• Guilherme Purvin

24 - Achei! (Epifania de Meirinho)

(Capítulo 24 do romance "A Igreja do Gigante Azul")

Por: Guilherme Purvin, que pede escusas aos seguidores deste romance pelo atraso de quase dois meses na elaboração deste novo capítulo. Se serve de justificativa, nem mesmo o autor sabia o que tinha acontecido com o Januário depois que ele se deparou com um cadáver ao retornar da Favela do Curto Circuito por uma pirambeira. Para quem não se lembra, o episódio anterior foi "Leon Trotsky, 1917".





Cheguei no sobrado da Monsaraz 43 a tempo de me abrigar do temporal. A coisa foi tão forte que acabou a luz em toda a cidade, na hora em que a Escola de Samba Tradição, uma dissidência da Portela, apresentava o samba “Sonhos de Natal”, do João Nogueira e do Paulo César Pinheiro, concorrendo pelo grupo dois. Tomei um banho e deixei minha roupa num balde cheio de água e sabão em pó. Em seguida, escovei no tanque o meu par de tênis para livrar-me do barro e dos vestígios de sangue do cadáver. Tijuco Verde não era violenta, ao menos eu nunca soube de nenhum assassinato na cidade. Teria sido, talvez, um estupro? Estava decidido a não revelar a ninguém que havia visto aquele corpo com o qual eu sonharia por toda aquela madrugada, revirando-me na dureza do colchonete no chão. Estava mais do que na hora de eu ir buscar a cama que tinha deixado no quarto na casa dos meus pais. Aqueci uma panela com água quente, cozinhei um miojo e comi com um ovo frito e ketchup, tudo acompanhado por um copo com o restinho de vinho Kosher do outro dia.

 

Acordei às nove da manhã com o barulho das martelações do Biriba em sua oficina, que ficava aos fundos de minha casa. Abri a janela e cumprimentei o amigo. Fazia sol e muito calor.

— Já tá sabendo das inundações, Januário?

— Acabei de acordar.

— Decretaram estado de calamidade pública. Metade de Tijuco Verde está debaixo da água. Maior fedentina lá pras bandas do Córrego da Ratazana. Mas não se preocupe com sua mãe, ela saiu a tempo. Teve casa lá na Rua da Lama que desmoronou.

— Saiu a tempo para onde?

— Foi para a casa daquela sua amiga altona que trabalha de caixa na Padaria Santa Cecília. Mas como lá também inundou, foi todo mundo dormir na Imobiliária Duas Pátrias. O Sr. Cabral tem bom coração.

Isso do Biriba saber de cada passo de mamãe me irritava cada vez mais. Papai tinha que voltar logo de suas aventuras para acabar com aquela sem-vergonhice. Já não bastavam as paqueras do Melquíades? Não era apenas ciúmes, a verdade é que me incomodava com esse envolvimento de mamãe com gente vinte anos mais nova do que ela. Ela que ficasse com as amigas de tranca, fãs do Silvio Santos. Os meus amigos eram amigos meus. Daqui a pouco ela iria querer tocar também na minha nova banda Sol Sustenido? Tenha dó!

Tomei um café solúvel e um pão amanhecido com Doriana que tostei previamente, espetando num garfo e passando pela combustão de butano que saía da boca do fogão. Eu precisava pensar nas minhas próximas refeições, porque naquele carnaval não teria almoço em família. Quem devia estar na mordomia era o César, hospedado confortavelmente na clínica psiquiátrica que ficava numa região mais elevada do município, para além da Vila Aimoré. Pensei imediatamente em Andréa, seria uma boa oportunidade para conhecer sua quitinete na Sousândrade com a Progresso.

 

Antes, porém, o dever me chamava. Desci até a rua Évora e aguardei a passagem da Kombi da TCT. Desta vez a perua veio bem mais vazia. O motorista levava apenas uma mulher de cabelos mais negros do que as asas da graúna e de olhos oblíquos e dissimulados. Colocou no toca-fitas o álbum Ummagumma, do Pink Floyd, a terceira parte do The Narrow Way, composição do David Gilmour. Foi quando me lembrei de uma banda chamada A Bolha, que fazia um rock progressivo no início dos anos 1970 e que tinha uma música, A Esfera, que parecia uma mistura daquela que estava tocando com um toque de King Crimson. Dois músicos d’A Bolha eram irmãos e tinham também o meu sobrenome. Um deles, aliás, era homônimo de meu irmão, César Ladeira. O outro, se não me enganava, era o Renato Ladeira.

Percebendo o meu interesse, o motorista me perguntou se eu gostava de música.

— Claro que gosto!

— O que acha do Clube da Esquina? Milton Nascimento, Lô Borges, Som Imaginário?

— Acho muito legal, do Som Imaginário eu gosto mais de A Matança do Porco. E, do Milton, de Milagre dos Peixes.

— Mas essas músicas não estão nem no Clube da Esquina I nem no II.

— Eu gosto de Cravo e Canela também. E de Trem Azul...

O homem ficou radiante. Era como se ele tivesse acabado de encontrar sua alma gêmea. Começou a falar sem parar do Lô Borges e do Beto Guedes. Depois do Toninho Horta e do Wagner Tiso. Já havíamos entrado na Favela do Curto Circuito e ele não parava de falar. Agora discorria sobre a carreira de Tavinho Moura e sobre a técnica bandolinística do Beto Guedes n’A Página do Relâmpago Elétrico. Falou até de um disco que eu não conhecia, com o Novelli, o Danilo Caymmi e o Toninho Horta.

 

Desci em frente à casa do eletricista, que continuava fazendo uma instalação, puxando fios do cabo de alta tensão para sua casa. Aparentemente, ninguém ainda sabia do cadáver da garota no descidão do morro, pois ninguém comentava nada nem havia movimentação policial nas redondezas. A mulher de cabelos negros subiu uma pirambeira do outro lado da rua, na direção da torre mais alta. Como quem não quer nada, puxei assunto com o cara da escada:

— E aí, tá dando certo o gato?

— Não sei. Ainda estamos sem luz. Achou quem procurava ontem à noite?

— Não. Fiquei sabendo que existem duas ruas 4.

O homem desceu da escada e me encarou:

— A única Rua 4 é esta. Esta é a verdadeira Rua 4. A outra, a pseudo-quatro, é a Rua do Ressuscitado. Os novos moradores de lá pediram à Subprefeitura do Bairro da Saúde para mudarem o nome, que na verdade era uma referência ao milagre do padeiro que morreu e, graças ao poder de Janel Wislawa, voltou à vida. As pessoas querem apagar a história da Favela do Curto-Circuito.

— Você falou história da Favela do Curto-Circuito. Acho que quis dizer do Morro dos Canudos — eu disse, disfarçando o constrangimento, pois o Melquíades havia sido esfaqueado pelo meu pai.

— Frescura isso. Morro é um acidente geográfico. A favela não é o morro, ela apenas está em cima do morro.

— E quem é Janel Wislawa?

— Ora essa, é a mulher que veio com você na lotação do Tattoo. Com Janel Wislawa aqui ao nosso lado, ninguém morre.

— Entendi. E aí o que aconteceu com a toponímia favelar?

— Aconteceu que algum incom//petente propôs que a Rua do Ressuscitado fosse rebatizada para Rua 4, sem ligar para o fato de que já temos uma Rua 4 verdadeira. Seria bem mais fácil se você dissesse quem está procurando.

Fiquei um pouco inseguro de prestar essa informação. Isso poderia comprometer a reputação do usuário inadimplente do Serviço Municipal de Esgoto. Então saí-me com uma nova mentira (elas se acumulam ao longo desta história, para minha angústia).

— Estou procurando um velho amigo. O nome dele é José Amaro. Não sei se já ouviu falar.

— Conheço um José Amaro, sim, mas nunca ouvi falar que ele tivesse amigos. É um servente de pedreiro, auxiliar de pintor, vigilante noturno substituto e quebra-galho para tudo adjunto. É esse que está procurando?

— Se for o ajudante-geral da Rua 4, s/n, fundos, na certa é ele.

— Esse que eu falo mora na Rua do Ressuscitado, fundos. Mas não me lembro se a casa da frente tem número.

— Fica longe daqui?

— Eu levo você lá. Depois termino o serviço.

O eletricista pediu-me um cigarro. Parei num boteco, pedi um maço de Albany e também o acompanhei nas tragadas. Fomos caminhando pelas ruas animadas da Favela do Curto-Circuito. Um bloco de rua ensaiava num terreno baldio uma marchinha que falava sobre um gigante azul especializado em arrebentar asfalto e colocar a terra pra respirar. Não era bem um samba, parecia mais uma raga indiana em ritmo de lundu. Em cada canto havia um grupo batucando ou queimando fumo. Antes que apagasse meu cigarro já estávamos na tal Rua do Ressuscitado. Não havia nenhuma placa indicativa de que ela se chamasse oficialmente Rua 4.

— Se for quem eu penso que é — disse o eletricista —, a pessoa mora nos fundos dessa casa. Agora, tchau. Me dê mais uns dois cigarros e não me encha mais o saco.

 

Agradeci e sussurrei:

— Seu José Amaro?

Ninguém respondeu. Elevei a voz:

— Seu José Amaro, o senhor está aí?

Uma velha, provavelmente com mais de 90 anos, colocou o rosto para fora da janela e disse:

— O mestre José Amaro mora nos fundos. Pode entrar que ele está lá.

— Obrigado — respondi, entrando num estreito corredor ladeado por caixotes com garrafas de cerveja vazias e pensando no status acadêmico do meu devedor selecionado. Nunca pensei que um sujeito com mestrado fosse capaz de regular mixaria como aquela merreca da taxa de serviço de esgoto. Seria ele um grande intelectual desprovido de recursos financeiros?

— Mestre José Amaro? — gritei.

— Aqui em baixo — foi a resposta.

— Em baixo? Em baixo do quê?

— Aqui, no porão. Tome cuidado com a escada. Agarre-se no cano do corrimão.

O quadro à minha frente era demonstração cabal do acerto de minha experiência atuarial. Errara a SDSE ao deixar de incluir um dado a mais no endereço do destinatário: José Amaro era morador da Pseudo-Rua 4 (antiga Rua do Ressuscitado), sem número, fundos, primeiro subsolo.

 

Achei! (Epifania de Meirinho) é o 24º episódio do seriado A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.


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