• Guilherme Purvin

31 - Mundo paralelo

- Guilherme Purvin -



Cheguei no buraco da Rua do Ressuscitado às duas da madrugada, depois de haver passado em casa para trocar de roupa e ficar preso numa longa discussão com dona Sara Queneau a respeito da irreversibilidade da seta do tempo. Tudo começou por conta de um cavalo que passou galopando em marcha ré pela Travessa Monsaraz. Pensamos que se tratasse de um cavalo adestrado de circo, mas depois dele apareceu, na contramão, uma procissão religiosa. Só que, em lugar de seguirem o andor, os fiéis caminhavam todos de costas e o santo vinha carregado no fim da fila. As rezas também eram muito estranhas, lembrando rituais de missa satânica. As especulações a respeito daquele episódio bizarro com a senhoria do sobrado onde morava me fizeram perder o último lotação da noite, mas o Biriba se dispôs a me levar até o Morro dos Canudos desde que ele pudesse ver a capa do disco A Página do Relâmpago Elétrico.


Tudo o que veio depois daquela madrugada foi caótico e devastador, não contribuindo em nada para o aprimoramento de minhas coleções de livros e discos ou de minhas reflexões sobre Ciências Atuariais. E isto porque o episódio que irei contar agora, e que tem o Biriba e o Mestre José Amaro como testemunhas, constitui a demonstração cabal de que a verossimilhança e a lei da causalidade não têm qualquer vínculo com a REALIDADE. Subimos o morro no F-100 do meu vizinho pela Rua Quatro, atravessando um trecho do depósito de lixo tóxico. Tudo foi muito tranquilo pois fazia três dias que não chovia e a terra estava seca. A única agitação era na Rua da Boa Sorte, uma bifurcação da Rua Quatro logo ao final da subida do lixão: os membros de uma viatura policial acabavam de jogar um tapete enrolado num terreno baldio e seguiam por ruelas desconhecidas.


— Você tem ideia pra onde vai essa rua, Biriba? Eu só conheço um trecho da Favela do Curto-Circuito, a Rua Onze, a Leon Trotsky, a Rua do Ressuscitado, o descidão que leva para a Rua do Tesouro.


— A Rua da Boa Sorte dá uns giros pelo alto do morro, vai por umas quebradas, contorna os fundos do depósito de lixo tóxico e termina nas margens do Rio Tijuco Verde, perto do Corpo de Bombeiros, bifurcando também para a estrada que leva para Orelha de Macaco e Ozimândia.


Em vez de seguir pela Rua Quatro até a Rua Leon Trotsky, Biriba prosseguiu por uma tal de Rua da Corda, jurando para mim que aquele caminho levava à Rua do Ressuscitado. A certa altura, virou para a esquerda, na Rua da Repressão e, finalmente, para a Rua do Ressuscitado, conforme dizia a própria placa de trânsito da subprefeitura do Bairro da Saúde. Só que aquela não era a rua que eu conhecia!


— Biriba, o Mestre José Amaro mora noutra Rua do Ressuscitado. O nome da rua, na verdade, é Rua Quatro. Ou melhor, Ex-Rua Quatro. É difícil de explicar.


— Impossível, Januário! Se ele mora na Rua do Ressuscitado, a rua é esta. Você não está reconhecendo porque é noite.


— Mas eu só venho aqui à noite!


— Pode acreditar em mim, eu conheço Tijuco Verde como a palma da minha mão! Inclusive já vim visitar o mestre várias vezes. Estou meio enrabichado com a filha dele, a Marta, sabe?


Descemos naquela rua homônima e fui sendo puxado pelo Biriba, que insistia estar no lugar correto.


— Você tem notícias da Marta?


— Não muita, por que?


— É que eu pensava que ela tinha sido assassinada.


— Credo, agourento!


Foi o Biriba me chamar de agourento que ouvimos um tiro. Era o Mestre José Amaro, com um revólver em punho, voltado para o alto. Em seguida, um enorme urubu caiu sobre minha cabeça, derrubando-me no chão.


— Me ajudem! — gritei, enojado e atordoado com o impacto. Aquela ave preta enorme jazia sobre a minha cabeça e eu, com repugnância, tentava me livrar dela. A batida tinha sido muito forte. Biriba e o mestre me carregaram para um buraco parecido com aquele onde o meu fiel servo morava.


— Acertei em cheio o peito do urubu — vangloriava-se o mestre. — E, de quebra, ele caiu sobre o corpo do querido doutor Januário. Isso é que é sorte! Depois dessa, o doutor nunca vai ter crise de asma!


Biriba começou a remexer as coisas do velho e logo encontrou o vinil do Beto Guedes.


— Mestre, que preciosidade! A Página do Relâmpago Elétrico, em perfeito estado! Só falta a capa!


Recuperei-me da colisão com o urubu, corri para lavar o rosto e o corpo num tanque no alto, do lado de fora, e voltei em seguida, sem camisa, onde encontrei os dois numa animada discussão sobre tesouros encontrados no lixo.


— Desculpem, mas nada disto aqui faz sentido! Aliás, desde que saí do trabalho tudo ficou louco, a começar pelo cavalo galopando de ré. Mestre José Amaro não mora neste buraco, ele mora em outro canto da favela, não muito melhor do que este, mas diferente. Além disso, o que havia no mocó do Mestre era a capa do LP do Beto Guedes e não o disco!


— Você deve estar me confundindo com o Mestre José Amaro da antiga Rua do Ressuscitado, doutor. É meu irmão, que tem o mesmo nome que eu. Mas cuidado com aquele sujeito! Não é porque fomos paridos do mesmo útero que somos iguais! Aquele sujeito é perigoso, vive arrumando encrenca com os vizinhos manacapuruenses, que ele chama preconceituosamente de manauaras. É um psicopata! Dizem que pegou o cadáver da própria filha para fazer experiências com eletricidade, para fabricar uma criatura como a da Mary Shelley! Eu sou o Mestre José Amaro que o senhor conhece, que pintou e consertou o sobrado da Monsaraz, 48. Fique longe daquela figura nefasta, doutor! Falo isso para o seu bem.


— Tenho um pacto com o seu irmão — protestei. Biriba interveio:


— Não sei que trato é, Januário, mas acho bom tentar desfazer enquanto é tempo. Nem que tenha que recorrer ao Dr. Giorgio Pererec, juiz de nossa comarca.


— Ou ao Profeta Oséias — sugeriu o novo Mestre José Amaro. — Como ele sempre diz na Igreja do Gigante Azul, tudo posso naquele que me fortalece.


Tentei desvencilhar-me dos dois. Aquilo só podia ser uma arapuca. Bem que o Dr. Décio Linhares havia me antecipado: agora eu lidava com a realidade num novo patamar, nada de fantasias, de ingenuidades e de soluções fáceis! O sósia de meu amigo ainda veio com essa:


— Contei para vários amigos de sua capacidade contábil, doutor. Eles ficaram impressionados quando eu disse que o senhor resolveu o problema de minha dívida com rapidez. Um deles mora aqui na comunidade, sabe? Aqui pertinho, na Rua da Corda. Ele também quer regularizar a situação dele. Seu nome é Jamil, mas não sei o sobrenome. Se o doutor puder fazer alguma coisa por ele, será como se fizesse por mim.


— Pode deixar, mestre! — disse Biriba. — Segunda-feira mesmo o Januário vai procurar esse nome na listagem dos inadimplentes de seu bairro. Não deve ter mais do que um Jamil aqui no Morro dos Canudos.


Eu conhecia todos os nomes de cor, em ordem alfabética. Na gaveta 5 dos inadimplentes, a primeira ficha era de um certo Irineu e terminava com Jerônimo. Ao todo, umas quinhentas fichas. O nome mais parecido com Jamil era, evidentemente, Janel – Janel Wislawa, que de fato morava na Rua da Corda, 48 – Altos, como o próprio Dr. Décio Linhares havia destacado.


Eu poderia encarar os fatos que ocorriam naquela noite de duas formas diferentes. Poderia ser uma crise aguda de inflamação do hipocampo que estivesse gerando alucinações de espectro paranoide. Ou então, partindo para a linha de Carl Gustav Jung, aquilo tudo não passava de pura sincronicidade. Nada havia de surpreendente no fato de haver duas Ruas do Ressuscitado ou dois Mestres Amaros. Biriba conhecia a minha vida funcional e era muito bem relacionado por toda a cidade. Poderia, se quisesse, até tornar-se um vereador. Distraído como sou, posso muito bem ter fechado o acordo com este Mestre José Amaro que, casualmente, estaria naquele dia na casa de seu irmão com veleidades de Dr. Frankenstein.


Décio Linhares designar-me para a missão Janel Wislawa poucas horas antes de Mestre José Amaro n. 2 sugerir a cobrança de débitos de Jamil (rectius, Janel) não passava de uma feliz coincidência. Afinal, eu haveria de agradar ao meu chefe e também de obter dividendos com a ampliação do meu leque de devedores selecionados.


— E a Marta? — perguntei à queima-roupa. — Está aqui?


— A Marta minha sobrinha? Não soube que ela foi executada pelo pessoal da segurança do Shopping Center Luxúria?


Desta vez o espanto veio de Biriba:


— Marta é sua sobrinha? Não é sua filha?! E está morta?


— Grande novidade! Vocês ricaços vivem em outro mundo — disse o velho. — Pois se estou dizendo que meu irmão está fazendo experiências bioeletrônicas com o cadáver da filha!


— Mas a Marta e eu iriamos começar a namorar!


Biriba caiu num choro convulsivo tão intenso que acabou estragando a madrugada. Eu mesmo fui pilotando a F-100 de volta para a Travessa Monsaraz. Não conseguiria fazer mais nada. Aliás, diante daquela situação caótica de reversão da seta do tempo em eventos religiosos, duplicação de mestres e de ruas, o melhor que poderia fazer mesmo seria encerrar este capítulo e começar um novo dia.

 

Mundo Paralelo é o 31º capítulo do romance A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.

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