• Guilherme Purvin

25 - Subterrâneos da Dívida Ativa

Atualizado: 3 de set.

O lar daquele homem de 1m60 e olhos amarelos caracterizava-se pela ausência de janelas. Uma única lâmpada iluminava o quarto-sala de três metros quadrados com um sofá bicama e a cozinha, com um fogareiro de querosene, uma prateleira com dois pratos, dois copos e talheres. Um lençol de casal todo puído separava a sala da cozinha. Perguntei onde era o banheiro. Não havia muito como não saber: era a única porta da casa – uma passagem estreita atrás da escada em caracol por onde eu descera. Mesmo sem vontade, forcei um xixi só para testar a descarga. A privada ficava bem embaixo do chuveiro, de modo que, para tomar banho, a pessoa tinha que ficar sentada ou com as pernas abertas. Não havia pia com torneira para lavar a mão. A descarga, de cordinha, funcionou perfeitamente, o que me deixou mais tranquilo. Detestaria iniciar a minha nova vida de cobrador voluntário do Serviço de Esgoto indo à casa de um devedor que, na prática, não utilizasse o nosso excelente sistema de saneamento básico. Saí do banheiro e lavei a mão na pia da cozinha. Em seguida, apresentei-me:

— Meu nome é Januário Ladeira. Sou cientista atuarial e trabalho no antigo Setor de Dívidas, atual Departamento de Dívidas do Serviço de Esgoto.

— Satisfação, é uma grande honra receber um cientista em meu lar. Em que posso ser útil, doutor? — disse o homem com muita cordura.

— Tenho um assunto muito importante para tratar com o senhor — respondi, ainda sem ideia de como iria abordar o tema.

— Não quer uma cachaça? Tenho uma muito boa.

Fiquei agradavelmente surpreso, Mestre José Amaro era um cara muito bacana. Usava alpercatas de couro cru e tinha a barba por fazer. Levou-me para a cozinha e me ofereceu um copo cheio de cachaça.

— Quando ouvi o senhor me chamando, achei que fosse algum manauara.

Manauaras, explicou-me ele, eram seus vizinhos do lado esquerdo. Rigorosamente, eles vinham em bandos de Manacapuru, uma cidade distante uns cem quilômetros de Manaus. Primeiro chegou apenas um casal com dois filhos. Não se passaram nem duas semanas e logo chegou mais um casal com outros dois rebentos.

— As duas mulheres deveriam ser irmãs e os homens sem dúvida eram irmãos – explicava-me o mestre inadimplente de olhos amarelos. — Concluí pela semelhança entre eles. Passou mais um mês e chegaram dois outros casais, cada um carregando consigo mais três ou quatro crianças. No fim das contas, foram morar na casa à esquerda sete irmãos casados com sete irmãs — catorze adultos e, por baixo, umas quarenta crianças, todos eles primos direitos, geneticamente falando.

— Ah, o senhor é Mestre em Genética?

— Que nada! Tudo o que sei de Genética é relacionado aos meus estudos a respeito de minhas dores abdominais, da diarreia sanguinolenta constante, da dor e ardor ao urinar uma urina bem turva, além de minha febre constante de 37,5 graus. Fiz exame de fezes e foi detectado que eu estava com uma infecção causada por uma bactéria chamada Escherichia coli. Quando fiquei sabendo que essa bactéria é útil para a produção artificial de insulina, fiquei radiante e até comecei a ler um pouco sobre o assunto na biblioteca municipal. Meu sonho sempre foi de produzir uma criatura a partir de pedaços de cadáveres que são desperdiçados nos cemitérios e crematórios. O Profeta Oseias disse para eu parar com essas ideias de engenharia genética e cuidar da minha dor de barriga. Mas como, se esses manauaras passam o dia me provocando, ouvindo música americana, Mister Big Stuff, dançando de um jeito indecente. Uma vez abri devagarinho a tampa de entrada e fiquei olhando para o quintal deles. Esse povo desvalorizou totalmente a minha rua.

— Às vezes tem vizinho que pensa que é o dono da rua — comentei, tentando conquistar a sua confiança e simpatia. E emendei, só para sondar o homem: — Por falar em cadáveres, ontem encontrei um naquela descidona que desemboca do outro lado da Rua do Tesouro.

Mestre José Amaro se fez de desentendido.

— Isso mesmo, doutor. Gente sem noção de sociedade. As mulheres são umas vadias, os homens estão no crime. Não que isso seja mau, doutor, entenda bem! Não estou criticando ninguém, mas acontece que esses são daquele tipo que se mistura com a polícia. Não gosto disso. Pra mim, ou bem você é a favor, ou bem você é contra as leis. Não aceito safadeza. Bandido amigo de polícia não vale nada. É uma corja de merdas. — Mas me diga uma coisa, o senhor já é casado, doutor Januário?

— Estou semi-noivo. Poderia já ter me casado, mas a minha namorada agora só pensa em batucar. Antes disso, só tinha um defeito: não era descendente de Abraão, Isaac ou Jacó. Bom, ao menos ela está viva, o que não é o caso da menina em quem tropecei ontem ao voltar aqui do morro.

— Existem muitas mulheres não judias que são excelentes, doutor.

— O senhor é casado? Tem mulher, filhos?

— Fui casado com uma mulher que era neopentecostal e que me deu duas meninas. Mas a mulher foi embora, trocou-me por um milionário. Vendeu a filha mais novinha, de três anos, para uns médicos estrangeiros. Deixou a outra aqui comigo.

— Notei que o senhor tem dois pratos, dois garfos... Sua filha está bem, faz boa companhia?

— Me dá até desgosto de falar nisso. A menina... que digo eu? Minha filha Marta já é mulher feita. E nada de casar. Não é feia, é trabalhadeira, mas não sei o que acontece, fica pela casa, chorando baixinho como se estivesse com alguma doença. Desde ontem a Marta não aparece em casa. Deve estar choramingando em algum canto da favela, escondida. É minha sina, não quero falar disso. Mas fale mais sobre sua noiva. Já escolheram uma casa para morar?

— Já. Fica quase na Vila Aimoré. Mas precisa de uma pintura, uns retoques.

— Entendi, é por isso que o doutor veio aqui? Para contratar os meus serviços? Fico muito honrado, doutor. Muito honrado.

Não teve outro jeito. Como é que, depois de uma recepção como aquela, meia garrafa de pinga esvaziada e confissões sobre suas angústias familiares, eu poderia tratar friamente da cobrança da dívida? Preferi abordar o tema apenas marginalmente:

— Só não sei quanto é que o senhor vai cobrar pelo serviço, Mestre. Além da pintura, vai ser preciso tapar uns buraquinhos, vedar umas infiltrações. O sobrado não está lá essas coisas.

— Ah, doutor Januário. Quanto a isso, não se preocupe. O senhor não disse que trabalha no Serviço de Esgoto? Pois então, uma mão lava a outra: eu faço a reforma em sua casa e o senhor paga as dívidas que devo ter lá no seu trabalho. É que, desde que mudaram o nome da Rua do Ressuscitado para Rua 4, há uns cinco anos, nunca mais recebi nenhuma conta. Tenho medo de que uma hora dessas venha um oficial de justiça cobrando mais de cem mil cruzados.

Antes que ele ficasse sabendo do montante da dívida, fechamos o negócio.

 

Quando saí dali para pegar a perua de volta ao mundo pavimentado, todas as luzes se apagaram. Felizmente já estava próximo do ponto final do lotação, onde havia uma grande movimentação próximo ao ponto da Tattoo. Achei que finalmente tivessem encontrado a menina morta, mas não. Tratava-se de um sujeito que acabava de ser eletrocutado justo no lugar onde eu havia encontrado o meu informante. Em nenhum momento cogitei que pudesse ser ele. Nunca conheci pessoas que morreram e, para mim, quem entra em meu círculo de relacionamentos, vive para sempre. Limitei-me a comentar com um homem do Corpo de Bombeiros:

— Também, esse pessoal sem juízo, não sei onde eles têm a cabeça, ficam fazendo gato em poste de alta tensão!

O cheiro do corpo carbonizado não era o mesmo, por exemplo, de um churrasco. Era meio adocicado, enjoativo. Não sei como os Tupinambás comiam europeu. Entrei na perua um pouco envergonhado. O trabalho para colocar o sobrado da Monsaraz, 43, era muito grande e a dívida do Mestre José Amaro, noventa e seis cruzados e quarenta e oito centavos, mesmo acrescida de juros de mora desde janeiro de 1984, não pagaria nem uma demão de cal na fachada de casa. Mas, enfim, como costumava dizer o Almir do Setor, digo, do Departamento de Dívida, pacta sunt servanda.

 

Subterrâneos da Dívida Ativa é o 25º episódio do seriado A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.


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