• Guilherme Purvin

02 - Jejuno

Dando prosseguimento ao nosso compromisso (e demonstrando o quanto somos perseverantes), reprisamos agora o segundo capítulo do romance "A Igreja do Gigante Azul" na seção VAPRENUVEM. Os mais atentos hão de notar várias mudanças de estilo. Até o título do capítulo foi alterado, o que comprova que teria sido muito prematura a publicação do romance ao longo de 2021. Para quem estamos mentindo? Esta é a vigésima mudança na redação e na estrutura do romance iniciado há uns oito anos!I Este é um romance em (trans)formação. Vamos ver se o Sr. Januário Ladeira tem fôlego para escrever até o fim desta vez. Guilherme Purvin


Índice: Capitulo 1 - O protagonista apresenta-se em terceira pessoa; Capítulo 2 - Jejuno; Capítulo 3 - ... - ... - Capítulo 22 - O futuro não é mais como era antigamente - Capítulo 23 - Leon Trotsky, 1917


Jejuno

(Capítulo 2 do romance "A Igreja do Gigante Azul")


Por: Guilherme Purvin




Posse

Sábado, 26 de abril de 1986, é dia de festa. Januário Ladeira assina o termo de posse no cargo de Auxiliar de Contabilidade. Comparecem à cerimônia de posse no Departamento de Pessoal da Secretaria de Segurança Pública, Lazer, Saneamento Básico e Habitação seus pais e seu irmão César (só ele, sem a mulher com quem casou), além do casal Melquíades (o chapeiro) e Lia. A cerimônia é simples, limita-se à assinatura de seu nome numa folha de papel e o diretor quer fechar logo a repartição e voltar para casa.

— Sob a perspectiva atuarial, tomar posse no dia de hoje é muito bom! Assim, ganho dois dias sem trabalhar — pondera este protagonista. — Mas, para efeito de contagem do tempo de férias, não terei nenhuma vantagem porque o dia 25 de abril de 1987, quando eu completar um ano de serviço, cairá num sábado.

Os seis voltam no caminhão do pai de Januário e vão comemorar a vida nova do rapaz em sua casa na Rua da Lama, com direito a sanduíche de metro da Padaria Santa Cecília, Fanta Laranja e Guaraná.

Naquele fim de semana, Januário sonha com a estabilidade, o prestígio e a remuneração.


Penetrando no recinto

Mas a ilusão logo será desfeita. A contrariedade começa no domingo, em San Marino. Ayrton Senna larga na pole e Nelson Piquet, em segundo lugar, mas quem leva os nove pontos é Alain Prost. E, no dia seguinte, ele fica conhecendo seu superior hierárquico, Dr. Décio Linhares – cuja função principal será tornar o ambiente de trabalho do novo auxiliar de contabilidade irrespirável.

Quando se lembra de seu primeiro dia de trabalho no SDSE — Setor de Dívida do Serviço de Esgoto, vêm à mente de nosso protagonista estas imagens:

a) uma mulher de cabelos lisos, pele cheia de acne e dentes amarelados, tragando um cigarro que morde no canto esquerdo da boca enquanto datilografa;

b) um cara de seus 35 anos que dorme reclinado em sua mesa, o rosto amassado sobre a máquina de escrever;

c) outro sujeito, na faixa dos 50 anos, muito magro, a afugentar insetos voadores inexistentes com tapas que dá no ar;

d) e, numa mesa atravessada que faz um ângulo de 45 graus com as paredes, um baixinho de cabelos loiros penteados de lado, palitando cuidadosamente seus dentes. Esse é Décio Linhares, o chefe, sentado sobre uma lista telefônica que coloca no assento de sua cadeira para tornar-se mais visível aos subordinados.

Januário entra em cena e apresenta-se como o novo funcionário da repartição. O chefe olha muito rapidamente para o rosto do honrado cientista atuarial e logo volta-se para alguns papéis sobre sua mesa.


O dente de Linhares

O jovem fica ali parado, sem saber o que fazer, até que Décio Linhares diz a ele, com toda seriedade:

— Acho que tem um dente cariado aqui.

Abre a boca e faz um sinal para que Januário se aproxime.

— Dá uma olhadinha pra mim. Está vendo? É bem no fundo. Não tem alguma coisa diferente?

O novato fica meio constrangido, sem saber se aquilo é algum trote de calouro, mas o chefe insiste, agora num tom autoritário. Com muito esforço, Januário balbucia:

— Não vejo nada.

— O senhor quer dizer que estou fazendo fita?

— De forma alguma, doutor. É que sou jejuno em odontologia.

— Jejuno? Que é isso? Seu Geraldo, veja aí em seu dicionário o que é que significa jejuno.

É o senhor descrito na letra “c” supra – magro, cabeleira espessa, espanta-moscas-invisíveis. Imediatamente interrompe sua agitação e corre para consultar um dos cinco volumes do Caldas Aulete que o protegem como uma trincheira dos olhares alheios. Dr. Linhares insiste:

— Olhe bem, deve haver algum dente com buraquinho.

— Que dente é? – pergunta Januário.

— Como posso saber o nome? Sei lá, canino, molar...

— Sinceramente, doutor...

Dr. Linhares ergue-se, irritado.


Apresentações formais

— Já vi tudo. Deixe-me apresentá-lo aos seus novos colegas de trabalho, que é mais útil. Esta é a Andréa Albuñuelas, formada em jornalismo e especialista em ofícios. Andréa, o Januário começa hoje, substituindo o Reverendo Oseias. Tem curso superior. Ciências Autuariais.

— Atuariais – corrige o rapaz, baixinho.

Andréa fita o novo colega com uma expressão sonolenta:

— Tome cuidado com os carpetes, estão rasgados e às vezes a gente tropeça.

Januário olha para o chão. O carpete cinza está todo puído, com rombos provocados por bitucas de cigarro. Começa a calcular quantos ácaros deve ter por centímetro quadrado. Quantas bactérias. Mas talvez a hulha, a nicotina e o alcatrão dos cigarros fumados ao longo de tantos anos tenham transformado aquela superfície irregular num extenso deserto inóspito para qualquer micro-organismo.

— Este é o Sr. Geraldo Moustique, o meu substituto na grade de chefia – prossegue o chefe. — Tudo o que se faz aqui, o Sr. Geraldo confere. Nada escapa. Tenha sempre isso em mente.

O Sr. Geraldo interrompe a pesquisa lexicográfica e, como um militar, ergue-se prontamente e estende a mão, cumprimentando-o:

— Seja muito bem-vindo ao Setor de Dívida do Serviço de Esgoto – diz, olhando para o auxiliar de contabilidade com muita seriedade. Januário mal tem tempo de estender a mão, já é arrastado para a mesa seguinte.

— E este é o Almir Blatta — Dr. Linhares chacoalha os ombros do funcionário que, assustado, empertiga-se:

— Está na hora do café? Preciso de mais café porque hoje o trabalho está sobrecarregando minha mente!

— Almir processa todas as coisas aqui. É incrível!

Por fim, o chefe aponta para uma mesa vazia, defronte a uma janela espelhada.

— Esta é a sua mesa de trabalho, Januário – e, num espasmo de riso: — Ou devo chamá-lo de Dromedário? Ahah!

Januário / Dromedário. O rapaz tenta rir do trocadilho estúpido, mas consegue apenas esboçar um sorriso constrangido. Já instalado em sua mesa, repete mentalmente os nomes dos novos colegas. Em seguida desenha numa folha de papel a disposição das mesas e os nomes de cada novo colega para memorizar. Ele sabe que não se deve nunca confiar na memória imediata, sobretudo quando o nosso hipocampo sofreu forte ataque na juventude por conta da inalação de supositórios veterinários. O Sr. Geraldo Moustique chega então à frente da mesa do Dr. Linhares e, ora dirigindo o olhar para o chefe, ora para o novo colega, diz em alto e bom tom, como se estivesse dando início a um pregão:

Jejuno. 1. Que está em jejum. 2. Em sentido figurado: que é leigo, ignorante em alguma coisa: Político jejuno em psicologia das massas. Substantivo masculino. 3. Anatomia. Porção do intestino delgado que se segue ao duodeno e antecede o íleo.

E Décio Linhares:

— Você está sem café da manhã, Januário? Foi isso o que você quis dizer? Está com fome?

Na verdade, Januário está jejuno em matéria gastronômica, mas isso não importa.

 

Jejujo é o 2º episódio do seriado A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros. Este capítulo sofreu já diversas modificações, sendo as mais recentes operadas em 27/1/2022 e hoje, 13/5/2022. Guilherme Purvin, por sua vez, é uma criação da D. Alice e do Dr. Guilherme Henrique.

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