• Guilherme Purvin

36 – Último Capítulo

- Guilherme Purvin -



Você, que acompanha esta história há um ano, deve estar se perguntando: e quanto aoálbum "A Igreja do Gigante Azul"? Falei todo esse tempo de meus planos, chegando mesmo a sugerir que o meu antecessor na DDSE, o Sr. Oseias, seria um eventual pastor dessa igreja. De repente, nos últimos capítulos, acontecem essas reviravoltas ao estilo Janete Clair, Lauro César Muniz ou Aguinaldo Silva e nada de se explicar convincentemente o que aconteceu com meu sonho musical.


Eu poderia me justificar dizendo que, nessa época, não fazia mais sentido pensar no álbum “A Igreja do Gigante Azul”. Agora, todo mundo só queria comprar CD. E os encartes dos CDs eram tão pequenos que meu projeto – um álbum com um grande encarte, tipo Magical Mistery Tour – teria que ser descartado. Mas isso seria mentira. Desisti porque tornou-se impossível pensar em gravar algo com um computador MSX e um gravador de minicassete no sobrado da Monsaraz 43, com a Joaninha cantando, o nenê chorando, minha mãe discutindo com meu jovem pai-adjunto Biriba. E, eventualmente, da Dona Sara e do Melquíades, que vinham nos ver diariamente. Admito que conversei ainda com o Bobbio Dylan, propondo a formação de uma nova banda de rock, eu como compositor, ele como cantor. Mas ele estava noutra vibe, na Casa de Repouso New Heaven para velhinhos. Enfim, todos esses empecilhos foram uma excelente justificativa para eu abandonar o sonho de tornar-me um músico, já que eu mesmo não suportava ouvir as minhas próprias gravações, evidentes surtos surtos de inflamação do hipocampo.


Agora, alguns esclarecimentos a quem me leu até aqui.


O Dr. Décio Linhares decidiu ingressar na vida política e concorreu para vereador de Tijuco Verde. Pediu desligamento do serviço público e fez uma campanha memorável, gastando todo o dinheiro que havia guardado por toda a vida na caderneta de poupança. Não obteve nem voto de sua esposa, dona Glaisy. Desesperado com as dívidas por vencer, passou a trabalhar como traficante para o Benedito Montana. É sempre visto nas proximidades da faculdade onde Andréa Albuñuelas leciona, distribuindo vários tipos de drogas para os estudantes de Tijuco Verde. Dona Glaisy, por sua vez, ingressou com uma ação de divórcio e pleiteia uma pensão equivalente a 50% do que ele ganhava antes de deixar o serviço público. Seu pleito foi atendido pelo Juiz de Direito George Pererec e, diante da inadimplência do ex-marido, há dias o advogado dela pediu a prisão civil de Décio.


Melquíades continua trabalhando na Padaria Santa Cecília e está muito orgulhoso com o fato de sua filha Joaninha foi contratada pela Companhia Vale do Rio Tijuco Verde. Quando ele aqui em nosso sobrado da Monsaraz 43, sempre deixa sempre uns pãezinhos sovados para mamãe e doces para dona Sara. É um cavalheiro!

Mestre José Amaro meu conhecido acabou levando a pior numa briga com os manacapuruenses. Levou um tiro na cabeça mas não morreu. A bala está alojada em uma banda de cérebro e, de acordo com os médicos, não há como retirá-la sem que ele corra grave risco. Com isso, sua dívida junto ao Serviço de Esgoto voltou a crescer. Nem sei mais o que fazer com ele. A outra banda, porém, permanece intacta e, valendo-se dela, seu lado cordato ingressou na igreja do Profeta Oseias e hoje dirige seu próprio templo, onde conta com aproximadamente cem dizimistas fieis. Sua prosperidade é alardeada como uma demonstração cabal dos milagres da fé.

O Sr. Geraldo, não sei se cheguei a mencionar antes, morreu atropelado. Ninguém mais se lembra dele. Por isso, faço questão de mantê-lo no elenco de personagens de meu romance, para reverenciar a sua memória.


Oseias, o profeta, foi processado pela mulher por não prover o lar, deixando de pagar pensão alimentícia aos seus filhos. Como sua igreja não tinha personalidade jurídica, todos os bens móveis e o dinheiro recebido dos dízimos estavam em seu nome. Antes que a coisa complicasse, acabou aceitando uma proposta de acordo aventada pelo Dr. George Pererec: os seus quatro filhos foram nomeados profetas-mirins e a esposa, pitonisa da igreja. Todos com direito a percentual do dízimo.


Almir mudou-se para São Paulo, aprendeu tcheco e ficou muito aborrecido quando soube que Franz Kafka escrevia em alemão. Hoje faz doutorado no Departamento de Letras Modernas da FFLCH-USP. Sua tese versa sobre o romance "O Processo", que ele conhece de cór.


Joaninha, que às vezes achava que era Fernanda, quando leu o nome da cidade na Romênia onde papai está vivendo, ficou muito surpresa: "Mamãe também mora lá!". Jamais imaginei que ela tivesse uma mãe. Nem ela nem Melquíades mencionaram o fato uma única vez ao longo das páginas deste romance. Matutamos muito sobre essa coincidência e acabamos chegando à conclusão de que aquilo não era coincidência nenhuma. Meu pai e a mãe de minha mulher deviam estar juntos. Fiquei muito preocupado com isso. Se eles se casassem, eu me tornaria irmão de minha esposa! Afinal, a esposa de meu pai seria a mãe de minha esposa e o marido da mãe de Joaninha, pai do marido dela. Joaninha, contudo, me tranquilizou ao dizer que meu pai não poderia se casar, pois não chegou a formalizar o divórcio com minha mãe. Portanto, Joaninha nunca se tornaria minha irmã enquanto meu pai e minha mãe fossem adúlteros ou bígamos, muito embora não fossem búlgaros nem húngaros.


Andréa Albuñuelas, minha grande amiga, está tranquila e feliz dando aulas na nova faculdade de Jornalismo, mas continua sentada diante de uma garrafa de cerveja. Aliás, estou ao seu lado neste instante e aproveito para ler o meu romance:


Januário Ladeira limpa os seus novos livros e então dá-se conta de alguma coisa muito sinistra. Havia levado para casa livros sugestivos, Os Ratos, de Dionélio Machado e A Ratazana, de Günter Grass – um par de transmissores de tifo murino. No dia seguinte, Januário é internado num hospital por haver contraído leptospirose”.


Andréa opina com sabedoria:

— Bobagem, Januário, o protagonista não ficou doente, ele descobriu que era o flautista de Hamelin. Mas, afinal, quem é o tal Gigante Azul? E essa igreja então?


Minha amiga de toda vida lê este manuscrito, balança a cabeça e sugere:

— Então... Não sei direito. Acho que eu devia estar pensando na capa do "Three Friends", do Gentle Giant, quando inventei esse título. Devo mudar o título do romance?


— Não é preciso, mas seria bom dar algum simbolismo às datas e às imagens. Tudo começa no dia do acidente de Chernobyl e se encerra no dia do acidente em Goiânia. São datas significativas para a história do Planeta Terra. A Terra poderia ser o gigante azul: a contaminação radioativa tem o assustador poder de exterminar a vida, de criar algo como um grande vazio, um espaço desprovido de vida. A partir desses desastres, terá início uma mobilização em defesa da vida, da descontaminação, da desnuclearização, da paz e da ecologia. A fé na possibilidade de sobrevivência de nosso planeta haverá de adentrar em todos os credos, todos os ritos, todos os templos e espaços sagrados, pois sem ela o que teremos pela frente será o nada. E nada significa silêncio absoluto na música, 451 graus Farenheit nas bibliotecas, vitória final dos vírus, das bactérias, dos helmintos sobre o Serviço de Esgoto do Município de Tijuco Verde.


— Ah, mas aí seria outra história, Andréa. Se quiser, você que escreva o seu próprio livro.


Andréa apanhou uma caneta e um bloco de notas:


Como é que me lembro daquele dia? Simples: fazia exatamente um ano que Regina havia saído de minha vida. No entanto, consegui sentir compaixão pelo cara de olhos esbugalhados que entrava na repartição. Calças pretas de tergal, camisa amarela de manga longa abotoada até o pescoço, sapatos marrons de couro, malinha 007 na mão, cabelos assentados com gel, olhar assustado, sem saber a quem se dirigir.


Eu datilografava aqueles papéis sem pensar no que escrevia. Todo dia o Setor de Dívida era invariavelmente idêntico ao anterior. Só o que mudava era meu estado de espírito. Muita coisa rola no mundo exterior, mesmo que esse mundo seja uma cidade tacanha, com sua divisão geográfica de classes – a elite na Vila Portuguesa, a miséria total na área das torres de alta tensão. Conheço cada metro quadrado deste ultraje à dignidade que é o lugar onde nasci e onde vivo até hoje. Eliete, que me ajuda no apartamento às terças e quintas, me levou para conhecer a casa onde mora na Vila dos Canudos, popularmente conhecida como Favela do Curto-Circuito, acesso pelo lixão à direita do Rio Tijuco Verde.


À noite eu iria com as meninas do grupo de leitura para Orelha de Macaco, pra ver o novo filme de Susana Amaral, A hora da estrela. Para chegar a tempo de jantar num restaurante da orla e conseguir pegar a única sessão, às dez da noite, teríamos que sair antes das sete. Eram apenas quatro dias de exibição, de segunda a quinta-feira, às dez da noite. Se não estou enganada, era exigência legal. Os dias e horários nobres eram reservados para campeões de bilheteria, como o Rambo II, em cartaz já desde o ano anterior. Levantei-me para tomar um café e acendi um cigarro.


Linhares estava feliz da vida com a chegada do substituto. Colocou duas listas telefônicas sobre o assento de sua cadeira para observar melhor o novo funcionário. Quando eu chegava para trabalhar, o serviço do dia já estava em minha mesa. O chefe entrava meia hora antes para fazer a distribuição das tarefas. A minha rotina, desde que entrei no SDSE, era abrir cartas devolvidas pelo correio, grampear o envelope no canto superior esquerdo delas, perfurar as folhas e as colocar nas pastas respectivas. Depois, registrava a razão das devoluções e fim.


Tijuco Verde tinha umas 20 mil residências, cada uma com três moradores em média. Desse total, 15 mil não pagavam as taxas de esgoto. Apaguei a brasa no resto do café no fundo do copinho plástico e voltei à minha mesa para conferir os carimbos de devolução. A maioria era com “endereço não localizado”, alguns com “mudou-se” e um número menor com o carimbo “falecido”. Eram os casos perdidos. Ninguém corrigia endereços errados ou saía para cobrar de quem deixava a cidade. Falecido era anistiado: cortesia da municipalidade.


Relembrar aquela época é exumar cadáveres sepultados há décadas. Ao mesmo tempo que me divirto ao ler o esboço de um romance que se reporta a vários fatos e situações que eu conheci tão bem, sinto também um gosto amargo na boca. Eu nunca iria imaginar que me tornaria amiga de uma figura tão bizarra, que levava a sério o absurdo daquele serviço sem sentido.


Na verdade, a última coisa que eu queria era me aproximar daquela fauna de machistas. É bem verdade que eu costumava conversar um pouco com o Almir. Era um sujeito divertido, fingia tão bem que trabalhava demais a ponto de comover qualquer pessoa que visitasse o Setor de Dívida. Ele também estava insatisfeito com o emprego e queria saltar fora o mais rapidamente possível. Para isso, estudava Direito. Talvez fosse uma boa escolha, abriria muitas portas. Nunca entendi o motivo, mas no Brasil, advogados, promotores e juízes até hoje ganham mais do que jornalistas, engenheiros ou professores. Talvez porque sejam eles que interpretam as leis em benefício próprio.


Isto era tudo o que me ligava ao Almir: a vontade de trabalhar com qualquer coisa mais instigante do que com as rotinas burocráticas e embrutecedoras como as minhas: arquivar cartas de cobrança malsucedidas. Apanhei novamente o folheto cor-de-rosa. Computação e Informática. Rede Mundial de Computadores. Esse assunto estava todo dia nos jornais. Eu pensava nos quatro anos do curso de Jornalismo. Quatro anos de esforços inúteis. Ou melhor, que serviram apenas para o concurso de ingresso no serviço municipal de esgoto, que exigia curso superior. A questão era saber se eu teria paciência de voltar aos bancos da faculdade para aprender alguma coisa sobre programas de computadores, editores eletrônicos de texto, comunicação com gente do México, da Espanha ou do Paquistão. Quando Regina estava ao meu lado, eu contava as chateações do dia no SDSE, ela falava das coisas ridículas ocorridas durante as aulas na Faculdade de Jornalismo de Jerivá, onde nos conhecemos. As duas ríamos de nos contorcer. Eu teria muitas anedotas para lhe contar sobre este dia. O cara agora estava de pé ao lado do Linhares, inspecionando a boca do chefe com pose de dentista. Sem a Regina para descrever aquela cena, tudo era deprimente e patético. Quando é que estaria livre daquilo? Pensei em puxar o Almir para me acompanhar num café, mas parecia que ele estava cochilando. Irritada, fui ao banheiro fazer xixi e lavar o rosto. Olhei-me no espelho. Meus cabelos pareciam palha seca. Fizera bem de cortá-los ao estilo Joãozinho, na época em que Regina se foi. Uma espinha purulenta doía-me na testa. Arreganhei os dentes manchados de nicotina e exclamei para o espelho: “Caralho, Andréa, como tu está feia”. Andréa é o nome que dou para a minha imagem no espelho. Não me sinto Andréa. Andréa da Regina. Fui eu que pedi a ela, numa brincadeira. Ela havia confundido meu nome na primeira aula. Ficou se desculpando na noite em que me convidou para ir jantar na sua casa. Eu sabia que era Andréa, mas as letras são quase iguais, Andréa, Adrenalina, Andréa... Eu estava ouvindo aquela canção do Legião, quero ter alguém com quem conversar, você conhece? E eu respondia deixa de ser tonta, Regina, eu adoro o nome Andréa, é muito mais a minha cara do que Andréa. Regina encheu nossos copos de whisky e colocou um disco. Renato Russo cantava melancolicamente às vezes parecia que de tanto acreditar em tudo que achávamos tão certo, faríamos floresta do deserto. Regina me explicou que a canção era alusiva a um transatlântico chamado Andrea Doria e que havia afundado e matado cinquenta pessoas no dia em que ela nasceu. Fiz uma careta. Você me relaciona com um naufrágio, Regina? Ela então trocou de disco e colocou a Tetê Espíndola: Você pra mim foi o sol de uma noite sem fim, me puxando pra dançar. Regina, a minha professora de Jornalismo.


Ver a minha imagem no espelho, naquele estado, me deprimia. Ainda bem que à noite sairia com as meninas do clube de leitura. Ficamos amigas por mero acaso. Foi no dia seguinte ao da morte da Simone de Beauvoir, na Biblioteca Municipal de Tijuco Verde. Eu não sabia nada a seu respeito, muito embora Regina sempre estivesse falando sobre ela. Sartre, sim, eu havia lido O Diabo e o Bom Deus. Regina ficava brava comigo, dizia que eu só lia autor homem. Mas na época eu não fazia diferença nenhuma, gostava de Clarice e de Drummond. Só ao longo dos anos noventa é que comecei a entender um pouco de feminismo. Depois de ler as reportagens sobre a vida de Simone, senti necessidade de conhecer sua obra. Foi quando conheci as quatro garotas, todas reclinadas na mesa de leitura. Duas delas folheavam juntas o livro Todos os homens são mortais. As outras estavam separadas. Apanhei A mulher desiludida e uma delas, que lia com a amiga, comentou: Isto é mais raro do que o alinhamento de todos os planetas. Cinco mulheres lendo Simone na biblioteca desta aldeia. Foi assim que surgiu nosso clube de leituras.


Joguei mais água no rosto, passei uma toalha de papel, enchi um novo copo de café no caminho e levei para beber em minha mesa. Foi quando o Linhares veio com o rapaz para fazer as apresentações.


— Andréa, este é o funcionário que vai substituir o Oséias. Ele é formado em Contabilidade.


— Ciências Autuariais — disse o rapaz.


Atuariais — corrigi discretamente. Como é que uma pessoa pode se formar e não saber sequer o nome do curso que fez?


— Exatamente o que eu disse — respondeu Januário, enroscando o pé num rasgo do carpete e quase caindo em cima de mim. — Se você não sabe o que é, depois posso lhe explicar em que consiste essa ciência — prosseguiu, com tanta empáfia que não reprimi um bocejo de tédio. Naquele momento, se alguém dissesse que ainda seríamos amigos, eu olharia para o teto e suspiraria.


— Cuidado pra não cair de cara nesses carpetes rasgados. São uma armadilha, rapaz.



FIM




 

Ultimo Capítulo é o 36º e último capítulo do romance A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.

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