• Guilherme Purvin

22 - O futuro não é mais como era antigamente

Após uma longa contenda na Justiça, conseguimos adquirir os direitos de publicação exclusiva dos capítulos do romance "A Igreja do Gigante Azul", que vinham sendo publicados no blog da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares. Assim, é com grande orgulho que este blog passa a veicular a continuação do romance do escritor Guilherme Purvin. Para que nossos visitantes não percam o fio da meada, passaremos oportunamente a reprisar os primeiros capítulos do romance, na seção VAPRENUVEM (Vale a pena rever de novo uma vez mais).


O Futuro não é mais como era antigamente


(Capítulo 22 do romance "A Igreja do Gigante Azul")

Por: Guilherme Purvin


Andréa voltou à SDSE na manhã do dia de Iemanjá. Lembrou-se de meu aniversário na semana anterior e me deu de presente o novo LP do Legião Urbana. Eu já conhecia alguma coisa da banda, tinha ouvido uma canção chamada “Cera” e pensava que era do Jerry Adriani. Andréa me explicou que não era “Cera”, era “Será” e que eu tinha que ouvir com atenção a banda, porque “o futuro não é mais como era antigamente”. Achei misteriosa sua afirmação. Depois descobri que era um trecho da música “Índios”. A verdade é que o futuro não era mais o mesmo, mesmo. Por exemplo, eu não me interessava mais pelo Pink Floyd. O último LP, “The Final Cut”, era horrível, uma cantoria cheia de lamentos do Roger Waters, praticamente sem a participação de meu parceiro David Gilmour. Com o próprio Benedito Montana eu não tinha mais planos futuros, como quinze anos atrás. Joaninha não era mais a minha musa e eu começava a desconfiar que nunca havia sido. Mutantes, O Terço e Raul Seixas davam agora lugar a Paralamas do Sucesso, Titãs e Cazuza. Quando eu conversava sobre política, não precisava mais recorrer a códigos secretos e nem mesmo tinha medo de cantar “Caminhando” do Geraldo Vandré. Não que eu ficasse cantando por aí a todo tempo aquela música chata, mas era uma referência. Foi por causa dela que aprendi a fazer pestana, F#m.

Tudo mudava, mas o que eu não sabia na época é que as mudanças não seriam definitivas. Quando, três anos antes, passei meu aniversário com os meus pais e o César, comendo pizza e ouvindo o Hino Nacional na TV, cantado pela Fafá de Belém, o futuro era lutar pelo voto direto. Três meses depois, o futuro passou a ser fazer torcida para que, numa eleição indireta, fosse escolhida uma chapa formada por um manipulador político mineiro muito do sem graça e pelo famigerado proprietário do Maranhão, até então peça de sustentação da ditadura. Em 1985, o futuro ficou ainda mais reduzido, limitando-se ao compromisso do imortal maranhense de convocar uma Assembleia Constituinte.


O futuro, naquele 2 de fevereiro de 1987 em que Andréa reaparecia na SDSE, era justamente a tal Assembleia Constituinte, que havia sido instalada na véspera. Eu tinha apenas uma vaga noção do significado daquilo. Diziam que seria uma pá de cal na ditadura militar, mas eu pensava: pá de cal só se joga em cima da terra se o cadáver estiver sepultado ali. Mas se Geisel e Figueiredo tentavam sair discretamente do cenário político, isso era porque haviam deixado seus fiéis representantes civis nos postos chave. Afinal, com o ex-presidente da ARENA mandando em Brasília, onde é que pretendiam jogar a pá de cal? Só se fosse nos corpos desaparecidos ao longo dos últimos 23 anos.


Mas, enfim, minha especialidade sempre foram as Ciências Atuariais e eu já nem sei se o que estou dizendo reproduz o meu pensamento daqueles tempos. O que realmente me lembro é que nossa conversa ali dentro não evoluiu, porque a grande notícia não era nem o Álbum Dois do Legião Urbana nem a Constituinte, mas a iminente mudança do nome de SDSE para DDSE – Departamento de Dívidas do Serviço de Esgoto. O Dr. Décio Linhares caminhava de um lado para o outro da sala, num discurso eufórico e interminável sobre os significados mais profundos dessa mudança, que deveria acontecer a qualquer tempo. Eu ficava na dúvida se ele realmente estava animado com aquela mudança de sigla ou se estava apenas querendo mostrar a todos que aprendera uma nova palavra – “jactância”.


— Não quero contar com o ovo que não saiu da cloaca da galinha, meus caros subordinados. No entanto, não creio incorrer em jactância se lhes informar antecipadamente algo que deverá ser publicado amanhã na coluna oficial de nossa municipalidade n’O Comércio. Não, jactância seria omitir notícia de tal jaez a vocês, simplesmente porque vocês estão no último degrau da estrutura hierárquica do serviço público. Portanto, não os deixarei jejunos da grande novidade, oferecendo-lhes uma pista: amanhã teremos mudança nos quadros superiores da secretaria à qual o Serviço de Esgoto está atrelado. Grandes expectativas! Grandes expectativas, senhor Geraldo, senhor Almir, senhor Januário. Dona Andréa, esteja preparada! Cesse tudo o que a musa antiga canta! Dentro de muito pouco tempo as nossas vidas mudarão completamente!


Andréa, impaciente, puxou-me até a mesinha da garrafa térmica e me ofereceu um copinho de café adoçado pra fazer boca de pito. Em seguida, com aquele jeito meio estúpido dela, arrancou com os dentes amarelados a ponta do cigarro, reclamou do fim do Continental sem filtro e deu uma profunda tragada. Eu lia a contracapa do meu presente de aniversário. Sem perder de vista os movimentos dela, o chefe a citou em seu monólogo:


— Fume à vontade, dona Andréa. Sinta-se em casa, mas contenha sua jactância quando, já não mais jejuna das informações sobre as mudanças iminentes, estiver apta para alçar voos condoreiros. Sim, pois serão desse jaez as modificações na estrutura administrativa de nossa secretaria, de nosso serviço, de nosso já não mais setor, mas Departamento de Dívidas!

O discurso foi providencialmente interrompido pela súbita aparição de dona Glaisy, que entrou sem avisar na sala, com um saquinho cheio de camisinhas, mandando o marido distribuir o material a todos os seus subordinados. Constrangido, Dr. Décio Linhares disse que não havia no SDSE nenhum gay (atenção, Polícia Literária: estamos em 1987, na época se achava que AIDS só atingia homossexuais masculinos). Dona Glaisy perguntou como é que ele conhecia a vida sexual dos funcionários e o homem começou a gaguejar, deixando-a ainda mais desconfiada. Como já era mais de meio dia, aproveitamos a ocasião e descemos para almoçar. Levei Andréa para conhecer um lugar muito bom, na Rua Píncaros da Glória.


Nunca falei dessa rua. Os esnobes dizem que é a região mais degradada do Centro de Tijuco Verde, por causa do narcotráfico, do contrabando e da prostituição, só perde para a Favela do Curto Circuito. Eu discordo. Em minha opinião, o padrão de vida na Píncaros da Glória é melhor do que a metade do Bairro da Saúde à direita do Córrego da Ratazana. Na Píncaros não há enchentes e o pé direito das casas é de quase três metros. São sobrados antigos, os mais antigos da cidade. Afinal, foi ali que nasceu Tijuco Verde, numa época em que tudo ao redor era um gigantesco latifúndio improdutivo pertencente à família Elias da Mata. A prefeitura, aliás, tinha um plano muito interessante para a região: transformá-la numa espécie de Canary Wharf de Tijuco Verde, expulsando as moças que iniciaram sexualmente a vida de quase todos os homens da cidade.

No caminho, pedi a Andréa, na qualidade de especialista em Computação e Informática, uma orientação sobre um investimento de vulto que queria fazer. É que, desde o dia em que fiquei sabendo das possibilidades sonoras do MSX do César, não me saía da cabeça a ideia de também comprar um computador para mim. Contei a ela que estava decidido a mudar o nome da minha banda. Benedito Montana havia se vendido para o Sistema. Lá Bemol (BEnedito MOntana) era um nome que não fazia mais sentido. Seria doravante Banda Sol Sustenido. A Fernanda tinha dito para mim que se dispunha a substituir o fedorento engravatado e aprender bateria. Entraria em contato com uma amiga dela da pensão onde morava, uma tcheca que tocava muito bem violoncelo e viola-de-gamba (vejam como o mundo é pequeno: essa amiga não era ninguém menos do que a Smrzlina, cuja avó fora amiga da nadadora Nora Tausz, que se casou com o Paulo Rónai, isto é, a minha ex-colega da Duas Pátrias especializada em falsificar livros contábeis com gilete). O futuro agora era a banda Sol Sustenido, mas eu precisava de uma assessoria na área da informática aplicada à Música, para prosseguimento de minha ópera-rock A Igreja do Gigante Azul.

Andréa disse que sim, claro que poderia dar uma assessoria, mas não porque ela fosse qualquer coisa em Informática e Computação:


— A faculdade é uma bosta, tem só uns cinco livros sobre Informática e os seis professores do curso não sabem nem como se liga um computador. Um deles é formado em Direito, só fica falando do Código Civil. O outro é da sua área, formado em Contabilidade. É o responsável por uma matéria chamada COBOL. Acontece que a faculdade não tem nenhum programa nessa linguagem. Então ele se restringe a falar genericamente sobre bancos de dados. As aulas de Assembly e Linguagem de Máquina são dadas por um engenheiro ferroviário que só sabe dar continhas bestas do tipo quanto é 101 + 110.


— Ridículo. 211.

— Não, é código binário. Então a soma é igual a 1011. Não existe número 2. Mas 1011 não é mil e onze. É o equivalente a onze.


— Absurdo. Faculdade de merda mesmo. Ainda bem que você acredita em vida além-túmulo.

— Seu comentário é totalmente impertinente, Januário. Linguagem binária não tem nada a ver com Espiritismo. Não sei de onde você tirou essa relação.


— Isso de cento e um mais cento e dez dar onze é coisa de almas do além. Ao menos em minha modesta opinião.


— Está bem, Januário. Mas o que mais pesou em minha decisão de deixar o curso foi a aula de Algoritmos e Sistemas Integrados. A professora disse que, apesar do título da disciplina, na prática a gente iria estudar “Urbanização em Santiago do Chile”.


— Ah! Eu tive essa matéria com a Professora Dilma!


— É essa mesma, Januário. A mulher do juiz de direito. Aí eu fui conversar com ela, disse qual era o meu objetivo ao me matricular e ela ficou muito impressionada com o fato de eu ser formada em Jornalismo e mesmo assim reincidir no erro de fazer outra faculdade. Eu concordei com ela. Daqui a pouco, quando voltarmos do almoço, eu vou apresentar o meu pedido de exoneração. Esse lugar onde trabalhamos é o fim da linha para mim. Foi útil enquanto eu estudava em Jerivá. Agora eu quero seguir o meu caminho.

— Andréa, você não deveria fazer isso. Você vai precisar se sustentar. Não faça essa besteira de largar um emprego estável!


— Januário, não se preocupe quanto a isso. A grande novidade é que a Dilma conseguiu convencer a diretoria da faculdade a me contratar como professora do Curso Superior de Computação e Informática. Teceu os maiores elogios ao meu desempenho nas aulas e disse que eu era o nome perfeito para ministrar as aulas de Jornalismo Eletrônico.


Eu nunca tinha ouvido falar naquele assunto. O que fazia um jornalista eletrônico? Supunha que fossem matérias sobre novos transistores, resistências, capacitores eletrolíticos, alto-falantes, baterias... Desnorteado, perguntei a ela:


— E eu, Andréa? O que faço? Continuo na SDSE?

— Isso é uma decisão só sua, Januário. Você gosta do Setor de Dívida?


— Não das pessoas que vão ficar lá. Mas queria tanto realizar meu projeto pessoal de sanear a contabilidade do Serviço de Esgoto! Estou desenvolvendo aquele plano de sair em busca dos devedores.

— Então você já decidiu o seu destino. E sua mãe, continua saindo em busca de seu pai naquela espécie de Belina?


— Sim, uma Belina II ano 78 inteiramente reconstituída pelo Biriba. Ele é que dirige, porque mamãe ainda não tem carteira de motorista. O Biriba deu aulas para ela e ela tem jeito mesmo de piloto. Aprendeu em três dias. Acontece que ela ficou queimada junto aos fiscais do Detran. Não quis pagar caixinha. E, sem as bençãos do Benedito Montana, nada feito. Só se for para fora de nosso Estado. Lá em Chumbinho talvez consiga.

— Você não se preocupa com o sumiço de seu pai?


— Ah, não. Ele deve estar fazendo uns bicos por aí. E é bom, assim a mãe deixa de ser preguiçosa e faz sua própria comida na cozinha.


Entramos no Bariloche e pedimos sanduíche de churrasquinho grego e duas cocas.

— Bariloche Hotel, Bar & Lanche... Nunca tinha reparado que existia isto.


Eu conhecia aquele lugar só porque tinha umas lojas de disco sempre com descontos ali por perto. Não conhecia o hotel, bem entendido, mas o restaurante que, na verdade, não era bem um restaurante, mas apenas um bar com um balcão, oito bancos redondos e, no corredor que levava para os quartos do hotel, três mesas para duas pessoas. A especialidade da casa era cozido de coelho com cenouras e arroz com pombas, mas eu só parava ali para comer o churrasquinho grego.


— Que horror, Januário, você me trazer aqui para comer churrasquinho grego, de pé num boteco no meio da zona.


— O que você quer dizer, Andréa?


— Desculpe, foi um comentário idiota e preconceituoso.


O que ela quis dizer com aquilo? Que ideias preconceituosas se passavam em sua cabeça quando olhou para o cartaz do Bariloche? E por que pedir desculpas para mim? Fiquei um bom tempo aborrecido, mas então entendi que não era pelo fato de minha amiga ter me associado a um sanduíche de churrasquinho grego, mas por não ter pedido desculpas por me abandonar no SDSE (ou DDSE, era bom eu começar a me acostumar com a nova sigla) e por me acusar de estar decidindo o meu próprio destino. Ela se esquecia que só nos conhecemos porque eu fui trabalhar no mesmo lugar que ela.


Nunca soube onde Andréa morava. Na volta do almoço, ela me contou que vivia sozinha numa quitinete da Rua Sousândrade, quase na esquina com a Avenida do Progresso. Ou seja, a menos de cem metros daquela calçada da Avenida Coimbra onde encontrei os livros de Camus, Lygia, Dionélio e Bocaccio. Assim, poderíamos continuar a nos encontrar, trocar ideias, falar de Kardecismo e Contabilidade. Andréa estava até querendo levar a minha nova namorada Fernanda para seu clube de leitura da obra de Simone de Bonvivant.


Na volta, Andréa entregou o pedido de demissão. O Dr. Décio Linhares ficou fulo da vida. Ao que parece, a sua permanência na SDSE (futuro DDSE) era imprescindível. Pelo que entendi, Andréa seria o único nome apto a assumir a chefia do setor, liberando-o para assumir um posto mais alto no organograma da Secretaria Municipal de Segurança Pública, Lazer, Saneamento e Habitação – o de Diretor Geral do Serviço de Esgoto, cargo até então ocupado pelo Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata.


— Você está proibida de pedir demissão! Eu é que vou demiti-la antes! Você poluiu o ambiente com seus cigarros insuportáveis, provocando uma doença nos pulmões do Sr. Geraldo, além de haver furado o carpete com a brasa. Não vou deixar você sair daqui impunemente!


— Preciso então ter uma conversinha com a dona Glaisy — disse Andréa, que não era de engolir desaforos.


Décio Linhares se retraiu e carimbou a segunda via do pedido de demissão. Como eu continuava distraído, lendo os créditos do LP, ele olhou para mim com ódio e me disse:


— Quanto a você, vou fazer da sua vida um inferno. Não haverá trégua. Aqui você não terá nunca amigos. Seu futuro, Januário, é o destino de todo otário: sem aumento de salário, será sempre um solitário.


Eu estava a ponto de mandá-lo tomar no cu, mas me contive. Afinal, ele tinha toda razão. Eu temia que chegasse esse dia. Enquanto Andréa estava afastada com licença-prêmio ou férias, eu ainda acalentava a esperança de que ela mudasse de ideia. Mas agora chegava o momento: eu ficaria definitivamente largado na SDSE, ao lado de três imbecis que nunca se interessariam por Led Zeppelin, Lima Barreto, Gentle Giant ou Virginia Woolf.

 

O futuro não é mais como era antigamente é o 22º episódio do seriado A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.


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