• Guilherme Purvin

27 - Carnaval

- Guilherme Purvin -



À tarde fui para a casa da Fernanda, mas o lugar estava intransitável, com lama até os joelhos. Passei na Organização Contábil e Imobiliária Duas Pátrias e encontrei-a ao lado de minha mãe e daquela ex-colega de trabalho tcheca, a Lina Smrz. Haviam dormido sobre as caixas de arquivo morto do escritório e agora faziam a faxina em retribuição à pernoite. Entusiasmado, dei a notícia do dia:


— Vocês não vão acreditar, mas acabo de conversar com o Bobbio Dylan!


Elas, contudo, pareciam estar ressentidas comigo. Mal olharam para mim, continuaram a varrer e a passar flanela nas mesas e estantes. Fernanda foi que quebrou o gelo. Puxou-me para um lado e disse:


— Esperávamos que você nos chamasse para passar a noite no seu sobrado.


— Você está doida? A dona Sara Queneau me matava! Além disso, nem somos casados! E duvido muito que você queira se casar comigo, já que agora só pensa em batucar.


— Você sabia que uma das casas da Rua da Lama ruiu? Daqui a pouco pode cair a casa de sua mãe.


— E você quer parar de falar só coisa desagradável? Só pensa em você, você, você! Nem ao menos perguntou como foi que eu conheci o Bobbio Dylan. Ele é motorista de uma perua de lotação que leva até a Favela do Curto Circuito. Fui lá para procurar o Mestre José Amaro, meu primeiro devedor selecionado. Ele é auxiliar de serviços gerais, sabe tudo sobre alvenaria e pintura. Eu procurava a Rua 4, mas na verdade ele mora na antiga Rua do Ressuscitado. Você sabia que o Melquíades tem uma rua com seu nome lá no morro?


Fiquei chocado com a reação da Fernanda. Ela virou as costas e foi lavar o banheiro do escritório. Tentei puxar assunto com minha mãe. Depois com a Smrzilina, com quem não conversava há muitos anos. Todas elas metidas a besta comigo. Não tive outra alternativa senão mandá-las à merda. Voltei a pé para a Monsaraz, 43. Almocei pão de forma, uma lata de sardinhas com cebola fatiada bem fininho, um maracujá com adoçante e um copo grande de café. Depois fiquei preocupado com a minha cama na outra casa. A cama e a mesinha de cabeceira. Se a casa caísse, perderia meus móveis.


À tarde chegou o Mestre José Amaro na Monsaraz 43. Apresentei-o à Dona Sara, que aprovou a minha escolha. O velho começou naquele domingo de carnaval. Queria aproveitar o feriado para avançar bastante. Localizou a origem das infiltrações, eliminou os cogumelos que cresciam no batente de madeira da porta de entrada, trocou as telhas quebradas e pintou todo o sobrado, por dentro e por fora, sem que eu precisasse antecipar um centavo: ele mesmo trouxe todo o material. Até os buracos na parede ele tapou: não passavam de tiros de revólver muito antigos. Provavelmente meu novo lar havia sido um esconderijo utilizado por criminosos – o que era uma insensatez dos bandidos, pois aquela rua ficava na Vila Portuguesa, um bairro fino. Demonstrando sua honestidade, o Mestre entregou-me o chumbo das balas perfurantes.


Na terça-feira, assisti na casa toda cheirando tinta à apuração das notas da Marquês de Sapucaí. A grande campeã foi a Mangueira, com sua homenagem a Carlos Drummond de Andrade. A Tradição, segunda colocada no grupo dois, subiu para o um.


Quarta-feira, meio-dia, a primeira providência que tomei foi quitar a dívida do Mestre José Amaro na DDSE — o que, aqui entre nós, não me custou mais do que o preço de um galão de látex. Fiquei a tarde toda cantarolando Viagem das mãos, do Beto Guedes, até o Décio Linhares me mandar calar a boca.


 

Carnaval é o 27º capítulo do seriado A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.

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