• Guilherme Purvin

32 - O caminhão de papai

- Guilherme Purvin -



Foi numa quinta-feira, 23 de abril de 1987, oito e meia da noite quando Biriba e minha mãe tocaram a campainha. Eu estava justamente começando a compor a faixa “Os adoráveis sermões do Gigante Azul” que, de acordo com o meu projeto, teria letra e música de minha autoria. Tudo na minha vida seguia uma lógica rigorosa, os eventos encadeavam-se com suavidade e perfeição rumo a um ápice glorioso, embora ainda desconhecido. Não que o salário no DDSE fosse melhor do que na Duas Pátrias. A inflação de fevereiro havia sido de 16%. A de março, de 19%. E os reajustes de salário eram de anuais. De qualquer forma, a aprovação no concurso municipal foi que possibilitou a celebração do contrato de locação do sobrado de Dona Sara, mesmo não tendo eu me casado com a Joaninha. É que, graças ao inusitado ingresso de receita advinda das cobranças pessoais que eu fazia secretamente aos finais de semana e feriados, finalmente a Administração Pública reconhecia meus méritos profissionais, o que talvez tivesse chegado aos ouvidos da senhoria. Logicamente esse reconhecimento era apenas verbal, não envolvendo elevação salarial, até mesmo porque não havia plano de carreira para o cargo de auxiliar de contabilidade e qualquer reajuste seria apenas para fins de correção monetária, anualmente.


No rock and roll, eu era forçado a reconhecer que a dissolução da Banda Lá Bemol havia sido um baque. Mas estava claro que não havia como insistir naquilo, o Benedito Montana decidira procurar novas alternativas de renda que não implicassem, segundo ele, em adesão ao sistema. Em contrapartida, a tecnologia trouxera para os músicos de todo o mundo a alternativa dos programas simuladores de sintetizador de som – os computadores de oito bits modelo MSX. A certeza de que eu teria um dia o meu próprio MSX enchia-me de energia para aperfeiçoar o enredo da ópera-rock A Igreja do Gigante Azul. Assim, em breve também teria meus méritos como band leader, compositor e letrista reconhecido no show business. Mesmo sem a colaboração da Fernanda, que enveredara decididamente para o mundo do batuque: agora era candomblé pra cá, escola de samba pra lá, e nada de participar da banda Sol Sustenido, como havia um dia prometido.


Ao ouvir a campainha, hesitei em abrir a porta. Não estava com a menor vontade de receber aqueles dois, que continuavam saracoteando por Ozimândia, Orelha de Macaco, Jerivá, Farinha Seca, Tipuana, Sabão de Soldado e Chumbinho. No entanto, Biriba insistia, apertando o botão e gritando por meu nome. Atendi.


Fazia tempo bom, as chuvas haviam cessado há mais de um mês e parece que eles resolveram subir a serra pela estradinha que leva a Tipuana e Jerivá. Biriba parou a Belina II no alto da ponte sobre a foz do Ozimândia, no ponto em que ele se junta às águas do Tijuco Verde. E então gritou para minha mãe: “Venha ver uma coisa!”.


Os dois desceram por uma picada até o encontro das águas. O leito estava baixo, corria apenas um filete de água no Ozimândia, unindo-se à água fétida do Tijuco Verde. Em meio ao barro e ao mato, cabeças de boneca, pneus carecas, geladeiras quebradas de isopor, sacos plásticos, garrafas de leite e de refrigerante, algo sobressaía: a carcaça do caminhão de meu pai. A boleia estava afundada na lama tóxica de décadas de despejo de resíduos industriais, de mineração e de esgoto.


— Como vocês sabem que é o mesmo caminhão?


— Pela placa, Januário — disse o Biriba, abraçando mamãe, que chorava convulsivamente. — Aquela cidade é conhecida como o Vale da Morte.


— Mas o caminhão não tem seguro?


— Que interessa saber? Seu pai, Januário, está morto!


— Deixa de ser besta, só acharam um caminhão. O César já está sabendo disso?


Coloquei meu terno e fomos para a clínica psiquiátrica. Quem nos atendeu foi o Dr. Rui.


— Acho que é melhor vocês pouparem o César da notícia e se pouparem de vê-lo. Ele está muito modificado, por conta do tratamento de desintoxicação.


Minha mãe, porém, insistiu. Todo filho tem direito de saber da morte de seu pai. De nada adiantaram os conselhos do velho amigo psiquiatra. Entramos no quarto onde estava meu irmão. Careca, pesando menos de 50 quilos, barba por fazer, César olhava para a gente, aparentemente sem nos reconhecer.


— No fundo, bem lá no fundo, ele sabe quem são vocês — disse o Dr. Rui.


— O que vocês fizeram com meu filho? — gritou minha mãe, querendo esmurrar o médico. Biriba tentava imobilizar os seus braços.


— Acredite na Medicina! Para livrar uma pessoa do vício da maconha e de cogumelos mágicos, às vezes são necessários alguns procedimentos mais invasivos no cérebro.


Enquanto eles lá discutiam com o médico, eu me impacientava, gritando que precisávamos ser práticos e pensar no seguro do caminhão e no estado de conservação da casa na Rua da Lama.


O Dr. Rui aplicou um calmante no braço de mamãe, outro no meu e fomos tranquilamente para o seu gabinete. Foi uma sorte o encontrarmos ali naquela noite, de plantão. A sala era bonita. Mamãe foi colocada numa cadeira de balanço e o médico colocou em seu colo um gato muito feio e gordo, como se fosse um magnífico angorá. Aquela cena lembrava vagamente os tempos em que ela esperava papai chegar do trabalho, com um sorriso lânguido e um aroma butírico sob pálidas nuvens amarelas. Os dias de minha infância eram dias de brisa suave, mamãe agitando o sininho na nossa casa na Vila Portuguesa, onde vivemos até a prisão de papai. Tínhamos um empregado chamado Basílio Brasílio que era cheio dos requififes. Pois não, madame? Um Martini? Pois não, com licença. O gato angorá tinha pelos macios, mamãe não tinha rugas nem seios flácidos. Uma rápida lufada de vento produzia um ruído suave das folhas de palmeiras. O gato se aninhava no seu colo e mamãe sentia um arrepio de prazer. Doze anos haviam se passado do fim da guerra e da volta dos pracinhas, recebidos com festa, algo parecido com a conquista do tricampeonato no México. Mamãe retinha o angorá entre as coxas e eu comecei a ter uma ereção, o que me deixou constrangido. Para meu alívio, aquela não era mamãe, mas Andréa Botafogo, professora de ginástica do Clube Harmonia e esposa de Melquíades. Queriam fundar o Instituto dos Amantes da Arte de Tijuco Verde, com ênfase em danças afro-brasileiras e escultura em madeira, mas eu insistia para que eles fomentassem a Literatura e o Rock nacional. Moda europeia espalhada na mesa do terraço. A mãe dos pobres socava as próprias coxas, os músculos contraídos. Palestras, cheques, o jardineiro aparando a sebe. Agora não, faça isso amanhã, quero me deitar.


Acordei no meu velho quarto, na Rua da Lama, sem saber como foi que havia chegado lá. Levantei-me. Mamãe estava dormindo. Desci. Na sala, Melquíades, Fernanda, Lina Smrz, dona Sara, Biriba, o Sr. Cabral e até mesmo minha amiga Andréa Albuñuelas.

 

O Caminhão de Papai é o 32º capítulo do romance A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.


6 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo