• Guilherme Purvin

34 - DA importância dos relacionamentos sociais

- Guilherme Purvin -



Nos vestimos novamente e fui com a Fernanda acordar minha mãe.


— Mamãe, é preciso levantar — eu disse, sem saber de onde vinham as minhas frases.

— Vários amigos estão lá em baixo, para prestar as suas condolências. Eu preciso de documentos do papai, temos que comunicar o acidente na delegacia de polícia, alguém precisa retirar o caminhão e o corpo de papai daquele rio. A amiga da Fernanda está preparando um café para todos. Depois eu ainda preciso conversar com a Amélia, esposa do César. Temos que tirá-lo o mais depressa possível daquela clínica.


Mamãe ouvia-me com espanto. Na verdade, Fernanda também estava boquiaberta, mas tudo fluía como se subitamente a inflamação em meu hipocampo houvesse atenuado. Desci novamente para cumprimentar todo o pessoal.


— Melquíades, você pode me ajudar? Não sei por onde começar a burocracia.


Fomos à delegacia, mas o escrivão recusou-se a registrar a ocorrência, afirmando que o óbito, se de fato existente, havia ocorrido em outro município e que, de qualquer forma, teríamos que saber a data exata do acidente, caso contrário o boletim ficaria incompleto.


Melquíades comentou comigo:


— Isso não é uma pretensão resistida?


— Acho que sim — respondi. — Por que?


— Lembra-se do bilhete do Dr. Giorgio Pererec?


Apanhei o bilhete, que trazia sempre comigo na carteira: “...evite a autotutela. Em caso de pretensão resistida, traga-me os fatos e eu dar-lhe-ei o direito. Mas venha com advogado. Ele saberá peticionar”.


— Não adianta nada, Melquíades. O juiz vai dizer que sem advogado não se faz justiça. Que advogado eu iria arranjar?


— Que tal aquele seu amigo do Serviço de Esgoto, o processualista?


— Bem lembrado, Melquíades!


Tomamos um ônibus para o Centro e fomos direto para o DDSE, que funcionava normalmente. Dr. Décio Linhares olhou feio para mim.


— Pode ir dando meia volta, relapso funcionário! A esta hora, aqui não entra, inepto retardatário!


Esquivei-me do baixinho, sem dar trela, e fui à mesa do Almir.


— Almir, quero te contratar para um serviço de advocacia. Preciso que você consiga um mandado de segurança para que a delegacia de Tijuco Verde lavre o boletim de ocorrência da morte de meu pai.


Décio Linhares interrompeu a conversa.


— Não vou liberar o Almir para nada. Além disso, você não me engana mais com essas desculpas sempre trágicas.


Almir olhava para mim com um ar aparvalhado.


— Sabe o que é, Januário? A minha especialidade é Agravo Regimental e Embargos Infringentes. Você teria que consultar um advogado que domine a área de Mandados de Segurança.


Vendo que daquele mato não sairia coelho, puxei Melquíades de volta, enquanto Décio Linhares esbravejava:


— Esse seu comportamento tresloucado vai constar de seu prontuário, Januário salafrário!


Voltamos para a Rua da Lama. O céu começava a escurecer, prenunciando tempestade em pleno final de abril. Pedi à Dona Sara e à Dona Lia que ajudassem a fazer as malas para a mamãe, ela ficaria na Monsaraz 43 pelo menos até a situação se acalmar. Dona Sara viu despertar nela o sentimento de sororidade e disse que mamãe poderia ficar no quarto de hóspedes da casa dela por quanto tempo precisasse, pois o sobrado onde eu vivia não era confortável. Puxei Fernanda e Andréa para um canto e contei da confusão na delegacia e do cagaço do Almir.


— Januário, mesmo que entendesse de mandados de segurança, o Almir não poderia advogar. Ele nem tem OAB ainda — ponderou Andréa.


— Tive uma ideia — disse Fernanda. — Vamos imediatamente para a Vila Aimoré!


Entramos os quatro no Belina II, Biriba na direção, Andréa ao seu lado, Fernanda e eu no banco de trás. Paramos na porta da Auto Iscola Aimoré. Benedito Montana veio nos atender.


— O que vocês querem agora?


— Precisamos de um favor seu, com urgência — disse Fernanda. — Mas nada de pactos mafiosos! É o seguinte, estamos com problemas burocráticos. Explique tudo, Janu.

Contei ao Benedito Montana a história do acidente do meu pai, a localização do caminhão vários meses mais tarde, a recusa da delegacia, a impossibilidade do Almir.


— Entendi. Vocês querem que eu consiga um guincho para retirar o caminhão do rio, um médico legista para lavrar o atestado de óbito, uma delegacia para registrar o boletim de ocorrência, um despachante para ir atrás do seguro do automóvel e uma carteira da OAB ao Almir. Mais alguma coisa?


— A carteira pro Almir não precisa — disse Fernanda. — Melhor obter a alta médica do César na clínica psiquiátrica.


— Justo a carteira que era o mais fácil! Se quiserem, posso incluir no pacote, de bônus. Tenho uns camaradas lá na Organização Advocatícia do Belize. Mas tem que ser sem um pacto de fidelidade?


— Tem.


— Bom, algumas coisas estão dentro de minha alçada. A alta médica, por exemplo, é só eu dar um tranco no Dr. Rui e na sua amante, a mãe dos trigêmeos. O resto, eu consigo com uma mãozinha de meus amigos da Mineradora Bedengó, com o pessoal da Transportes Clandestinos Tattoo e com o Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata. Mas vou querer uma contrapartida. Não é um pacto mafioso, mas um pedido justo.


— Diga lá — respondi.


— Quero voltar a tocar na Banda Lá Bemol.


— Isso é impossível, Benedito Montana. A banda foi desfeita, agora sou líder da Banda Sol Sustenido, que conta com a Fernanda na bateria e percussão, o David Gilmour e o Eric Clapton nas guitarras e o Arnaldo Dias Baptista no piano e teclados.


— E quem está no baixo? — insistiu ele.


— Eu — disse Andréa, para minha surpresa.


— Você pode tocar flauta — sugeriu o Biriba. — Aquela flauta irlandesa fininha com que o César costumava tocar Bonaparte cruzando o Reno e que provavelmente motivou os planos da mulher dele de conseguir sua internação na clínica.


— Não vou ficar tocando flautinha nenhuma — reclamou Benedito Montana. — Nesse caso, prefiro ser o empresário de vocês.


Todos concordamos.


O legista atestou que haveria um corpo na cabine do caminhão, muito embora transformado em lama tóxica e corrosiva. Em quatro dias, aquela papa química foi enterrada com o nome de Sr. Ladeira e a seguradora liberou a indenização por perda total do caminhão. Mamãe agora morava com a Dona Sara. Como nem tudo é perfeito neste mundo, Biriba foi morar comigo na Monsaraz 43, pois o quarto de hóspedes era, na verdade, o seu dormitório. Sem ter onde namorar a Fernanda, cuja barriga crescia lentamente, o meu hipocampo voltou a inflamar.

 

A Importância dos Relacionamentos Sociais é o 34º capítulo do romance A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.

13 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo