• Guilherme Purvin

30 - Janel Wislawa

Atualizado: 5 de out.



- Guilherme Purvin -


Ao final do expediente daquele mesmo dia, Décio Linhares chamou-me para um café diante do relógio de ponto. Almir e o Sr. Geraldo quiseram ficar, mas foram prontamente dispensados (diria escorraçados). Como a garrafa térmica já estava quase no fim, o café restante estava frio e azedo. Mesmo assim, serviu para uma boca de pito. Num rasgo inesperado de generosidade, o chefe ofereceu-me um cigarro.


— Você pode ficar alguns minutos após o expediente, meu janota funcionário, em elegante vestuário? — perguntou-me ele, utilizando de forma muito lisonjeira as rimas de meu nome, como nunca havia feito.


Eu disse que sim, que estava sempre à disposição de DDSE. Meu único compromisso nos últimos tempos era com o Mestre José Amaro, que sempre me esperava em seu buraco na Rua do Ressuscitado para uma partida de dominó e uma bagaceira. No entanto, fazia uma semana que ele começara a trabalhar como leão-de-chácara do Calendas Bar e, provavelmente, não estaria em seu buraco antes da meia noite. A bem da verdade, como se tratava de um servo fiel, eu não precisava me preocupar em avisá-lo que iria atrasar ou mesmo que faltaria ao joguinho. Estava até mesmo um tanto aborrecido pela falta de empenho do mestre em indicar-me outros inadimplentes. Às vezes encafifava com o sumiço da Marta que, para mim, era aquela figurinha em quem eu tropeçara há umas semanas, Enfim, tudo indicava que Mestre José Amaro era um verdadeiro misantropo e que sua vida se resumia em falar mal dos vizinhos manacapuruenses a quem ele indevidamente denominava de manauaras.


— Januário, meu dileto salafrário, você sabe que não sou nenhum otário. Saiba que não passou despercebido aquele ingresso de numerário surgido inesperadamente de um usuário que mora no subsolo dos fundos de um barraco na Favela do Curto Circuito. Fui imediatamente atrás da identificação do estabelecimento bancário que teria recebido o dinheiro e, como eu desconfiava, era a agência da Rua da Ameaça, a quilômetros de distância da falsa Rua Quatro, verdadeira Rua do Ressuscitado. E, surpresa! A um quarteirão do lugar onde você agora está morando depois que sua casa ruiu. Coincidência? Não! Também reparei nos tipos da máquina de datilografar utilizada para o preenchimento da guia. Curiosamente, com as mesmas características da máquina na sua mesa de trabalho: a letra “m” meio torta, a letra “p” com as serifas de seu pé desgastadas. E, para que não houvesse margem de dúvida, com toda a parte inferior levemente marcada pela banda vermelha da fita da máquina. Não tenho dúvidas: quem efetuou esse pagamento foi você.


— Eu posso explicar, Dr. Décio! Fiz tudo em prol do saneamento das contas públicas, eu juro!


— Não é para mim que você terá que se justificar, Januário. Só sei que você não é nenhum perdulário que sairia por aí gastando seu minguado salário para livrar a cara de algum proletário incapacitado de pagar uns míseros cruzados de taxa de esgoto. Há em sua atitude tresloucada uma intenção oculta, não sei se você está de olho em meu cargo ou se esse sujeito é algum comparsa seu ligado ao narcotráfico ou à máfia do lixo urbano ou dos transportes clandestinos.


— Não tenho nenhuma ligação com narcotráfico, doutor!!


— Não tem mesmo, seu salafrário? Circula à boca pequena por toda cidade uma certa tara sua por supositórios veterinários!


Eu tremia da cabeça aos pés. Que ideia estúpida havia sido aquela de buscar o reconhecimento profissional a partir de dados contábeis? Por que eu não prestei concurso para o Banco do Brasil? Com um pouco de esforço, eu conseguiria certamente ser um dos mil selecionados para trabalhar num dos cargos públicos mais cobiçados do país. Teria tido a chance de conhecer outras cidades, até mesmo de deixar o meu estado e ir viver num lugar progressista como Goiás, Santa Catarina, Roraima! Mas não, havia crescido em Tijuco Verde, onde eu jamais teria condições de me mudar para um bairro nobre como Vila Portuguesa. Foi quando eu me rebaixei de uma forma que jamais pensei que um dia poderia fazer. Comecei a chorar convulsivamente e a pedir perdão ao Dr. Décio por haver cheirado aquelas bolinhas com solvente na adolescência e por haver efetuado o pagamento do débito do Mestre José Amaro.


Décio Linhares mandou que eu lambesse a sola de seus sapatos e eu obedeci prontamente. Aí ele disse:


— Mandei em sentido figurado, seu dromedário! Na prática, você terá que ser agora meu servo fiel, haverá de fazer tudo o que eu mandar, sem questionar jamais. Só assim você terá o meu silêncio condescendente. Aceita o trato?


— E tem outro jeito? Sim, Dr. Décio, é claro que aceito!


— Pois bem, Januário. Tenho planos para você. A partir de agora você será promovido a meu substituto na grade da chefia, mas para tanto precisamos dar um jeito no Sr. Geraldo, que é legalmente o meu substituto. Ele não passa de um paspalho e não tem condições de acompanhar os voos condoreiros que doravante pretendo alçar com a sua ajuda nos bastidores.


Décio Linhares apanhou uma ficha de usuário inadimplente e a entregou para mim.


— Quero em primeiro lugar que você faça com a pessoa indicada nesta ficha o mesmo que fez com o seu cliente José Amaro. Trate-a com gentileza, entendeu? É uma peça chave nos meus planos de ascensão profissional. O Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata em breve será o prefeito de nossa cidade. Quando isso acontecer, quero ter certeza absoluta de que serei o nome indicado para comandar todo o Serviço Municipal de Esgoto, inclusive a Procuradoria Geral, o Serviço de Inspeção de Manilhas e Tubulações e, óbvio, nosso DDSE.


— O senhor usou o artigo definido masculino.


— Pouco importa, Januário. Coloque isso na cabeça, agora nós dois falamos num outro nível de relacionamento, isso de artigos definidos só serve para massacrar psicologicamente os subordinados.


Abri a ficha e encontrei o nome de JANEL WISLAWA. O nome não me era estranho. Já tinha ouvido falar dele e não fazia muito tempo. Lembrei-me então da conversa que tive com o motorista do lotação, o cover de Bob Dylan, fã do pessoal do Clube da Esquina. Janel Wislawa, a mulher que se sentara ao meu lado na Kombi, a misteriosa feiticeira que havia ressuscitado meu amigo Melquíades Belafonte! Ainda ecoavam em meus ouvidos as palavras de Bobbio Dylan: “Com Janel Wislawa aqui ao nosso lado, ninguém morre”.


— Deixa ver se eu entendi, Dr. Décio. Minha missão é fazer com que essa pessoa salde seu débito de esgoto?


— Claro que não, Januário com QI de protozoário! Sua missão é tornar-se amigo íntimo daquela mulher. A dívida do serviço de esgoto pode deixar comigo, se você quiser impressioná-la. O importante é que ela venha a trabalhar para mim. Janel Wislawa tem o poder de ressuscitar as pessoas, mas também o de destruir completamente a vida de quem a desagradar. Tudo à distância – isso é que é bom. Sem deixar rastros. Algo muito mais sofisticado do que simplesmente recorrer aos serviços da empresa T.C.Tattoo ou da Auto Iscola Aimoré, que já sei que você conhece muito bem!


— Pode deixar, Dr. Décio. O senhor não vai se decepcionar comigo. Há mais alguma coisa que eu possa fazer pelo senhor?


— Sim. Vamos descer agora para a rua e quero que você vá para a farmácia e compre estas coisas que a minha esposa Glaisy pediu para eu levar para casa.


— Absorvente feminino e pílula anticoncepcional, doutor?


— Sim. Eu não vou pagar esse mico. Diga à balconista: “Não é para mim, viu? É para a minha mãe”.


— Minha mãe, doutor? Seria uma heresia! Minha mãe não usa essas coisas! É uma mulher de respeito! Meu pai está viajando há meses, ela não ficaria usando anticoncepcional assim!


— Então diga que é para a sua namorada, oras.


— Namorada? Que namorada?


— Você deve ter namorada, não? Aquela balconista da padaria.


— Fernanda? Ela me trocou pela percussão.


— Vire-se, Januário. Não me importune com seu fracasso sexual. Amanhã nos falaremos. Mas não deixe que ninguém fique sabendo deste trato. Caso contrário, Januário, seus crimes serão denunciados ao promotor. E você sabe que o Dr. Giorgio Pererec chancela tudo o que vem do Ministério Público. Será masmorra na certa!

 

Janel Wislawa é o 30º capítulo do romance A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.

 

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