• Guilherme Purvin

26 - A volta de Bobbio Dylan

- Guilherme Purvin -



Ao longo do trajeto de volta para a civilização, o motorista puxou mais uma vez uma prosa sobre o Clube da Esquina. Não resisti à curiosidade e perguntei a ele por que falava tanto do Flávio Venturini, do Tavito e do Nivaldo Ornelas. A história começou meio complicada, ele tinha sido funcionário da Mineradora Bedengó, trabalhara ativamente na destruição dos cenários naturais e na degradação social de muitas cidades no interior da Província das Minas Gerais antes de se estabelecer em Tijuco Verde. Foi na época em que se organizava o lendário Festival de Rock de Tijuco Verde, promoção de seus empregadores. Os promotores do evento estavam preocupados porque não conseguiam convencer nenhum dos membros do Clube da Esquina, nem tampouco o Pessoal do Ceará ou os Novos Baianos a se deslocarem para o novo polo de mineração da Bedengó. O motorista da van se dispôs então a entrar em contato com os mineiros. Foi a Belo Horizonte, Três Corações e Mariana, conheceu praticamente todo mundo, menos o Milton Nascimento, que estava nos Estados Unidos na ocasião. Beto Guedes, Lô Borges e Alaíde Costa então o convenceram a tornar-se cantor pop. Devido à sua voz anasalada, acabou transformando-se em cover do Bob Dylan. Voltou para Tijuco Verde já com o novo visual de cantor de country music, apresentando-se numa das noites com o nome de Bobbio Dylan. Embora em seu repertório só tivesse música brasileira, simulava a voz do norte-americano e acabou angariando três ou quatro fãs, uns garotinhos que estavam na sua apresentação. Ali teve uma visão reveladora. Aquele era o ápice de sua vida artística e emocional: não precisaria mais detonar montanhas de pedras nem envenenar rios com o mercúrio do garimpo. Passaria a praticar somente o bem, difundindo pelo mundo afora o repertório do pessoal do Clube da Esquina. Perdeu uma perna e o emprego na Bedengó, por conta de uma simples banana de dinamite. Mas sobreviveu e conseguiu uma prótese junto ao Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata, que ainda lhe indicou para os empresários da TCT – Transportes Clandestinos Tattoo. Passou a pilotar aquela Kombi adaptada que só ele sabia dirigir e que, portanto, jamais seria roubada.


— Pois faz pouquíssimo tempo que falávamos de você, Bobbio Dylan! Eu era uma das crianças presentes em seu show! Queria que você cantasse Blowing in the wind!


— Ah, então era você um dos amigos do Benedito Montana! Eu nem conhecia essa música, só vim a aprender muito mais tarde, quando um senador paulista passou aqui pela cidade.


Esse vínculo sentimental com o meu passado me fez perder o medo de abrir o jogo e perguntar sobre o que estava realmente me atormentando, aquele corpo de mulher jogado no meio do matagal. No entanto, o curso de meu raciocínio foi modificado pelo fator musical:

— Bobbio, você que entende os meandros da produção musical, já ouviu falar num equipamento chamado MSX, que faz um som parecido com o do teclado do Flávio Venturini na música 1973, do Terço?


É fácil me acusar de insensível. Despreocupado com o sumiço de meu pai, eu viera secretamente cobrar uma dívida de serviço de esgoto municipal de um infeliz favelado, me deparara no trajeto de volta com o corpo de uma menina nua assassinada de forma brutal, acabara de presenciar outra morte horrenda de um morador por eletrocução e tudo o que me ocorria era perguntar a um velho dublê de Bob Dylan que hoje ganhava a vida como motorista clandestino a respeito das possibilidades sonoras de um microcomputador doméstico de 8 bits. Sim, é muito fácil me acusar de sociopata, chamar esta minha história de comédia de mau gosto, fechar as páginas deste livro e substitui-lo pela leitura de um autor consagrado como Dostoievski ou Jane Austen. Mas, se você está aqui lendo minhas palavras, é porque se identificou com a minha forma de ser. Talvez nossos trajetos de vida não tenham sido idênticos, muito provavelmente você não nasceu em Tijuco Verde nem em Chumbinho, quem sabe seja do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Fortaleza ou Recife. Isso não faz diferença, o que importa é que você também tem o hipocampo inflamado e sabe do que estou falando. Continuarei, por isso, contando a minha história do meu jeito, como na canção do Frank Sinatra.

 

A Volta de Bobbio Dylan é o 26º capítulo do romance A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.

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