• Guilherme Purvin

28 – Uma cachacinha e uma prosa underground

Atualizado: 5 de out.

- Guilherme Purvin -

Sábado, dia 14 de março de 1987, passei novamente na Favela do Curto-Circuito, para acertar com o Mestre José Amaro os detalhes de nosso pacto. O sobrado da Monsaraz, 43, havia ficado um brinco. No entanto, o velho estava acabrunhado, sem dinheiro e seriamente desconfiado de que sua filha Marta havia morrido.


— Deve ter sido aquele corpo que o doutor encontrou no descidão, sabe? E estou achando que quem matou ela foi esse bando de manauaras.


Mestre José Amaro podia parecer preconceituoso e machista, mas isso porque era de uma outra geração, dos tempos do Tenentismo. Ele precisava de um apoio moral, por isso apareci lá em seu buraco sem avisar. Era como se ele estivesse sempre esperando de mim alguma boa notícia. Eu havia falado a seu respeito à Andréa e ela até ficou de ver se conseguia pra ele um empreguinho de vigia no Calendas Bar, na Rua Dona Chiquinha. Contei a ele da possibilidade desse novo emprego.


— Mestre, se tudo der certo, em breve o senhor vai desencanar dessa sua filha solteirona que só lhe dá desgosto. Já se imaginou fazendo a segurança de um bar de estudantes universitários, com o poder de descer sopapo em bêbado e chamar a polícia nos casos de algum grupinho se meter a dar um pindura?


Não que eu fosse um sujeito violento, o que eu fazia era tentar me comunicar com ele numa linguagem que ele conhecesse. E os olhos dele, de fato, brilharam ao ficar sabendo da possibilidade de vir a tornar-se uma verdadeira autoridade em Tijuco Verde. Em contrapartida, tudo o que ele precisaria fazer para mim era indicar os nomes de outros moradores da favela que estivessem inadimplentes com o serviço municipal de esgoto. Ele abriu uma pinga e ficamos jogando conversa fora até as duas da madrugada. De Marta, nem sinal, o que me levava a crer que era bem possível que ele estivesse certo em sua suposição. Só não sabia como é que ninguém havia falado do aparecimento de um corpo, nem na comunidade nem na seção policial do jornal O Comércio. Era bem verdade que o jornal não tinha essa seção, mas era de se esperar que esse tipo de notícia rendesse uma primeira página numa cidade onde nada acontecia. O jornal estava dobrado na mesa, servindo de toalha e a única notícia local dizia respeito ao projeto de ampliação dos depósitos de lixo orgânico e tóxico do final da Avenida do Progresso. A Prefeitura Municipal havia acolhido uma proposta do Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata de abrir as nossas fronteiras para receber os resíduos sólidos de toda região – Orelha de Macaco, Jerivá, Angico Preto, Ozimândia e até mais além, por que não Sabão de Soldado e Farinha Seca? A exemplo de Nova York, que tinha na Estátua da Liberdade um símbolo do acolhimento de outros povos, Tijuco Verde poderia erguer um monumento que simbolizasse nossa vocação para o acolhimento de toda espécie de lixo de nossas cidades irmãs.


Mestre José Amaro, no entanto, continuava meio acabrunhado. Estava na cara que ele estava descontente com os vizinhos manauaras e queria, talvez, mudar-se para o meu sobrado que havia ficado tão bonito a ponto de despertar a cobiça da própria locadora, dona Sara Queneau. Eu só não me arriscava a sublocar um aposento porque sabia que ele rapidamente sentiria falta da agitação na Favela do Curto Circuito.


— Se a Marta morreu, quero saber onde ficou o corpo de minha filha, entende, doutor? Tenho esse direito, não tenho?


— Deve ter, né? Mas quem iria matar a moça? Acho difícil.


— A última vez que eu vi ela foi quando ela disse que ia no Shopping Center Luxúria. Eu até disse para a menina: não vai se misturar com gente rica, filha. Eles podem achar que você é ladrona. O doutor acha que podem ter executado a minha menina porque ela estava mal vestida?


Para demonstrar solidariedade com a sua tristeza, comentei que eu também não estava feliz.


— Cada um com seus problemas, não é? Comigo, por exemplo, a vida também não vai bem. A prefeitura disse que só vai dar gatilho salarial se a inflação mensal ultrapassar 30%. Enquanto isso, o salário vai diminuindo. Eu estava quase ficando noivo da Fernanda, que trabalha de caixa na padaria Santa Cecília, mas ela me trocou por instrumentos de percussão – caixa, surdo, atabaque, tumbadora.


— Olho vivo, doutor Januário! — disse o mestre, sobressaltado. — Perdi a minha mulher assim. A desnaturada deixou minha filha Marta e foi se enrabichar com outro macho. Tive que ficar tomando conta daquele encosto que já nem sei se é minha filha legítima mesmo. A menina sente falta da mãe e é daquele jeito, louca.


— Imagine, mestre. Ela não é louca, é só tímida. E, se tiver morrido, o problema acabou. A sua sorte é que o senhor é um trabalhador autônomo, se quiser, pode ficar rico. Só depende de seu esforço, não tem que depender de um disparo de gatilho salarial.


— Bah, essa é a minha cruz. Minha vida é isso o que o senhor vê. Faço esses bicos, pintura, reforma. Gosto da ideia de trabalhar de segurança de bar de filhinho de papai de madrugada, tomara que dê certo. Preciso descarregar minhas frustrações no cangote de algum folgado mesmo, descer o sarrafo. De qualquer forma, o doutor pode entrar em greve se quiser reajuste de salário.


— Greve não é assim, Mestre. O Presidente Sarney já avisou para distraídos e oportunistas não confundirem prudência com desprezo e lembrou que greve deve ser sempre um recurso final. O Serviço de Esgoto entra em greve e aí vem o Exército e ocupa tudo, como fez nas refinarias de petróleo. Sua vida está melhorando. Veja só, a partir de agora o senhor não vai mais figurar no rol de devedores inadimplentes do serviço de esgoto. Agora sua vida será só ascensão.


— Seria ascensão se eu pudesse ir morar com o senhor. Juro, eu seria tão grato que aceitaria fazer tudo pelo senhor, a qualquer hora do dia ou da noite, dentro ou fora da lei e da moral. Quase não durmo por causa do sumiço dessa menina. No fundo, ela é caseira, limpinha, não tem doença venérea. Só o que me azucrinava era o choro escondido dela pelos cantos, a falta de interesse em namorar. O senhor acha minha filha feia?


— De jeito nenhum, Mestre. É toda jeitosinha, com o devido respeito. Se ela estiver viva, quem sabe ela venha a trabalhar comigo lá no Serviço de Esgoto? Tem as moças da faxina, que não precisam de concurso.


— Se a sugestão viesse de outra pessoa, eu até me ofenderia. Quero coisa melhor para a minha filha, doutor, não quero a menina limpando privada com merda e mijo de funcionário público.


— Não foi isso o que eu quis dizer, me desculpe. Só pensei que ela poderia ampliar seu círculo social. Sabe que círculo social é o que existe de mais importante para a gente vencer na vida, não é? Conhecer pessoas! O Melquíades, por exemplo, é um chapeiro de padaria, mas tem relacionamentos! Mais de quinhentos! É isso que faz dele um homem do mundo, como se diz.


— Conhecer quem? Quer que minha filha vire uma puta como aquela mãe dela? Não, doutor, prefiro que ela fique aqui mesmo no subsolo dos fundos de um barraco na Rua do Ressuscitado. Ou que esteja morta.


— Não seja machista, Mestre. Hoje em dia as mulheres trabalham fora, sem nenhum problema. Elas ajudam em casa. Veja a minha namorada, se é que ainda é minha namorada, ela trabalha de caixa na padaria, ganha o mesmo que eu. É injusto, porque eu trabalho numa área estratégica do governo, lido com bactérias, combato helmintos. Mas tirando isso, é muito bom, porque se um dia a gente se casar, vamos ter um pouco de tranquilidade financeira.


— Pois é exatamente isso o que estou dizendo! Mulher que trabalha fora dá nisso, humilha o homem, faz qualquer trabalhinho mas ganha bem porque oferece certos favores... Por isso que eu digo, fique de olho com essa história dos bumbos e atabaques, pra não sair ouvindo depois o choro da cuíca.


O velho estava se excedendo. Decerto era efeito da pinga. Eu não havia lhe dado essas liberdades para ele falar desse jeito de Fernanda. Estava apenas aborrecido com o fato dela haver se envolvido tanto com o estudo do ritmo, que é apenas um dos aspectos da música, em detrimento da melodia e da harmonia. Tentei mudar de assunto:


— Meu interesse é prosseguir em meu projeto de saneamento contábil. Preciso que o senhor me indique mais inadimplentes do serviço de esgoto dispostos a quitar a dívida.

Mas, àquela altura, Mestre José Amaro já estava caindo de bêbado. Deixei-o dormir e, antes de sair, revirei sua casa. Encontrei um LP do Beto Guedes, A Página do Relâmpago Elétrico. Se eu fosse desonesto, poderia facilmente leva-lo para cima sem que ninguém percebesse. Não o levei pois, além de ser uma pessoa íntegra, ao manipular o álbum, notei que ali estava apenas a capa, o vinil estava em algum outro lugar. Além disso, nada tirava da minha cabeça que Marta estivesse ainda viva e de repente entrasse naquele buraco e me flagrasse surrupiando o LP. Subi as escadas pé ante pé, caminhei pelas ruelas tortuosas da favela que já começava a conhecer bem, rumo ao descidão, depois era só pegar a Rua do Tesouro, a Pero Vaz de Caminha e a Rua Évora para chegar ao meu cantinho na Monsaraz.


Entrei no sobrado. Me pus a pensar onde eu estaria naquele momento se cada ideia ou sensação que tive ao longo da minha vida e que, invariavelmente, acabava sendo esquecida, tivesse sido registrada e, quem sabe, se tornasse móvel de alguma atividade transformadora. Eu precisava anotar o efeito que estas sensações em meu hipocampo inflamado produziam em minha mente. Por exemplo, no quintal que levava ao buraco do Mestre José Amaro havia um espaço de uns três metros de terra onde ele poderia, se fosse caprichoso, plantar uns feijões. Acontece que dali era também possível ver as moças de shortinho de lycra amarela rebolando na casa dos manauaras, o que devia dificultar o cultivo de cereais.


Muitas vezes, quando eu voltava do DDSE por volta das oito da noite, entrava no banho e ouvia a delicada e aleatória melodia produzida pela reverberação da água correndo pelas tubulações ou os pingos do chuveiro caindo no piso. Ficava pensando numa forma de registrar esses sons tão suaves e quase imperceptíveis que se perderiam para sempre naquele espaço e naquele intervalo de tempo. Enquanto o ruído dos pássaros se misturava ao som da água, eu compunha mentalmente novas faixas de minha ópera rock. Minúsculos instrumentos musicais, flautas, fagotes e oboés na transição da faixa “As Bactérias de Orion” para “O Ataque das Aves”. Um feérico concerto para instrumentos de sopro e orquestra que gradativamente se transformava numa algazarra de gansos, patos e marrecos grasnando. Participação especial de Richard Wright e Roger Waters, para que não viessem dizer que eu havia plagiado Several species of small furry Animals gathered together in a Cave and grooving with a Pict. Tratava-se de uma simples citação. Uma homenagem ao Pink Floyd. Mestre José Amaro, envolto em suas angústias e incertezas diante da morte de sua filha, por mais desprezível que fosse sua vida, era alguém que estava me ajudando na construção da Igreja do Gigante Azul.


 

Uma cachacinha e uma prosa underground é o 28º capítulo do romance A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.

 

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