• Guilherme Purvin

GEOGRAFIA URBANA

Guilherme Purvin - gpurvin@gmail.com



A Igreja do Gigante Azul (versão 3.0)


Capítulo I

Geografia Urbana



01. A história que você vai ler a seguir tem início no dia 26 de abril de 1986 e vai até 13 de setembro de 1987. As datas não são aleatórias: ela começa com o acidente nuclear em Tchernóbil, na Ucrânia, e termina com o acidente radioativo em Goiânia. Apesar disso, não se encontrará aqui nada que possa, ainda que remotamente, dizer respeito a essas duas tragédias humanas e ambientais. Nem o autor ousaria brincar com esse tema, comoventemente trabalhado por Svetlana Aleksiévitch. O que você encontrará neste livro será o relato de um certo Januário Ladeira, jovem de 29 anos residente numa cidadezinha chamada Tijuco Verde, que tanto pode estar situada em Minas Gerais como no Paraná ou em Alagoas. Certeza mesmo, só temos que Tijuco Verde não se situa na Região Norte do Brasil, sendo pouco provável também que esteja no Centro-Oeste.


02. Tijuco Verde não é muito diferente de outras cidades próximas, como Angico Preto, Sabão de Soldado, Ozimândia, Jerivá, Farinha Seca ou Orelha de Macaco. Não é muito diferente, mas tem algumas características: não tem praia como Orelha de Macaco nem estação de trem como Angico Preto e Farinha Seca; em compensação, tem hoje faculdade, favela, sistema de captação de esgoto, igrejas e é ali que mora o Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata, mais poderosa autoridade política num raio de 300 quilômetros de sua residência.


03. A cidade, que à época em que transcorre esta história, contava com aproximadamente vinte mil habitantes, divide-se basicamente em quatro áreas distintas: Bairro da Saúde, Vila Portuguesa, Vila Aimoré e Centro.


04. O bairro mais extenso é o da Saúde. Dele faz parte o Morro dos Canudos, que ocupa extensa área ao nordeste do município. Ali fica a favela do Curto-Circuito, onde vivem as pessoas que precisam trabalhar mais para comer menos que os outros. O morro está situado na margem direita do Rio Tijuco Verde, área distante das inundações e com uma vista privilegiada de praticamente toda a cidade. Poderia ali ter sido construído um condomínio de luxo, mas, por razões secretas, há anos decidiram instalar ali uma profusão de torres de alta tensão, com a finalidade de se impedir a ocupação. Ocorre que o espaço perdeu seu valor imobiliário, dando lugar a uma ocupação irregular.


05. À direita do Córrego da Ratazana, afluente do rio que dá nome à cidade, fica a zona popularmente chamada de “vila dos duendes”. É ali, num lugar chamado Rua da Lama, que morava Januário ao início deste relato, com seus pais e seu irmão César. Na esquina da Rua da Lama com a Avenida Elias da Mata (que margeia o Córrego da Ratazana) acha-se instalada a Padaria Santa Cecília, onde o famoso chapeiro Melquíades Belafonte.


06. O Córrego da Ratazana, no meio da Avenida Elias da Mata, é também chamado de “linha da miséria”. De um lado ficam as ruas dos duendes: da Lama, Paulo Borges, da Pomada e Mariana Garcia Torres. É a área mais insalubre e degradada do Bairro da Saúde, mas seus moradores orgulham-se por não serem favelados, já que o traçado das ruas foi planejado urbanisticamente. Todas elas começam na Avenida Elias da Mata, são cruzadas pela Rua Vladimir Garcia Magalhães e terminam no matagal que margeia o Rio Tijuco Verde, exceto a Mariana Garcia Torres, que termina no asfalto da Avenida do Progresso, diante do Depósito de Lixo Orgânico.


07. Aquém da linha da miséria ficam as ruas dos ex-integrantes da Classe D, que trabalharam bastante, guardaram seu dinheiro em cadernetas de poupança e finalmente ascenderam à Classe C na escala econômica da sociedade tijucoverdense. Esse é o lado esquerdo do Córrego da Ratazana, zona menos degradada do Bairro da Saúde e formado por apenas quatro ruas, todas começando na Av. Elias da Mata e terminando na Av. Coimbra: George Harrison, Caito Gomide e Alfa, além do lado chique da Mariana Garcia Torres.


08. Ao atravessarmos para o outro lado da Avenida Coimbra, a geografia urbana muda completamente. Na verdade, o lado direito dessa avenida é um imenso muro, conhecido como Muralha dos Templários – Face Leste. Esse paredão destina-se a proteger os moradores da Vila Portuguesa do assalto dos seus vizinhos do Bairro da Saúde. Vila Portuguesa é o nome do condomínio residencial de luxo onde mora o Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata e mais alguns poucos (bem poucos) tijucoverdenses. Mente, porém, quem disser que a Muralha dos Templários é um símbolo elitista. Na verdade, ela rodeia indistintamente todo o condomínio, isolando-o não só dos moradores do Bairro da Saúde, mas também dos da Vila Aimoré e dos do Centro. Trata-se de uma inviolável construção, resistente aos mais ousados ataques dos amigos do alheio, abraçando amplas residências com piscina olímpica e garagem para até doze automóveis blindados. Embora ocupe uma área equivalente a todo o Bairro da Saúde, seus moradores, conscientes dos riscos que a procriação em massa de seres humanos pode causar ao meio ambiente, não correspondem a mais do que 1% da população da cidade.


09. Fora do confinamento do condomínio, bem na esquina da Avenida Coimbra com a Rua Viana do Castelo, fica a Organização Contábil e Imobiliária Duas Pátrias S/C Ltda., de propriedade do Sr. João Cabral, ex-empregador de Januário Ladeira. Não há um consenso acerca da exata denominação dessa região, se ainda integra a Vila Portuguesa, embora extramuros, ou o Centro da cidade. Idêntica é a polêmica relativa a outros logradouros ao redor da muralha, como o trecho final da Rua Évora, a Rua da Ameaça e até mesmo a Travessa Monsaraz. Deixemos, porém, essa discussão para os corretores de imóveis e avancemos neste relato geográfico que já se torna por demais extenso. Da região central, o que podemos asseverar é que ali estão a Igreja de Santa Cecília (não confundir com a padaria homônima), na esquina da Sousândrade com a Guimarães Rosa, o Shopping Center Luxúria e os principais órgãos da prefeitura da cidade, dentre eles o Serviço Municipal de Esgoto, situado na Avenida Pero Vaz de Caminha e onde trabalha Januário Ladeira.


10. Por fim, convém não esquecer da Vila Aimoré, um bairro de certa forma independente do resto da cidade, cuja única via de acesso é a Avenida Pero Vaz de Caminha (na verdade, também se chega ao bairro por uma estreita ruela que atravessa a Biblioteca Municipal de Tijuco Verde. Se a Vila Aimoré integra administrativamente a jurisdição do município? Tecnicamente sim. Na prática, é um reduto controlado inteiramente por Benedito Montana, empresário no ramo dos transportes. O bairro não conta com escolas, teatros ou cinema. Nesse cantinho isolado a oeste de Tijuco Verde, porém, seus moradores vivem a paz dos cemitérios, não oferecendo nenhuma oposição ao modo de vida estabelecido pelo seu líder. E chega de geografia por hoje.


27/7/2022

 

Capítulo I - Geografia Urbana, abertura de uma nova versão do romance "A Igreja do Gigante Azul", é dedicado ao professor e amigo Júlio César Suzuki. Guilherme Purvin, graduado em Letras e Direito pela USP, é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros romances infanto-senis.

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