002. No entanto, não foram poucas as ocasiões em que abstraí essa premissa - abolir com o capitalismo é crucial - e acabei aplaudindo pequenas vitórias locais, uma lei benéfica ao meio ambiente, um pequeno parque urbano na cidade, esquecendo por instantes que uma gota d'água no oceano não é mais do que isso mesmo: uma gota d'água, que não vai modificar nada.

Hoje, o poder econômico (mídia, governos com todos seus aparelhos, inclusive policial) está empenhado em acostumar as atuais gerações à visão do massacre de civis: são crianças, mulheres, idosos assassinados em Gaza. E, cúmulo dos horrores, toda voz que se levanta para protestar contra esse genocídio é ameçada com violência ou mesmo punida. Diante das telas do celular, do computador ou da TV, vemos as imagens dessa chacina e qualquer irresignação é acusada de antisemitismo. Até mesmo quando a denúncia parte de um judeu.

Greta Thunberg engajou-se nessa luta, pois concluiu que a malignidade do atual governo de Tel-Aviv está diretamente ligada aos objetivos de Washington: preparar o campo para novos governos num cenário distópico: um planeta sem recursos renováveis para sobrevivência humana de toda a população.

As vítimas de Gaza seremos nós todos, latino-americanos, africanos, indianos. A recusa em se fazer cessar o consumo perdulário de energia e a lógica do crescimento constante do capitalismo redundará em desertificação, temperaturas extremas, tempestades e secas. Isso vem ocorrendo com frequência cada vez maior e, pelo visto, os donos do mundo já dão por fato consumado a irreversibilidade da destruição.

Claro que, há razões por trás do menosprezo por pessoas como Greta Thunberg, Davi Kopenawa, Noam Chomsky ou Roger Waters. São críticos radicais do capitalismo neoliberal, da destruição ambiental, da concentração do poder econômico e do imperialismo. São ativistas engajados em causas globais e, por isso, a mídia procura a todo custo deslegitimá-los. Waters e Greta, particularmente, vêm sendo alvo de "cancelamento". Kopenawa, por sua vez, é perseguido e ameaçado por parte de garimpeiros e políticos locais.

A recusa em aceitar as propostas destes ativistas decorre essencialmente de nosso comodismo burguês. Não é preciso muito esforço intelectual para deslegitimar discursos contundentemente realistas e o método mais simples é o de afirmar a necessidade de ser otimista.

Otimismo, portanto, é a palavra-chave. Dizem que, nos campos de concentração, os judeus encarcerados também esperavam com otimismo que a situação revertesse. Nada podia ser tão horrível quanto aparentava ser.

No entanto, não se trata de optar por uma perspectiva otimista ou pessimista e sim de assumir com realismo nosso papel no cenário político. Está mais do que claro que o massacre em Gaza não é sadismo, mas sim preparação. O Brasil também está prestes a tornar-se outro laboratório de horrores do que alguns autores vêm chamando de neofeudalismo tecnocrático. E a inteligência artificial entra nesse quadro desempenhando papel relevantíssimo. Da mesma forma, as redes sociais, os conglomerados financeiros, a indústria bélica.

Se Greta Thunberg simboliza a juventude mobilizada contra a inação política face às mudanças climáticas; se Davi Kopenawa defende os direitos indígenas e da floresta amazônica, denunciando a mineração predatória e a omissão estatal; se Noam Chomsky oferece as bases teóricas para a compreensão do imperialismo dos EUA, das guerras, da mídia corporativa e da injustiças sociais globais; e se o ex-baixista do Pink Floyd defende em suas apresentações e entrevistas os direitos humanos, critica governos autoritários, a política externa israelense e a hipocrisia ocidental, o que concluímos é que, em diferentes formas de expressão (arte, ciência, espiritualidade, ativismo juvenil), há um grupo de pensadores que sustenta a ideia de que a humanidade deve respeitar a vida, a dignidade e o planeta — e que isto implica romper com instituições tradicionais de poder.

É trabalhoso, não? De fato, muito mais fácil fechar os olhos para o futuro próximo e prosseguir em nossa trilha, entretidos com o que neoliberalismo nos oferece para não pensar no que nos espera. E, para mostrar que não estamos do lado do mal, podemos optar por produtos orgânicos do supermercado e dirigir um automóvel elétrico. Com baterias de lítio extraído dos territórios indígenas da Argentina e Chile.



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