• Guilherme Purvin

Infiltrados na Rede Globo

Eu estava na Praça da Sé no dia 25 de janeiro de 1984, em meio a uma multidão calculada em 300 mil pessoas. Era um dos mais expressivos atos públicos pelo fim da ditadura e por eleições diretas. Ao contrário do que ocorria seis ou sete anos antes, os militares no poder já não se sentiam à vontade para enviar tropas policiais para reprimirem a manifestação pública. Sem cavalos avançando na população, sem bombas de gás lacrimogêneo, sem jatos de tinta vermelha dos caminhões da polícia militar, destinados a marcar os corpos daqueles que tentassem escapar da violência estatal, nós nos sentíamos fortes, irmanados na luta pela liberdade e pela democracia.

Naquela noite, o ato público seria notícia no Jornal Nacional e estávamos todos ansiosos e felizes. Quando teve início a matéria, porém, fomos 300 mil espectadores perplexos: o apresentador Sérgio Chapelin anunciava a manifestação como “uma das mais de 500 solenidades para comemorar os 430 anos de fundação da cidade”. Um ato cívico, governamental, destinado a celebrar a criação do Colégio de São Paulo por José de Anchieta... Ficamos chocados com tamanho descaramento. No dia seguinte, um bordão começou a ecoar: “O povo não é bobo, abaixo a rede Globo”.


Essa palavra de ordem criada há 35 anos ressurgiria em quase todas as manifestações coletivas em defesa da democracia por um motivo simples e justo: as mentiras persistiam, a Rede Globo definitivamente retirava a máscara e assumia a posição de aparelho ideológico do estado repressivo, sempre distorcendo os fatos de forma grotesca, de modo a manipular a opinião pública – a grande massa de pessoas despolitizadas.


Nas últimas semanas, diante das bombásticas revelações dos bastidores da atuação do ex-Juiz Federal Sérgio Moro na própria condução da Operação Lava Jato, ingenuamente aguardava uma cobertura jornalística dos meios de imprensa no mínimo com o mesmo destaque dado àquele dado ao diálogo entre Michel Temer por Joesley Batista – o famoso “tem que manter isso, viu?”.


Não. Nenhum comentário sobre o conteúdo dos diálogos vazados. Em lugar disso, uma reiterada afirmação da ilegalidade das interceptações de mensagens entre juiz e procuradores da república por hackers. Reportagem investigativa? Nem pensar. Apenas discurso editorial – a posição oficial da Rede Globo, tentando consertar e dar cunho de seriedade à patética iniciativa de Sérgio Moro que, depois de deslocar-se com urgência aos EUA para sabe-se lá o que, voltou afirmando que não se lembrava dos diálogos (logo, se vierem à tona, não terá mentido), que podem ter sido adulterados (logo, se não foram adulterados, também terá apenas alvitrado uma hipótese) e, raios, sim, tudo aquilo é verdade, mas nada tem de errado – exceto a crítica ao MBL, pelo que ele pede desculpas publicamente. E o MBL certamente o perdoará, da mesma forma que ele perdoou Onix Lorenzoni, seu parceiro no governo Jair Bolsonaro.


O último argumento, que logicamente destrói todos os que o precederam, é aquele que dará mais trabalho para a Rede Globo. Afirmar que faz parte do devido processo legal um juiz orientar o órgão de acusação na ação penal, indicando provas a serem trazidas aos autos, ridicularizando o órgão de defesa (que “já deu seu showzinho”) e até propondo substituição do nome de uma procuradora da república em razão de sua fraca performance forense é algo que exige um esforço desmesurado de argumentação. Nesse caso, é preciso recorrer às feiticeiras de Macbeth e conduzir o povo através de uma névoa imunda de mentiras e violência, para que saia convencido de que o mau é bom e o bom é mau.


A julgar pela (ainda) expressiva presença de pessoas com o uniforme da CBF na Avenida Paulista, os esforços da Rede Globo vêm logrando êxito – que só não é maior porque a tarefa é hercúlea diante de tão gigantescas evidências de que o estado democrático de direito começou a ruir no dia da votação do impeachment de Dilma Roussef e hoje caminhamos sobre (às vezes sob) destroços do que um dia foi a Constituição Cidadã.

Por esse motivo, o bordão ultimamente começou a me incomodar: será que o povo realmente não é bobo? Será possível que ainda haja pessoas intelectualmente honestas e que acreditem que é coisa de “petista” a repulsa a um governo de extrema direita? Como considerar natural e digno termos um presidente que posta nas redes sociais uma cena pornográfica (fato que repercutiu mundialmente – o presidente que curte ver golden shower), que acha engraçado ver criança armada, que libera mais de duas centenas de produtos venenosos para serem pulverizados nos alimentos dos brasileiros, que age com total descaso diante das matanças promovidas por empresas de mineração, que entrega o petróleo a empresas estrangeiras?


Inconformado com a apatia generalizada, o grande músico brasileiro Flo Menezes, meu velho amigo, comentava num grupo de whatsapp dedicado ao debate da obra de Mary Shelley: “Não há indignação organizada no Brasil! Nem mesmo a indignação consegue se “civilizar” e se tornar coletiva!!!


Diante desta realidade, comecei a pensar: “o povo é bobo, sim. Se não fosse bobo, não acreditaria nas imposturas da Rede Globo, conseguiria estabelecer algumas relações lógicas, analisaria os fatos, tiraria conclusões. O discurso pronto da Rede Globo, contudo, ainda indigesto e ilógico, poupa o povo de raciocinar, de pensar politicamente a realidade. Por isso, o povo vai continuar sofrendo as consequências da miséria econômica e cultural que essa preguiça mental acarreta”.


Esta conclusão, contudo, não me satisfaz nem espiritualmente nem politicamente, pois é niilista. Afinal, do que estou falando realmente quando me refiro à "Rede Globo"? E que é, afinal, o "povo"? Sobretudo, qual é a função de uma palavra de ordem no processo político de formação da história e quais são as suas limitações?


Estaria, então, o discurso enlatado da Rede Globo sendo fartamente consumido e vomitado pelas ruas? Ou será que, pelo contrário, a Rede Globo é que estaria desesperadamente tentando afinar sua orquestra e marcar o compasso de acordo com a nova música imposta pela ordem econômica internacional? A pergunta não é despropositada, se nos recordarmos de como foi montada a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro no ano de 2018 - de bermudas, preparando um sanduíche de leite Moça num pão sobre a mesa - as imagens supostamente filmadas pela câmera de telefone celular, ao melhor estilo indie. Muito longe do "padrão global de qualidade".


Toda sociedade tem por base a economia, isto é, as forças produtivas e as relações de produção. A renovação destas forças e a reprodução destas relações são processadas pelo Direito, pelo Estado e por seus aparelhos ideológicos, dos quais a Rede Globo é, no Brasil, inequivocamente, um dos mais poderosos.


Em que pese a forte impressão de desmoronamento de todas as suas instituições nos últimos três ou quatro anos, a sociedade brasileira mantém até certo ponto incólume a sua infraestrutura econômica: a moeda corrente (real) é acreditada nas relações mercantis, o comércio, a indústria e os serviços, bem ou mal, não foram ainda interrompidos no país. Isto significa, em última análise, que a infraestrutura social tem conseguido mobilizar a sua superestrutura em benefício da movimentação do capital. Mas a que custo?


GRAMSCI afirma que todo grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção econômica, cria para si, ao mesmo tempo, organicamente, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e político: o empresário capitalista cria consigo o técnico da indústria, o cientista da economia política, o organizador de uma nova cultura, de um novo direito, etc., etc. (Cadernos do Cárcere, vol. 2. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2004. Pág. 15).


No momento atual, parte da intelectualidade brasileira sente um profundo desconforto e uma enorme dificuldade, quase uma angústia, para aceitar os fragmentos discursivos que estão sendo expelidos pela superestrutura social, a qual sempre está — não esqueçamos esta questão essencial — inteiramente a serviço do capital.

De fato, está sendo extremamente difícil assimilar a narrativa oficial do governo Jair Bolsonaro e é preciso muita honestidade intelectual para saber se isso se deve à pauta estabelecida pela infraestrutura social, que engloba uma violenta redução dos direitos trabalhistas e previdenciários, o desmantelamento da estrutura da administração ambiental em todas as áreas (biodiversidade, mudanças climáticas, produção minerais, saneamento etc.) tudo isso aliado o crescimento desmesurado dos privilégios e regalias do setor bancário.


Quem está construindo esta narrativa? Quem são os agentes sociais responsáveis para a implementação de uma pauta econômica tão flagrantemente contrária ao estado de bem estar social?


O que se constata é que estamos diante de um obscuro amálgama político, reunindo milicianos (principalmente) do Rio de Janeiro, empresários dos setores da exploração da pornografia e da fé religiosa, juízes federais e procuradores da república que, historicamente, ocupavam uma posição discreta na formação da jurisprudência brasileira, além de parlamentares extremamente incultos e venais, da banda podre da polícia, de medíocres profissionais da área do entretenimento (comediantes, apresentadores de programas de auditório e de noticiário policial, cantores decadentes etc.) dentre outros. Note-se, aqui, uma ausência significativa neste agrupamento desconexo: a universidade brasileira.


Esses foram os atores sociais chamados para integrar a superestrutura jurídica, política e ideológica nesta nova etapa do capitalismo periférico nacional. E é nesse contexto que o lema que fala da inteligência popular diante das bobagens veiculadas pela poderosa mídia merece reflexão.


Estado-Empresa


Na edição de maio de 2019, o Le Monde Diplomatique Brasil publicou um artigo de Pierre Musso (Na era do Estado-empresa, p. 28). O autor, que é professor do Instituto de Estudos Avançados de Nantes, França, aponta semelhanças relevantes entre Silvio Berlusconi (Itália, 1994), Donald Trump (EEUU, 2016) e Emmanuel Macron (2017): além de terem chegado ao poder de “forma invasiva”, surpreendente, “eles levam a gestão para o campo político e colocam em ação o relato glorioso de sua experiência empresarial. Eles são chefes do ‘Estado-empresa’. Não são os únicos dirigentes a aplicar tal modelo, que parece estar se expandindo: pode-se mencionar Maurício Macri na Argentina, Andrej Babiš na República Tcheca – que diz ‘gerir o Estado como uma empresa familiar’ – ou ainda Recep Tayyip Erdogan, que quer ‘dirigir a Turquia como uma empresa’”.


Um dos países que leva mais a sério a ideia de “estado-empresa”, porém, seria a China. Para quem tem dúvida a respeito, sugiro um passar de olhos no relato “Por que 9 dias na China me deixaram apavorado...”, de Lucas Marques. Ou seja, há empresas que, sob a perspectiva do capitalismo, são bem geridas e há as que são pessimamente administradas. Em alguns casos, aliás, a condução ruinosa da administração sugere crime de sabotagem de empresa concorrente – coisa que parece estar ocorrendo no Brasil atualmente.


Gramsci (ob.cit.) alerta sobre a necessidade de que pelo menos uma elite possua a capacidade de organizar a sociedade em geral, em todo o seu complexo organismo de serviços, até o organismo estatal, tendo em vista a necessidade de criar as condições mais favoráveis à expansão da própria classe.


Esta capacidade é condição necessária para a condução de qualquer projeto coletivo – tanto uma empresa como uma nação. Se não a tiver, que ao menos saiba escolher os “prepostos” (CEOs ou ministros de Estado) que detenham competência (expertise) para organizar as relações gerais exteriores à empresa (ou à administração estatal).


Parte 3


Diferentemente do triunvirato Fernando Collor de Melo, Michel Temer e Jair Bolsonaro, os governos de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef, bem ou mal, contavam com um respeitável contingente de intelectuais em seu staff, capazes de oferecer um discurso mais coeso para a sua sustentação.

É verdade que, diante de uma candidatura tão caricata e violenta, não se esperava mesmo a presença de importantes intelectuais - nem mesmo de professores universitários medianamente gabaritados em seus respectivos campos de estudo. Todavia Jair Bolsonaro vem revelando uma inépcia tão absurdamente grande para dirigir e pacificar a nação que mais não resta senão a ameaça à vida ou à liberdade de quem a ele se opõe.


Tome-se, a título exemplificativo, a forma como vem lidando com a nova crise aberta pela revelação de diálogos via Telegram entre Sérgio Moro e Deltan Dalagnol. Para desacreditar as mensagens que têm sido divulgadas pelo The Intercept, pela Folha de S.Paulo, por Reinaldo Azevedo e pela Revista Veja, seu “serviço de contra-inteligência” (isto é, seu filho Carlos) criou uma coisa chamada “Pavão Misterioso”, montando um grotesco e inverossímil diálogo entre o jornalista Glenn Greenwald e seu marido, o deputado Davi Miranda. Talvez o clã Bolsonaro não tenha percebido que "contra-inteligência" não é "anti-inteligência", não é "burrice". A respeito desse novo ataque à dignidade, leiam-se as matérias publicadas ontem em Catraca Livre e Renova Mídia.

Vem aí a missão crucial da Rede Globo: como consertar tamanha concentração de estupidez em tão poucos gestos comunicacionais do Executivo Federal?


Mesmo preterida pelo presidente da república em prol da gigante neopentecostal Rede Record e de algumas outras empresas, a Globo tem se mantido coerente em sua atividade em defesa do atraso cultural e da inviabilização da soberania do Brasil. Assim, trabalha com afinco para a construção de um discurso oficial a fim de convencer o povo de que o belo é feio e o feio é belo – confirmando a assertiva das três feiticeiras na cena de abertura de Macbeth, epígrafe deste artigo.


Ao contrário do mundialmente conhecido “o povo unido jamais será vencido”, o lema do povo diante da Rede Globo é genuinamente brasileiro e não tem uma tradução para outros idiomas. Afinal, que outro país permitiria tamanha concentração do poder de informação nas mãos de um único grupo empresarial que não o Brasil? A Rede Globo foi criada pelo grupo Time / Life.

Depois de sucessivos e até hoje pouco comentados incêndios na então campeã de audiências (TV Record), a Globo foi guindada à condição de líder inconteste, dando seu suporte ideológico aos governos militares, à ascensão de Fernando Collor, à sua posterior queda, bem assim a todos os governos mais confiáveis ao mercado. É “apenas” a segunda maior rede de TV no planeta, perdendo para a ABC. Mas, nos EUA, a ABC concorre com outros gigantes, como a CBS (Sony) e a NBC. Já no Brasil, era só a Globo homogeneizando a opinião pública até há pouco.


“O povo não é bobo”...


Uma palavra de ordem não é uma análise de conjuntura política, não é propaganda e tampouco comporta digressões conceituais sobre o que se entende pela palavra “povo”. Não é muito mais do que um grito de guerra, bom para elevar o moral e escancarar as incontáveis manipulações da informação perpetradas por referida pessoa jurídica, que é um aparelho ideológico do estado brasileiro. Palavras de ordem são componentes da agitação política, que se distingue da propaganda política em razão da ausência de polifonia e de maior profundidade. Por isso, a palavra de ordem, uma ideia única, é assimilada por muitas pessoas, mas não contribui significativamente para a conscientização política: não explica nada, apenas afirma algo e, no calor da agitação, empolga pelo uníssono.


Qual seria, então, a forma mais eficaz para promover esta conscientização, de modo a que a maioria da população imediatamente percebesse o que estava começando a se delinear nas ações de Sérgio Moro em Curitiba, em especial os vazamentos para a imprensa e a seleção criteriosa de alvos para o combate à corrupção? Como compreender que o objetivo era a entrega do pré sal às multinacionais e a condenação do Brasil à eterna miséria? Em outras palavras, como acabar com o “complexo de vira-lata”?


O grande Paulo Freire destacava em seu livro “Pedagogia do Oprimido” (Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1979, pág. 54) que a autodesvalia resulta da introjeção que os oprimidos fazem da visão que deles têm os opressores:

“De tanto ouvirem de si mesmos que são incapazes, que não sabem nada, que não podem saber, que são enfermos, indolentes, que não produzem em virtude de tudo isto, terminam por se convencer de sua ‘incapacidade’. Falam de si como os que não sabem e do ‘doutor’ como o que sabe e a quem devem escutar. Os critérios de saber que lhe são impostos são os convencionais”.

É bem verdade que Lula procurou, dentro das condições políticas que lhe eram postas, combater o chamado “complexo de vira-lata”. Mas fez pouco, muito pouco. Não investiu o necessário na educação, não conseguiu implantar uma Política Nacional da Educação efetivamente conscientizadora. No campo da comunicação, que é o foco deste artigo, conseguiu proezas no seu primeiro mandato, transformando a “Voz do Brasil” em algo audível e inteligente, graças à competente direção de Eugênio Bucci à frente da Radiobrás. Mas o projeto foi abortado e, nos anos seguintes, processou-se um contínuo retrocesso. Dilma Roussef tampouco se esforçou para oferecer um contraponto à guerrilha jornalística da Globo, Veja, Record, Estadão, SBT e Band. Hoje, ouvir o bordão "Em Brasília, 19 horas" é o mesmo que mergulhar nas trevas da política brasileira no ano de 1969.


Parte 4


Na noite de 7 de julho de 2019, a Rede Globo transmitia a partida decisiva da Copa América, entre a seleção brasileira e a peruana. Ao final do jogo, o amigo Marcelo Ridenti (a quem agradeço por haver me alertado acerca da oposição entre a visão de Althusser e Raymond Williams com relação à metáfora base / infraestrutura e aos aparelhos ideológicos de estado) comentou que Galvão, em ato falho, teria dito que “houve protestos e aplausos” e, arrependido de mencionar as vaias, complementou: “O presidente agradece, ‘aliás’, os aplausos”.


A Globo não é um monstro mitológico. É uma pessoa jurídica, com funcionários, atores, jornalistas, redatores, técnicos em comunicação, publicitários, que obedecem à linha editorial estabelecida, sob pena de expurgo, ou melhor, de demissão.


A tentativa de apagamento da “gafe” de Galvão foi, muito provavelmente, em obediência a alguma ordem partida da escuta de seu fone de ouvido. No entanto, da mesma forma que o ato público de 25 de janeiro de 1984 não era uma comemoração da fundação da cidade de São Paulo, fato é que, decorridos sete meses de seu governo, Jair Bolsonaro, assim que entrou em campo pelo túnel de acesso aos vestiários, ouviu uma sonora vaia. Mas, instantes mais tarde, apoiadores do capitão puxaram aplausos. A missão da Globo, portanto, era difundir aos seus telespectadores esta segunda reação e silenciar o som das arquibancadas e gerais com uma descabida trilha sonora estilo StarWars.


A Globo não é implacável. Releva o “erro” de Galvão ao comentar, por um lapso, o que de fato estava ocorrendo. Tem paciência com o velhinho, pois sabe que ele imediatamente corrigirá seu “erro”, ainda que a custo de sua dignidade pessoal. Ao longo da história da emissora, houve quem se recusasse a baixar a cabeça. Foi o caso da estupenda atriz Lucélia Santos. Conhecida, literalmente, até na China e em Cuba, por sua participação na novela Escrava Isaura, a atriz foi relegada ao ostracismo por se indispor com a toda poderosa empresa. Galvão não é da estirpe de Lucélia.


A rigor, porém, até teria sido possível cooptar Lucélia Santos para o projeto global de dominação das comunicações no Brasil. A Prof. Elizabeth Harkot de la Taille (FFLCH-USP), que generosamente efetuou uma ligação dos pontos até aqui desenvolvidos, ponderava ontem que algumas emissões e quadros como Globo Ciências, Globo Cidadania, Globo Natureza, entre outros, vêm perdendo interesse e que a emissora precisa se reinventar para sobreviver. Lembro, nessa mesma senda, as telenovelas Saramandaia e O Bem Amado, escritas por Dias Gomes, ou ainda a minissérie Grande Sertão Veredas, que há décadas furavam o padrão chapa-branca da emissora e satisfaziam a fome da intelectualidade por um padrão cultural minimamente elevado.


Louis Althusser (Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado) explicaria este aspecto aparentemente contraditório ao afirmar que “...os andares da superestrutura não são determinantes em última instância, mas que são determinados pela base; (...) se são determinantes à sua maneira (ainda não definida), são-no enquanto determinados pela base”.


Empresas de comunicação, inclusive aquelas mais empenhadas em produzir um discurso ideológico destinado a atender o interesse imediato de quem está no poder, são pessoas jurídicas de direito privado e querem dinheiro.


Na obra “Cultura e Materialismo” (São Paulo : Editora UNESP, 2011, p. 69), Raymond Williams afirma que os meios de comunicação são, eles mesmos, meios de produção. O autor apresenta um consistente contraponto à teoria de Louis Althusser acerca dos aparelhos ideológicos de estado e à metáfora da superestrutura e da base. No que concerne aos meios de comunicação, Raymond Williams concede que eles “são sempre social e materialmente produzidos e, obviamente, reproduzidos. Contudo, eles não são apenas formas, mas meios de produção, uma vez que a comunicação e os seus meios materiais são intrínsecos a todas as formas distintamente humanas de trabalho e de organização social, constituindo-se assim em elementos indispensáveis tanto para as forças produtivas quanto para as relações sociais de produção”.


Passando por um bairro de Copenhague há um mês, deparei-me com uma espécie de boutique “comunista”, vendendo livros de Marx e Engels, broches vermelhos com foice e martelo, pins, CDs de hinos socialistas, camisetas com a estampa de Trotsky, imãs de geladeira com a imagem de Lenin e outras bugigangas tendo como motivo as imagens de Stalin ou Plekhanov. No mercado, podemos encontrar até patinhos de borracha com a cara de Karl Marx. Espectadores e leitores, independentemente de suas convicções políticas, estão em sua mira. Por isso, o mercado produz cerveja, cinema e camisetas para fascistas e para antifascistas. Por isso, é possível encontrar num mesmo quarteirão uma loja do McDonald’s ou um restaurante vegano. Por isso, as emissoras que propiciaram o ambiente para a degradação da democracia brasileira, oferecem um pequeno espaço para que alguns artistas, apresentadores e comentaristas dirijam-se a quem se opõe à ultradireita. Está tudo no pacote. São caminhos possíveis que apenas insinuam um vislumbre do abismo (do ponto de vista do capitalismo), mas que estão muito longe de o conduzirem a ele.


A Globo, porém, vem dando passos muito tímidos, quase imperceptíveis, em direção a um púbico consumidor menos mesmerizado pelo discurso fascista daqueles para quem a denúncia do desrespeito à lei e à Constituição é estratégia de quem quer a “volta” da corrupção. Volta... Como se a ascensão de Sérgio Moro não constituísse a coroação dessa maldição histórica. Peço vênia para reproduzir mais uma vez as palavras de Elizabeth Harkot de la Taille. Os fatos chamados "reais" têm significado muito pouco diante da produção contínua de fake news: "As evidências são descartadas em favor de uma versão que lhes agrada, pois reforça aquilo que acreditam e isso lhes dá prazer.” Atualmente, a Rede Globo investe num enorme esforço para demonstrar que está ao lado do poder, que preferia não tivesse uma estética tão oposta ao padrão "global". A Globo ficou fora de moda, depois da campanha que elegeu Bolsonaro. “Acreditando que o povo é, sim, bobo, e tem larga experiência que o confirma, passa a repetir ad nauseamo bordão de que as mensagens do Intercept foram obtidas ‘ilegalmente, por hackers criminosos’, com ênfase crescente a cada palavra (...).”


Na semana passada, porém, espantosamente, a Rede Globo, sem deixar de bajular o governo hediondo de Bolsonaro e de colocar em descrédito o premiado jornalista Glenn Greenwald, dedicou um espaço destacado do Jornal Nacional (clique para ver o vídeo no Youtube) para relatar as revelações publicadas pela Revista Veja sobre o escândalo Moro & Dalagnol. O episódio foi muito além do inócuo programa de humor “Zorra”, com seus quadros satirizando o governo Bolsonaro, porém de forma de certa forma respeitosa (um bobo-da-corte cauteloso diante do rei Macbeth).

Parte 5

Seriam Reinaldo Azevedo e Rolando Lero agentes cubanos?


Num quadro do tradicional humorístico televisivo “Escolinha do Professor Raimundo” que vem sendo divulgado no Facebook, o mestre (Bruno Mazzeo, filho do saudoso Chico Anísio) pergunta ao aluno verborrágico Rolando Lero quem foi Eça de Queirós. O comediante Marcelo Adnet, que representa o personagem em sua atual fase, ergue-se e começa a discorrer sobre o famigerado Sr. Fabrício Queirós, permeando a resposta ao professor com alusões a alguns dos incontáveis crimes e falcatruas que vieram à tona nestes primeiros meses de governo Jair Bolsonaro. Por alguns momentos, aqueles que se consideram representantes intelectuais da resistência democrática ao fascismo e à criminalidade estatal sorriem com benevolência, um tanto surpresos com o fato de que o programa de humor foi veiculado na Rede Globo.


Criador do termo “petralha”, Reinaldo Azevedo, que escreve na Folha e tem um programa radiofônico vespertino na BandNews FM, nos últimos meses tem didaticamente dado aulas sobre legalidade e estado de direito, denunciando a farsa do julgamento de Lula pelo ex-juiz que agradece ao parceiro do MPF se o “manter informado” (sic). Aliás, com relação ao modo como o Sr. Moro agride o vernáculo, há alguns dias concluí: se em seu concurso para ingresso na magistratura federal o nível de exigência de conhecimento do Direito foi tão rigoroso quanto o da língua portuguesa, tudo se explica...


Empresas de Jornalismo, Rádio e TV, tanto quanto Igrejas e escolas são considerados aparelhos ideológicos de estado por uma corrente da sociologia política. Sua finalidade seria reproduzir as condições propícias à produção econômica. Vladimir I. Lenin teria sido desde o início perspicaz o suficiente para detectar a enorme importância em “revolucionar o Aparelho Ideológico de Estado escolar (entre outros) para permitir ao proletariado soviético, que tinha tomado o poder de Estado, assegurar o futuro da ditadura do proletariado e a passagem ao socialismo”, como afirma ALTHUSSER, à pág. 49 de seu conhecidíssimo livro “Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado”.

É verdade que, em 2010, Lula começou a atentar cada vez mais para a importância do estabelecimento de um novo “marco regulatório da comunicação”. Em dezembro daquele ano, ele afirmou em site governamental:


“Há uma briga histórica. Os meios de comunicação confundiram isso, como se fosse um cerceamento da liberdade de imprensa. A coisa mais pobre que eu acho é alguém achar que não pode receber críticas, que é intocável”.


E completou com uma afirmação que vem fazendo até hoje:


“Só quero que falem a verdade, aquilo que aconteceu”.


Mas quem disse que a indústria cultural ou, se preferirem, os aparelhos ideológicos de estado destinam-se a “falar a verdade”? Eles servem aos seus próprios interesses financeiros e, para alcançá-los, normalmente também atendem plenamente aos interesses do capital que os financia. Falar a verdade, nesse caso, significaria expor ao povo as entranhas do poder, que estão muito longe de serem visual ou olfativamente agradáveis.


Quando falamos em “verdade” num debate sobre os meios de comunicação não podemos confundir falta de ética jornalística com falta de profissionalismo. Vale, nesse ponto, trazer à colação a lembrança de Rui Guimarães Vianna a respeito da independência do profissional jornalista, numa passagem do livro Chateau, do Fernando Morais, e que virou quase um meme:


“Em uma conversa entre Samuel Wainer, editor, e Chateaubriand, dono do jornal, Wainer resolveu contrariar a linha editorial imposta, e tomou uma chamada do chefe. 'Se você quiser ter opinião, tenha seu próprio jornal!’ Acho que isso resume bem o jornalismo da globo, ou da maioria dos meios da grande imprensa. (...) O sentido de sobrevivência se sobrepõe à ética, à honestidade intelectual... Minha mãe sempre me disse, desde que eu comecei a trabalhar com 13 anos (mas minha vida mudou um monte por causa disso!): Não existe independência sem independência financeira!”


O Jornal Nacional muitas vezes se parece com um eficaz substituto da arcaica “Voz do Brasil”. Mas o “obscuro amálgama político” a que já me referi exige mais do que a Rede Globo vinha até aqui oferecendo. Corroborando as ponderações de Rui Guimarães Vianna, há alguns dias o jornalista e agitador cultural Gavin Adams me disse por e-mail que “faz algum tempo, que a maior fonte de renda da Globo hoje é... sua Tesouraria! Isto é, as aplicações no mercado financeiro da emissora superam os ganhos com publicidade. Acho que este é um sintoma geral do capitalismo hoje e esse domínio do financeiro sobre a produção aparece de várias maneiras (tipo o Skaf, que nunca teve fábrica mas que aluga galpões, é presidente da FIESP)”.


O SBT, atento a essa nova e sinistra realidade e à possibilidade de perder para a Rede Record / Igreja Universal do Reino de Deus a briga com a Rede Globo, imediatamente reagiu, veiculando velhos slogans da época da ditadura militar – “Brasil, ame-o ou deixe-o”, “Este é um país que vai pra frente” etc. Foi tão caricato nesse esforço que só não perdeu totalmente a credibilidade porque nunca teve (Silvio Santos, cabe lembrar, foi candidato a presidente em 1989, tendo porém sua candidatura indeferida pelo TSE por razões técnico-legais – leia-se, por não ser uma boa opção para o mercado naquele momento).


Patrulha ideológica

Voltemos, porém, às narrativas que destoam do discurso oficial do amálgama. Como reagir diante destes novos opositores à barbárie fascista que, para a surpresa geral, debandam para o lado da democracia? O que significam suas narrativas?

Há 40 anos, surgiu uma expressão no meio artístico: “patrulha ideológica”, espécie de cartilha de esquerda, com uma tábua de valores. Dependendo da nota dada, a figura avaliada seria projetada ou colocada no ostracismo. A expressão teria sido cunhada pelo cineasta Cacá Diegues e tinha por alvo críticos do velho Partido Comunista Brasileiro. Cabe destacar aqui que “patrulhamento ideológico” não era algo baseado em elementos fáticos e evidentes. Wilson Simonal, o talentoso cantor que caiu em desgraça, principalmente em razão dos esforços de Carlito Maia, podia até cantar um libelo em prol da emancipação política dos negros no Brasil (algo que mereceria nota alta na cartilha do patrulhamento ideológico de esquerda), mas consta que era informante do DOPS, segundo informa o jornal Folha de S. Paulo, com ficha de serviços prestados à repressão.

Gato escaldado tem medo de chuva. A esquerda não aceita a contribuição de setores que até pouco tempo atrás trabalhavam pelo impeachment de Dilma Roussef, a ascensão de Michel Temer, a prisão de Lula e a eleição de Jair Bolsonaro.

Com isso, ela parece supor que tem, dentro dos limites da superestrutura (universidade, meios de comunicação, redes sociais) força suficiente para reverter um quadro de degradação dos valores constitucionais. Não aceitando a nova correlação de forças, sofre incontáveis revezes no campo da disputa narrativa, inclusive quando o clima lhe seria favorável, parecendo não enxergar que não está mais distribuindo as cartas do jogo e que, por 14 anos, desmobilizou suas principais bases de sustentação – trabalhadores, ambientalistas, estudantes - preterindo-as em favor da mesma escória parlamentar que a escorraçou do poder e que hoje, ampara um governo que ultrapassou o que muitos entendem serem os “limites da decência”, sem dúvida, um conceito burguês.


15 visualizações

© 2023 por O Artefato. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W