• Guilherme Purvin

23 - Leon Trotsky, 1917

Livre das amarras editoriais que lhe impunham os editores da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, Guilherme Purvin prossegue com todo fôlego o romance "A Igreja do Gigante Azul", revelando neste 23º episódio a popularidade do grande líder do Exército Vermelho junto à humilde população de Tijuco Verde.


Índice: Capitulo 1 - O protagonista apresenta-se em terceira pessoa; Capítulo 2 - Jejuno; Capítulo 3 - ... - ... - Capítulo 22 - O futuro não é mais como era antigamente - Capítulo 23 - Leon Trotsky, 1917


Leon Trotsky, 1917


(Capítulo 23 do romance "A Igreja do Gigante Azul")


Por: Guilherme Purvin



Minha Vida


Resolvi comprar o livro “Minha vida”, uma autobiografia de Leon Trotsky. Esse líder revolucionário foi admirável por todas as coisas que deixou de fazer por conta do exílio político. Tivesse ele vencido Stalin no embate interno do Partido Comunista, talvez Mikhail Gorbatchev não estivesse naquele momento tentando destruir um sonho de setenta anos, com aquelas baboseiras de perestroika e glasnost, que tanto agradavam aos Estados Unidos e à Europa Ocidental. A partir de Josip Stalin, todos os Secretários Gerais do PCUS, foram uns idiotas nacionalistas: Nikita Kruchev. Leonid Brejnev, Yuri Andropov, Konstantin Chernenko. Nenhum estava preocupado em promover a revolução permanente e o socialismo planetário. Mesmo assim, não se venderam ao capitalismo como o popular Gorbatchov, que teria sido fuzilado caso a tese da revolução permanente houvesse prosperado. Trotsky decerto teria impedido que os inimigos dos direitos humanos sobrevivessem, teria fechado todos os jornais que ousassem criticar a liberdade de expressão. Além disso, era muito amigo de Diego Rivera e Frida Kahlo, dos surrealistas e dos dadaístas e adorava Nova York.


Repousei o livro ao lado do colchonete no chão. Às vezes eu achava que não tinha senso de prioridade. Eu deveria estar mais preocupado com a execução de meu plano de cobrança e com a restauração do sobrado. Afinal, tinha que deixar a casa bonita para um dia apresentá-la à Fernanda. Não ainda para morarmos juntos, é evidente. Até porque teria antes que ter as bênçãos de Lia Rosenberg, sem as quais Sara Queneau não cederia um milímetro. Em vez disso, eu passava meu tempo burilando as letras das canções que comporiam a ópera-rock que revolucionaria o planeta e o impulsionaria rumo ao verdadeiro socialismo utópico.


Decreto Municipal 235/87


O mês de fevereiro correu sem qualquer incidente. A página da prefeitura n’O Comércio publicou o Decreto Municipal 235/87, transformando o Setor de Dívidas em Departamento de Dívidas e o Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata foi nomeado novo Secretário Municipal de Segurança Pública, Lazer, Saneamento e Habitação, em substituição ao Dr. Rodovalho Garcez, que depois de um ano em tratamento de leucemia no Rio de Janeiro, finalmente havia batido as botas. Houve uma grande festa de despedida para o Dr. Basílio no Serviço Municipal de Esgoto, mas Décio Linhares não compareceu, alegando sobrecarga de trabalho. É que, com a exoneração a pedido de Andréa, não havia ninguém para substituí-lo no SDSE, agora DDSE e, assim, optou-se pela promoção de outra Andréa, a Dra. Andréa Catapreta, Procuradora de Vigilância Sanitária, para substituir o grande chefe. Essa promoção causou um certo mal-estar junto ao Gabinete do Procurador Geral do Serviço de Esgoto, cujo nome desconheço e que devia se julgar no direito de ao menos ser consultado sobre a liberação de sua subordinada. De qualquer forma, o cargo vago na Procuradoria de Vigilância Sanitária era agora cobiçado pelo Almir, que dominava como ninguém a Teoria Geral do Processo.


De minha parte, passei a ser humilhado com maior assiduidade pelo Décio Linhares, que havia montado um vocabulário de rimas para o meu nome: armário, berçário, corsário, dromedário, estelionatário, falsário, ideário, incendiário, multitudinário, obituário, ossuário, otário, perdulário, salafrário, salário, semanário, sanitário, templário, usuário, usurário, veterinário. Tudo para produzir com maior agilidade suas quadrinhas idiotas.


Almir, enquanto aguardava eventual nomeação para a Procuradoria de Vigilância Sanitária, nunca mais fez qualquer alusão a improbidade administrativa nas cidades da vizinhança, temeroso de desagradar os aliados do Dr. Elias da Mata. Pelo contrário, mostrava-se extremamente confiante com o futuro do Brasil:


— É por isso que sou de centro! Tenho certeza de que a Assembleia Constituinte do Dr. Sarney será a coroação do processo lento, gradual, porém seguro, de democratização de nossa pátria!


E o Sr. Geraldo tornou-se tão convincente em seu cacoete de espantar moscas que eu mesmo o presenteei com um tubo de inseticida.


Eu estava irritado com muitas coisas. Por exemplo, com aquelas viagens constantes de mamãe com o Biriba, sob o pretexto de localizar meu pai. Ou com a internação de meu irmão César numa clínica psiquiátrica, a mando da Amélia, que alegou estar ele viciado em maconha e chá de cogumelos colhido na região da nascente do Córrego da Ratazana, perto do pasto de boi zebu da família Elias da Mata. Ou ainda com o aparente desinteresse de Fernanda pela minha pessoa, ela que agora só pensava em tocar bateria, bongô, caixa, surdo, atabaque, chocalho e cajón.



Noventa e seis cruzados e quarenta e oito centavos


Na última sexta-feira do mês, foi dado ponto facultativo e todos foram dispensados mais cedo do trabalho. Era carnaval e o pessoal só voltaria ao trabalho na tarde da quarta-feira. Eu optei por trabalhar. Fiz uma devassa em todas as fichas de devedores contumazes do serviço de esgoto. Ao final, selecionei um nome que me parecia particularmente interessante:


Nome: José Amaro - Naturalidade: Pilar/PB - Data de nascimento: 3 de junho de 1921 - Estado civil: viúvo - Profissão: Ajudante de Serviços Gerais - Residência: Rua 4, s/n – fundos. Morro dos Canudos (Favela do Curto-Circuito)


A dívida acumulada até 31/1/1987 era de Cz$ 96,48 (noventa e seis cruzados e quarenta e oito centavos), à qual deveriam ser acrescidos juros de 0,5% ao mês, cumulativos desde 1º/1/1984, e multa de 30% por inadimplência.


Como é que o sujeito deixava seu nome cair na lama por conta desses míseros trocados? Devia ser um zé-ninguém, sem a menor noção de seus direitos mais comezinhos. Não me faria mal algum. Estava decidido: este seria o meu caso-piloto. Naquela noite de sexta-feira, enquanto a bateria da Escola de Samba Tijuco Verde Bilhar & Dancing Club estivesse aquecendo, o Serviço de Esgoto de nossa cidade veria nascer uma nova realidade contábil.


Não voltei para casa. Dei uma passadinha no Calendas Bar para tomar uma cerveja com a Andréa, mas nada contei a ela sobre meus planos. Nem mesmo Fernanda ficaria sabendo. Saí dali e entrei numa kombi lotada rumo ao “Morro dos Canudos”, comprimido entre a porta da perua e um homem de 130 quilos que suava como se estivesse dentro de uma sauna. Contei o número de passageiros: 15 pessoas. O veículo comportava no máximo 8, incluindo o motorista. Eu levava a ficha do devedor selecionado apertada no peito, num envelope plástico, com medo de amassá-la. 40 minutos mais tarde, 40 graus de temperatura e os vidros da kombi emperrados, desci diante das torres de alta-tensão que rodeavam a Favela do Curto-Circuito.



A Favela do Curto-Circuito


Apesar de ter nascido em Tijuco Verde, nunca tinha colocado meus pés naquele lugar. O nome escolhido para a favela era apropriado: uma tempestade seria suficiente para causar um estrago de 440 Volts na redondeza. Mas esse era o único senão. No mais, algumas rualas do lugar contavam com cascalho, onde era possível o trânsito de veículos, faltando apenas calçadas para pedestres.


Excitado, eu vibrava literalmente, devido à intensidade e frequência dos cabos de alta-tensão sobre a minha cabeça. Hipertenso, a primeira coisa que fiz ao iniciar a minha busca foi acender um cigarro que havia filado de Andréa. Em seguida enchi-me de coragem e perguntei a um senhor que fazia uma instalação elétrica na entrada de sua casa se ele sabia onde ficava a Rua 4.


— A Rua 4 é aqui mesmo — explicou-me o sujeito, sem olhar para mim.


— Estou procurando uma casa na altura do sem número, fundos. É mais para a frente?


Só depois de falar é que percebi a estupidez de minha pergunta. Mesmo assim, o homem não perdeu a linha.


— Depende de qual sem número. Tem para os dois lados. A maior parte dos moradores de casas sem números costumam colocar um recorte de revista plastificado para identificar. Por exemplo, meu irmão mora na Rua 12, sem número, “Deborah Sochaczewski Evelyn”. Como o nome é complicado, as pessoas chamam de Rua 12, sem número, da foto da Raquel da Hipertensão.


Hipertensão era uma novela da Globo que fazia sucesso na favela, por causa do logotipo com um desenho de relâmpago que lembrava o símbolo de alta tensão. Mas como eu não tinha a menor ideia de quem era a Raquel ou mesmo Deborah Evelyn, de nada adiantaria ter uma casa com aquela foto. Mais tarde, quando contei tudo à Fernanda, soube que Débora representava u’a moça tímida de óculos redondos da novela. Só porque perguntei a ela quem era aquela atriz, a Fernanda passou a acompanhar sua carreira e, trinta e tantos anos mais tarde, muito depois do término deste romance, acabou se tornando amiga dela, quando foi a Porto Alegre ver a peça “Deus da Carnificina”. Postou até uma selfie ao lado dela em seu Facebook. Mas, em 1987, o mundo ainda não era tão horrível: Mark Zuckerberg não passava de um menininho de três anos, filho de uma psicóloga e um dentista de White Plains, Nova York.


— Acho que a pessoa que eu procuro não colocou nenhum recorte, porque mora nos fundos e ninguém conseguiria enxergar direito a foto.


— Aí fica bem mais fácil localizar. Subindo aqui a Rua 4, tem umas cinco casas de fundos, sem número e sem foto.


Agradeci a gentileza do eletricista de rosto desconhecido e iniciei a escalada da Rua 4. As luzes das casas eram suficientes para iluminar o caminho, mas não para que eu pudesse identificar a que procurava. Como fazia muito calor e a maioria das casas deixava as janelas da sala abertas, eu podia parar para perguntar aos moradores onde era a s/n da Rua 4, se é que eu ainda estava nela. Depois de uns vinte minutos zanzando sem rumo, enfiei a cabeça numa das janelas. O televisor estava ligado na novela da Maria Zilda e do Cláudio Cavalcanti.


— Por favor!


Uma mulher virou-se para mim e perguntou:


— O que o seu crânio está fazendo dentro de minha casa?


— Estou procurando uma pessoa. Mora na Rua 4.


— Então você está procurando errado. Aqui é a Rua Leon Trotsky, 1917.


— Que estranho!


— Por que estranho? — perguntou a mulher, ofendida. — O que há de estranho em homenagear o líder do Exército Vermelho, criado para que a esquerda conseguisse derrotar a burguesia internacional armada, fundador do Núcleo Revolucionário do Morro dos Canudos à época em que veio visitar Tijuco Verde? Vocês, lacaios da Companhia Mineradora Bedengó, têm as armas da Força Pública e não sossegarão enquanto não ocuparem nosso Território Livre para impermeabilizar o solo sagrado que recebeu o asteroide. Soldados do Exército Branco, não passarão!


Não entendi nada dessa história de impermeabilização do solo, mas por conta da autobiografia que acabara de ler, conhecia um pouquinho da Revolução Russa e do grande comandante do Exército Vermelho. Tentei explicar à mulher que eu não tinha nada a ver com a polícia de Tijuco Verde. Longe de mim vender-me àquele pessoal da Mineradora Bedengó: não era nenhum Benedito Montana! O meu vínculo com a administração municipal era tênue, resumia-se à minha participação no processo de saneamento contábil do saneamento básico.


— Em síntese, eu concordo com a sua luta, dona. Também acho que os conservadores lutavam para que os povos da velha Rússia tzarista se fragmentassem, impedindo a ascensão do poder soviético. Não bastava que as tropas soviéticas libertassem Kharkov, Kiev, Riga e Vilna. Os povos ucraniano, letão, lituano e bielo-russo desejavam unir-se fraternalmente à Rússia Soviética, assim como os moradores da Estônia, do Cáucaso e da Sibéria.


— No coração dos trabalhadores reside o desejo inabalável de combinar suas forças — replicou a mulher. — Vamos ampliar as bases de nossa luta! Todos unidos em torno do Gigante Azul!


— Isso mesmo, dona! Três hurras para os moradores da Favela do Curto Circuito ou do Bairro da Saúde!


— Favela o caralho, burguesinho de merda. Território Livre do Morro dos Canudos, por favor.


— Desculpe! Mas sou também um despossuído. Nasci do lado de cá da linha da miséria, na Rua da Lama. Vivi por muito tempo num lugar chamado de “casas dos duendes” e compartilho os mesmos ideais antissistema! Se soubesse antes que Leon Trotsky tinha passado pelo nosso país e visitado justamente a nossa cidade, este morro, eu já teria me mudado para cá há muito tempo.


— Só resta saber se o Conselho Revolucionário do TLMC aprovaria a vinda da burguesia para cá. Quanto ao lugar onde você morou, saiba que as casas não eram de duendes antes da impermeabilização, o Profeta Oséias sempre nos lembra disso!


— Profeta Oséias? Aquele que se sentava antes em minha mesa no DDSE? Que singular coincidência! Mas como é que uma trotskista acredita em profetas?


— Qual é o problema? Lenin também foi um profeta, assim como Marx e Liev Davidovitch Bronstein.


— Profetas? Também não sabia disso! Mas, voltando à geografia de nossa cidade, minha mãe ainda mora lá, na Rua da Lama, mas eu agora estou na Travessa Monsaraz, 43! Só não entendi uma coisa. O número de sua casa, 1917. A Rua Leon Trotsky é tudo isso de longa? E também fiquei sem saber onde é que a Rua 4 muda de nome, porque eu vim em linha reta.


— O nome muda quando você passa em frente ao Supermercado Pechincha. O número 1917 foi sugestão do Profeta Oséias. A um só tempo homenageia a Revolução Russa e o ano em que os ancestrais do Messias — uma humilde faiscadora de pedras radioativas de Farinha Seca e um íntegro imigrante russo — se casaram.


— Ah, tá. Meus bisavós devem ter conhecido esses ancestrais do Sr. Messias, que não tive ainda a honra de conhecer. Também tenho uma bisavó que foi faiscadora e um bisavô que veio de Vladivostok. E me diga uma coisa, você conhece a Irmã Ursulina?


— Sim, é nossa professora de cinema. Todas as manhãs de sábado temos aulas no Cineclube Agnès Varda. Você é amigo dela?


— Mais ou menos. Nos conhecemos num churrasco e eu me lembrei que ela dava aulas por aqui. Mas, voltando à vaca fria, o pior é que não achei a casa que procurava. Sem número, fundos, na Rua 4.


— Precisa ver que Rua 4 você está procurando.


— Por quê? Tem mais Rua 4 aqui?


— Sim, aqui tem duas ruas 4. Uma é a que você acabou de passar. A outra é... — a mulher interrompeu a frase no meio. A novela tinha voltado e ela não queria perder a cena da Carina com o Sandro. Fiquei sem saber onde era a outra Rua 4. Voltei para o ponto da Kombi da TCT – Transportes Clandestinos Tattoo, empresa que havia vencido a licitação balística na disputa pela linha Vila Aimoré – Morro dos Canudos. No entanto, a perua já tinha descido. O céu estava nublado, ameaçando chuva. Naquela escuridão eu não conseguiria achar o caminho de volta por aquele emaranhado de ruelas. Então me lembrei da trilha íngreme por onde o Biriba havia descido com seu para-choque. No trajeto, tropecei no que parecia ser um bicho morto. Logo reparei que se tratava do cadáver de uma garota nua. Não dava para saber a sua idade, podia ter entre 15 e 25 anos de idade. Urgia avisar ao revolucionário profeta trotskista Oséias! O rosto da menina estava desfigurado por tiros - provavelmente o crime ocorrera a mando dos inimigos da Igreja do Gigante Azul, que, agora eu entendia, era na verdade uma célula da IV Internacional. Assustado, acelerei o passo e, em menos de quinze minutos estava de volta aos domínios do Exército Branco, com a minha calça americana comprada de contrabando toda suja de terra na bunda, tremendo de medo.

 

Leon Trotsky, 1917, é o 23º episódio do seriado A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.



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