• Guilherme Purvin

29 – Normalizando a nomenclatura

Atualizado: 5 de out.



- Guilherme Purvin -


Preciso falar sobre a repercussão causada pelo pagamento da dívida do Mestre José Amaro. Só o fato de o haver livrado das malhas da procuradoria e da vexatória cobrança da dívida ativa em juízo fez dele uma nova pessoa. O homem já não se preocupava com o paradeiro de sua filha Marta e da última vez em que nos reunimos para beber cachaça e jogar conversa fora ele até cogitou da possibilidade da menina ter se enrabichado com o meu pai, que também estava sumido. Se isso fosse verdade, ele dizia, em breve eu me tornaria uma espécie de neto dele, já que sua filha geraria irmãos meus. Sem pretender, eu havia conquistado um servo fidelíssimo que poderia utilizar a qualquer instante e eu só precisava conseguir levá-lo para morar no vão da escada da Monsaraz, 43, para que a vida dele e também a minha fossem perfeitas.


No DDSE, porém, o ingresso do dinheiro não gerou dividendo algum. Ao exibir ao Dr. Décio Linhares a guia de recolhimento da dívida de José Amaro, ele fez um muxoxo de tédio e perguntou-me se em minha casa eu recebia lista telefônica por nome de assinante e por endereço, pois onde ele morava só estavam entregando as páginas amarelas. A minha vida ali dentro resumia-se a bater o cartão de ponto e, não fosse pelas conversas na favela com o Mestre, eu me sentiria um verdadeiro zumbi. Alimentava as esperanças de levá-lo para morar comigo, mas para isso ele precisaria incrementar a seleção de devedores especiais. Prometi a ele que iria preparar uma relação de todos os inadimplentes moradores do Morro dos Canudos. Embora ele não fosse de muito falar, decerto haveria de conhecer alguém. Se meu nome passasse a correr de boca em boca, tinha certeza de que logo se formariam filas e filas de interessados em saldar seus débitos para com o Serviço Municipal de Esgoto. Meu trabalho voluntário chegaria aos ouvidos do Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata e então a carreira estaria consagrada.


No DDSE, Décio Linhares resolveu investir na normalização de nomenclatura. Convocou toda a equipe para uma reunião emergencial. Estáticos, aguardamos a pauta. Dr. Linhares respirou fundo, ajeitou-se sobre as listas telefônicas em sua cadeira e, didaticamente, perguntou ao seu substituto imediato na chefia:


— Sr. Geraldo, diga-me uma coisa: quando o senhor menciona o nosso local de trabalho, de que forma se refere a ele?


— Refiro-me com todo o respeito — respondeu prontamente o servidor, dando um discreto tapinha numa mosca invisível à sua frente.


— Sim, sim, com todo respeito, claro. Mas quero saber de que forma. Diz o nome inteiro desta repartição ou prefere, carinhosamente, utilizar-se da sigla DDSE?


O Sr. Geraldo coçou a cabeça, preocupado em saber qual seria a resposta correta. Em seguida, apanhou um lenço do bolso de seu paletó, lustrou seus óculos e respondeu cautelosamente:


— Em situações oficiais, uso o nome inteiro de nossa repartição. No aconchego do lar, prefiro o modo carinhoso.


— E qual é o modo carinhoso, Sr. Geraldo? — insistiu o Dr. Linhares.


— SDSE, Dr. Linhares.


— SDSE? Mas agora somos DDSE!


— Eu sei disso, mas na intimidade de minha casa, eu ainda me refiro a ela do jeitinho que a conheci. Para mim será sempre SDSE.


— E por que se refere a “ela” e não a “ele”? Afinal, era um “setor” de dívida e não uma “secretaria” ou algo que o valha.


O Sr. Geraldo, ansioso, teve um acesso de mosquitos invisíveis que o impediu de justificar-se. Impaciente, o chefe voltou-se a mim.


— Januário, meu funcionário cumpridor do horário, hehe, diga-me, você se referia antigamente à SDSE ou ao SDSE?


Comecei a achar aquela reunião meio idiota. Poderíamos estar falando do ingresso de receita vindo de um devedor inadimplente há anos, mas estávamos ali, com aquela baboseira de artigos definidos masculinos e femininos. Respondi sem pensar muito:


— Eu falava “a SDSE”, pensava que era uma Seção de Dívida do Serviço de Esgoto. Depois passei a falar “o SDSE”, quando soube que era o Setor de Dívida.


Esfregando as mãos com satisfação, Dr. Linhares sorriu e fez a mesma pergunta ao Sr. Almir, que por sua vez respondeu:


— Eu sempre falei “o SDSE”. Sempre soube que este era o Setor de Dívida, portanto, masculino!


— Magnífico, Almir. Então, voltando ao Sr. Geraldo, diante de tudo o que foi exposto até aqui, o senhor pode nos responder qual era o artigo correto que deveria ter sido sempre utilizado quando ainda éramos SDSE? O ou A?


O Sr. Geraldo, bordô, começou a dar tapas em seu próprio rosto, buscando atingir o enxame de moscas invisíveis. Percebendo que o servidor estava prestes a ter um ataque de nervos, o Dr. Décio teve o bom senso de não agravar a crise:


— O Sr. Geraldo teve o bom senso de não responder. Ou melhor, ele respondeu com um significativo silêncio. Em primeiro lugar, cumpre destacar que sempre houve uma grande divergência no serviço de Esgoto a respeito da denominação correta de nosso órgão. Encontrávamos, às vezes, em publicações oficiais da mesma semana n’O Comercio alusões a “Setor de Dívida” e a “Seção de Dívida”.


Nesse ponto, o Sr. Geraldo voltou a respirar. O Dr. Linhares prosseguiu:


— Mas isto são águas passadas. Hoje somos DDSE, como todos sabem. Departamento de Dívidas? Sim, com certeza! Mas por vezes o jornal publica por engano “Divisão de Dívidas”. Quantas vezes esse erro precisa se repetir para tornar-se um acerto? Será que o erro não estava na datilografia do decreto? E quem há de comprovar que o decreto dizia mesmo “Departamento” e não “Divisão”? Alguém guarda consigo recortes de jornal velho? A solução é simples! Digam-me, que artigo definido antecede a palavra DEUS? É o Deus ou a Deus?


— É o Deus, claro! — antecipou-se Almir.


— Errado! Errado! — vociferou o Dr. Linhares. — É apenas Deus, sem artigo definido na frente! E é assim que será com DDSE! Doravante, ninguém deve dizer “o DDSE” ou “a DDSE”. Se perguntarem onde trabalham, respondam simplesmente: “Trabalho em DDSE”. Simples assim! Eu acredito em Deus e trabalho em DDSE. Não tem erro!


O Sr. Almir aplaudiu de pé a nova ordem de serviço. Tentei retomar a questão relativa à guia de depósito do Mestre José Amaro, mas aí chegou a dona Gleisy e o Dr. Linhares correu para recebê-la condignamente, seja lá o que signifique este advérbio.


Dizem que a pata bota tanto ovo quanto a galinha, mas ninguém fala em ovo de pata porque ela não cacareja. Eu estava decidido a cacarejar aquela cobrança bem sucedida. Mas como fazê-lo, se toda a minha atividade era clandestina? Se alguém soubesse que eu havia um dia retirado um documento público de dentro de DDSE e saído em busca do devedor para cobrá-lo, poderia ser acusado de uma série de crimes inomináveis. De nada adiantaria justificar-me dizendo que fazia tudo pelo saneamento das contas públicas. Imediatamente pensariam que eu havia cometido abuso de autoridade, excesso de exação e constrangimento ilegal, isso se não acabassem também me acusando de corrupção ativa durante as investigações, caso soubessem que havia recebido serviço completo de reforma e pintura na casa onde agora morava e, de quebra, a servidão voluntária de um homem simples do povo. Não, precisava afastar aquele pessimismo todo, aquela paranoia. Pensamento positivo! Prosperidade atóxica! Mentalizei uma luz verde iluminando meu corpo todo. Tudo haveria de dar certo. Mestre José Amaro traria para mim mais devedores, eu me tornaria uma lenda viva no funcionalismo público municipal, passaria a ganhar o dobro, traria os maiores nomes do rock para abrilhantarem o meu álbum conceitual. Não precisava do batuque da Fernanda nem da gaita do Benedito Montana.

 

Normalizando a nomenclatura é o 29º capítulo do romance A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.

 

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