• Guilherme Purvin

33 – Tanatos & Eros

- Guilherme Purvin -



A primeira coisa que pensei foi: teria sido apenas um sonho toda aquela história de minha mudança para a Travessa Monsaraz, 43? A segunda: como é que esse bando conseguiu as chaves para entrar na casa dos meus pais? E a terceira: e por que essas pessoas, especificamente, e não outras que eu também conhecera ao longo de minha vida, como Benedito Montana, o Mestre José Amaro ou a Dona Glaisy Linhares?


A suspeita imediata recaiu em Melquíades Belafonte, por conta de precedentes históricos que lhe valeram a cicatriz na jugular. Estaria ele aproveitando-se da ausência de papai e, com a maior desfaçatez, trazendo de novo pãezinhos frescos para mamãe, em pleno horário de trabalho na Santa Cecília?


Por outro lado, por que não aproveitou para também trazer Joaninha, que sumiu de minha vida desde o momento em que me disse para esperar ali mesmo no quintal de sua casa, que ela tinha que fazer uma coisa lá dentro e daí a pouco voltaria, e eu fiquei ali como bobo, achando que ela ia fazer xixi ou só guardar seu livro erótico?


Não precisei de mais do que uns 30 segundos para relembrar o que havia acontecido na noite anterior. Os temas em foco naquele momento de minha vida giravam todos em torno da temática familiar, tendo por subtemas a capacidade de pensar e a finitude da vida. Conhecendo Melquíades como eu o conhecia, provavelmente ele veio à casa de meus pais para testemunhar fatos concretos que se relacionassem com tudo o que aprendera nos livros de Nietzsche, Kant e Schopenhauer. Foi ele o primeiro a erguer-se e vir me abraçar, dizendo:


— Em nenhum momento sentimos medo da ideia da eternidade passada até que a nossa mãe venha a nos parir. Nós nos entristecemos com a morte de uma pessoa querida porque esse evento nos relembra que chegará o momento em que voltaremos ao nada que éramos antes de termos nascido. O terror pela morte não é mais do que a outra face do desejo de viver: a morte é um retorno solitário para o vazio. Li na aba de um pacote de sucrilhos que todo vazio é um espaço que se oferece para ser preenchido com coisas. Naquele caso, o publicitário queria dizer que devemos comprar outra caixinha de sucrilhos sempre que o armário da cozinha oferecer um vão. Não ocupe com uma simples caixa de sucrilhos o espaço vazio do armário que ficou pela morte de seu pai. Ele estará presente na obra de Albert Einstein, que tanto admirava.


Aquela conversa era absurda e lúgubre. O que minha mãe e o Biriba tinham encontrado era um caminhão velho. Isso não tinha nada a ver com o sumiço de meu pai. A qualquer momento ele reapareceria em casa, cheio de novidades. Olhei ao redor e pensei: será que tem sucrilhos na cozinha ou antes preciso conversar com essas visitas?


— Mudando de conversa, sabe que sonhei hoje com você e com a sua esposa sumida? Só que no sonho a sua mulher era aquela Andréa Botafogo, professora de ginástica do clube chique de São Paulo, onde você ficou sabendo dos planos para acabar com os direitos dos trabalhadores.


— Você está enganado, Januário. Ela não era professora de ginástica, era sócia do clube. Eu tinha trabalhado de encanador na casa dela e aí ela indicou o meu nome para fazer uns consertos lá.


— Tenho quase certeza de que você me disse que era. De qualquer forma, no sonho ela era professora de ginástica, meu pai estava preso, minha mãe tinha um gato angorá e o Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata trabalhava de mordomo para minha família.


Eu estava irritado com aqueles agourentos. Piada de mau gosto, essa de dizerem que meu pai estava morto! Minha vontade era de enxotá-los todos dali. Só aceitaria demonstrações de consternação pelo fato de estar o cérebro de meu irmão, provavelmente, frito. Lembrei-me então que era dia de meu aniversário. 30 anos. Talvez tudo aquilo fosse uma armação: pêsames, lamentações e, de repente, surpresa! Confetes, palmas, bolo de aniversário, brigadeiros e cantoria de parabéns a você. Abri a porta da rua para deixar entrar um pouco de luz natural, mas o céu estava carregado de nuvens pretas prenunciando tempestade e enchente.


Por que Joaninha não veio com seu pai? Se começasse uma inundação, eu arrancaria uma árvore do chão qual Peri e levaria a pequena engenheira ferroviária para passear de jangada pelas águas do Paquequer de minha cidade, a minha Ceci flutuando nas águas servidas da Ratazana e do Tijuco Verde denso da lama tóxica da Mineradora Bedengó. Tudo sem a ajuda de meu irmão traidor, que se alinhou com Amélia na condenação de meus livros e que agora pagava por seu erro. Sozinho, mimando Joaninha, sem a colaboração do Dr. Rui Vianna que, neste momento, já deveria estar injetando novas drogas experimentais em suas veias. Fernanda, ao nos ver flutuando no tronco do ipê, ficaria sabendo o que perdeu ao substituir-me por surdos, caixas e tamborins. Era surpreendente que a batedora de bumbo também estivesse ali, naquela sala de um metro e sessenta e cinco de altura. Talvez Joaninha tenha mesmo vindo à casa de minha mãe para a festa surpresa de meu aniversário disfarçada de visita de condolências, mas, ao ver ali a caixa da Padaria Santa Cecília, enciumada, foi embora, sem saber que já não havia mais nada entre nós. Aquela presença era inoportuna. Se Fernanda estava ali para demonstrar publicamente um compadecimento da dor que eu não sentia, tudo não passava de farisaísmo. Resolvi então entrar no jogo e fingir que deveras sentia a dor que não sentia pela perda do caminhão.


Tentemos compreender a cena desta peça teatral: para que a comemoração desse certo, eu tinha que embarcar na onda deles, fazer de conta que acreditava ter ficado órfão, mesmo sendo ridículo inferir de uma carcaça na lama tóxica que o proprietário do veículo também estivesse ali, afundado há meses. Minha dificuldade de interpretação do papel que me cabia era que, se meu pai de fato tivesse morrido no acidente, a última coisa que eu precisaria era de compaixão. E não apenas isso, eu não acreditava que qualquer pessoa se afligisse pela dor da perda de um ente querido. Sempre detestei lamúrias e nunca consegui dizer “meus pêsames”. Todas essas formalidades civilizatórias me deixavam constrangido.


Pensei no poema do Drummond: Fernanda morava na pensão da violoncelista Lina Smrz. Lina Smrz havia trabalhado comigo para o Sr. Cabral. O Sr. Cabral era cliente do Biriba. Biriba era filho da dona Sara. Sara era amiga de Lia. Lia era casada com o Melquíades. Eu apenas ignorava o elo de Andréa Albuñuelas com aquele povo. No caso, ela seria o J.Pinto Fernandes.


Andréa era amiga só minha, eu a descobrira no antigo Setor de Dívidas do Serviço de Esgoto. Agora ela era professora de Jornalismo Eletrônico, e ninguém ali fazia faculdade de Informática e Ciência da Computação. Então lembrei-me vagamente de uma conversa que nós dois tivemos na semana seguinte àquele maldito churrasco, sobre um misterioso clube de leituras dos livros de Simone de Bonsoir. Devia ser isso: Andréa e Joaninha teriam se conhecido na Biblioteca Municipal de Tijuco Verde. De repente, até Gertrudes, a moça careca que havia se casado com o Sr. Geraldo e a cineasta Irmã Ursulina aparecessem ali. Será que Fernanda havia sido cooptada pelo grupo de leituras?


Limitei-me a dar bom dia a todos, sem perguntar o que faziam ali, espremidos na sala daquela casa. Apanhei o jornal e um exemplar fotocopiado do Manual Técnico-Prático do Guarda-Livros, de João Francisco de Araújo Lessa, edição de 1869, que encontrei em cima do televisor, e fui direto para a cozinha ver o que tinha ali para comer. Fernanda veio falar comigo.


— Como você está?


Eu comia umas bolachas Maria e bebia leite com Toddy, lendo uma notícia sobre uma pajelança em Brasília. O cacique Raoni havia dado um cocar ao deputado Ulysses Guimarães, de quem, aliás, o Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata era muito amigo. Ergui a cabeça e respondi:


— O Raoni não é aquele que tentou salvar o Ruschi do veneno de sapo mas não conseguiu?


Fernanda sentou-se na cadeira ao meu lado e afagou meus cabelos.


— Seu pai acreditava em Deus?


A pergunta me pareceu completamente despropositada.


— Papai fala muito sobre a Teoria da Relatividade. Tem até um livro que ensinava o significado da equação E = MC2. Certa vez me explicou que era impossível ao ser humano viajar para outras galáxias porque eram muito distantes e, para alcançá-las, a nave teria que atingir uma velocidade próxima a trezentos mil quilômetros por segundo. Acontece que, à medida em que a velocidade de um objeto qualquer aumenta, seu tamanho também aumentará. Ao atingir uma velocidade próxima a metade da velocidade da luz, esse objeto terá dimensões gigantescas, as moléculas se desintegrarão, transformando-se em átomos isolados. Toda a estrutura orgânica que dá sustentação à vida e à inteligência será desfeita.


Para bom entendedor, isso significava que papai não devia acreditar em deus nenhum, pois era fisicamente impossível que os deuses fossem astronautas.


— Você ainda me quer?


Não respondi nada para ela, estava ainda magoado por ter sido trocado por dois paus e um couro estendido. Impaciente, ela perguntou:


— Quero saber se devemos marcar uma missa em memória de seu pai, Januário.


Missa em memória? Que estupidez era essa? Alguém ali não se lembrava dele? E desde quando missa fazia bem para a memória? Se fosse necessário, eu tomaria Fosfosol, jamais hóstia e água benta.


— Você não é mais kardecista? Não entendi esse lance de marcar missa em memória. Parece homenagem a defunto, credo. De qualquer forma, não sou eu quem vai decidir essa idiotice. Pergunta pra minha mãe, quando ela acordar.

Em seguida apareceu a Lina Smrz na cozinha. Na certa queria filar algum rango, por isso a princípio eu não dei trela. Eu não tinha vínculo nenhum com a falsificadora de documentos contábeis, agora empresária no setor hoteleiro, embora ela fosse muito tentadora. Por outro lado, considerando que a Fernanda me dera um pé na bunda, eu estava no legítimo direito de requestar uma nova garota. Generosamente, perguntei à mulher:


— Quer um biscoitinho com Toddy, Lina Smrz?


— Obrigada, Januário. Só vim com a Fernanda para expressar as minhas condolências pelo passamento de seu progenitor.


Fiquei de pé e apropinquei-me da bela eslava, abraçando-a.


— Muito obrigado, querida. Você já leu A Insustentável Leveza do Ser?


— Já, claro. Todos conhecem Milan Kundera. Mas gosto mais dos livros da Karolina Světlá e do Karel Čapek.


Eu nunca tinha ouvido falar daqueles autores.


— Essa Karolina é boa? Tem alguma indicação?


— Se você souber ler em tcheco, eu te empresto o Vesnický román.


— Quero sim — respondi, sem revelar a ela que não dominava nenhum idioma eslavo. Notei que Fernanda se irritou com a conversa e me abraçou.


— Janu, não é momento para ficarmos falando sobre literatura tcheca. Lina Smrz, você prepara um café para o pessoal que está na sala e eu vou subir com o meu namorado para falar com a mãe dele.


Achei-a muito autoritária, dando ordens a mim e àquela violeira de belas gâmbias, mas obedeci. No entanto, quando eu me encaminhava para o quarto de minha mãe, Fernanda me puxou para o meu antigo quarto, trancou a porta, tirou a minha roupa e a dela. Já tinha visto aquilo na Status e na Playboy, mas ao vivo, tridimensionalmente, era a primeira vez. Deitou-me na cama e beijou todo o meu corpo. Instintivamente comecei a beijá-la também. Às 11 horas da manhã, no momento em que haviam decorrido exatos trinta anos de meu nascimento, eu perdi a minha virgindade e engravidei a caixa da padaria.

 

Tanatos & Eros é o 33º capítulo do romance A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.




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