• Guilherme Purvin

01 - O protagonista apresenta-se em terceira pessoa

Como prometido, reprisamos os primeiros capítulos do romance "A Igreja do Gigante Azul" nesta seção VAPRENUVEM. Os capítulos foramrevisados pelo autor, a onomástica dos personagens e a toponímia foram readequados. Diante disto, podemos afirmar aos leitores: Vale a pena rever novamente uma vez mais este romance em (trans)formação.


O Protagonista apresenta-se em terceira pessoa


(Capítulo 1 do romance "A Igreja do Gigante Azul")


Por: Guilherme Purvin




Geografia de Tijuco Verde


Esta história tem início no dia 26 de abril de 1986 e vai até 13 de setembro de 1987. O cenário é uma cidade chamada Tijuco Verde e o protagonista, sou eu, Januário Ladeira, àquela época com 29 anos.


A cidade divide-se basicamente em quatro áreas distintas: Bairro da Saúde, Vila Portuguesa, Vila Aimoré e Centro.


A área mais extensa corresponde ao bairro da Saúde, formado pela favela do Curto-Circuito, pelas ruas dos duendes e pelo lado mais chique.


Na margem direita do Rio Tijuco Verde fica o Morro dos Canudos, área distante das inundações e com uma paisagem privilegiada. No entanto, sabe-se lá por qual motivo, há anos decidiram instalar ali uma profusão de torres de alta tensão, com o que aquele espaço perdeu seu valor imobiliário, dando lugar a uma ocupação irregular, a Favela do Curto-Circuito.


Do lado esquerdo do Tijuco Verde e à direita do Córrego da Ratazana, seu afluente, fica a zona popularmente chamada de “ruas dos duendes” – denominação que será em breve explicada. É ali, na Rua da Lama, onde mora Januário, com seus pais e, até há bem pouco tempo, também com o seu irmão César. Na esquina da Rua da Lama com a Avenida Elias da Mata (que margeia o Córrego da Ratazana) acha-se instalada a Padaria Santa Cecília, onde o Sr. Melquíades Belafonte trabalha como chapeiro.


O Córrego da Ratazana, que divide a Avenida Elias da Mata em duas pistas, é a chamada “linha da miséria”. De um lado ficam as ruas dos duendes, a saber, as ruas da Lama, Paulo Borges, da Pomada e Mariana Garcia Torres, lado pobre. Todas elas começam na Avenida Elias da Mata, são cruzadas pela Rua Vladimir Garcia Magalhães e terminam no matagal que margeia o Rio Tijuco Verde, exceto a Mariana Garcia Torres, que termina no asfalto da Avenida do Progresso, diante do Depósito de Lixo Orgânico. Aquém da linha da miséria ficam as ruas dos ex-integrantes da Classe D, que trabalharam bastante, guardaram seu dinheiro na Caderneta de Poupança e finalmente ascenderam à Classe C na escala econômica da sociedade tijucoverdense. Esse lado esquerdo do Córrego da Ratazana é a zona menos degradada do Bairro da Saúde. São apenas quatro ruas entre a Av. Elias da Mata e a Av. Coimbra: as ruas George Harrison, Caito Gomide, Alfa e Mariana Garcia Torres (lado chique).


Ao atravessarmos para o outro lado da Avenida Coimbra, a história muda de figura. Ali começa a Vila Portuguesa, que abriga um condomínio residencial de luxo onde mora a nata da sociedade. Bom, começa em termos. Melhor seria dizer que ali fica o lado Leste da Muralha dos Templários, que rodeia todo o bairro, com residências amplas, piscina no quintal e garagem para doze automóveis. Embora ocupe uma área do tamanho do Bairro da Saúde inteiro, seus moradores correspondem a menos de 1% da população da cidade. Cada quarteirão conta no máximo com quatro casas.


No lado acessível da Vila Portuguesa, fora do confinamento do condomínio, bem na esquina da Avenida Coimbra com a Rua Viana do Castelo, fica a Organização Contábil e Imobiliária Duas Pátrias S/C Ltda., de propriedade do Sr. João Cabral, ex-empregador de Januário Ladeira.


Tijuco Verde tem também uma região central, onde se encontram a Igreja de Santa Cecília, o Shopping Center e os principais órgãos da prefeitura da cidade, dentre eles o Serviço Municipal de Esgoto, na Avenida Pero Vaz de Caminha, onde trabalha Januário Ladeira.


Por fim, temos a Vila Aimoré, um bairro de certa forma independente do resto da cidade, que se chega pela Avenida Pero Vaz de Caminha, ou pela estreita ruela da Biblioteca Municipal de Tijuco Verde. Esta região da cidade é controlada por Benedito Montana.


Jeremy Bentham e as Ciências Atuariais


Januário Ladeira é um abnegado cientista, tanto sob a perspectiva acadêmica como sob a profissional. Cientista atuarial, frise-se. Não fez amizades nos tempos da faculdade particular, que foi paga a durs penas por seu pai. Centrado nos estudos, apaixonou-se pelas sagas dos primeiros guarda-livros da história do Brasil. Folheando o “Manual do Escriptorio”, de Idelfonso de Souza Cunha, Januário se vê realizando a escrituração comercial de estabelecimentos do Rio de Janeiro à época de Dom Pedro II. Sonha ter um dia o seu nome gravado na História da Contabilidade do Brasil ou, pelo menos, de Tijuco Verde.

Para a quase totalidade das pessoas, a Contabilidade soa como algo estéril, mortalmente enfadonho, e que é essa chatice que faz com que as pessoas procuram um contador e paguem de bom grado para se verem livres do que consideram um tormento. Afinal, à exceção de Graciliano Ramos, quantas pessoas se deliciam com o preparo de uma declaração anual de imposto de renda? Por isso, Januário tem a convicção de que haverá sempre serviço bem remunerado para quem ama sinceramente as Ciências Atuariais e venera a figura de Gaspar Lamego, primeiro contador do Brasil, nomeado por Rei Dom João III no dia 5 de janeiro de 1549 para cuidar das contas do Governador Geral Thomé de Souza, na Bahia.

Ele não se limita a estudar a vida dos pioneiros da Contabilidade no Brasil ou a aplicar seus conhecimentos na área financeira e tributária. O que ele aprendeu na faculdade, aplica em sua própria vida. Rapidamente entendeu que, por meio das Ciências Atuariais, poderia certificar se, por exemplo, o número de momentos felizes num determinado ano de sua vida superou ou foi superado pelas tristezas e preocupações. Segue a doutrina de Jeremy Bentham: mede sempre os prós e os contras. O sistema não é infalível, mas ao menos o poupa do vexame de cometer impropriedades lógicas por conta de seu pequeno problema neurológico: a inflamação crônica no hipocampo.

Por meio de um trabalho diário de contabilização, muitas vezes Januário acaba se convencendo de que o bem-estar que está sentindo neste momento por conta do clima ameno, do brilho do sol, do canto dos pássaros, está longe de superar as noites sombrias de solidão e desesperança. A contabilidade emocional é análoga à comercial. O ingresso de um valor qualquer no caixa pode nos dar a ilusão de que o negócio vai bem, mas na verdade não passa de queima de estoque com prejuízo evidente.



Gestão de Resíduos Sólidos e Saúde Pública


Januário aplica seus conhecimentos atuariais até mesmo para a análise dos problemas ambientais e imobiliários de sua cidade. Guardar coisas inúteis tem um custo, por isso são tão importantes as duas áreas reservadas para o depósito de lixo na cidade, ambas no Bairro da Saúde. Numa delas à esquerda da Avenida do Progresso (marginal do Rio Tijuco Verde), próxima à sua casa, é despejado apenas o chamado lixo seco; na outra, à direita, no sopé do Morro dos Canudos, fica o lixo tóxico, orgânico e hospitalar. Espaços têm um custo. O Planeta Terra é finito. Até Tijuco Verde é finito. Não temos muitos lugares para depositar o lixo produzido diariamente, lixo que alimenta bactérias, vírus, bacilos, micróbios das mais variadas cepas, hospedados em ratos que transitam pelas ruas ocupadas por prédios públicos com marquises utilizadas para abrigar mendigos nos dias de chuva.


Tudo isso deve ser contabilizado. Na equação do mercado imobiliário, qual é a depreciação no valor de uma residência se, nas imediações, à noite, os ratos saem das tampas de esgoto, os sem-teto se alojam pelos cantos dos muros e um barzinho fuleiro toca música ruim até quatro da madrugada? Essas podem ser algumas das tarefas delegadas ao cientista atuarial que, obviamente, não deverá se restringir às regras das partidas dobradas. Não. Será preciso adquirir conhecimentos de microbiologia, de higiene social, psicologia, especulação imobiliária, será preciso sobretudo ter uma boa dose de sorte para estar no local certo, no momento correto, para se fazer notar perante o Dr. Basílio Brasílio Enéas Elias da Mata – diretor-geral do Serviço Municipal de Esgoto à época em que Januário ingressou no setor público.



Rudimentos de Administração Pública


Mas não coloquemos os carros na frente dos bois. Por ora, basta dizer que seu gosto pela Contabilidade foi, por muito tempo, o seu patrimônio intelectual mais caro. E foi essa paixão que o levou a prestar um concurso público para ingresso na Administração Pública Municipal, vindo a trabalhar no Setor de Dívidas do Serviço de Esgoto.


Cabe aqui uma brevíssima digressão de natureza administrativa. A Prefeitura Municipal de Tijuco Verde conta com três Secretarias. Uma delas é a Secretaria Municipal de Segurança Pública, Lazer, Saneamento Básico e Habitação, à qual está vinculado o Serviço Municipal de Esgotos. Este órgão, por sua vez, subdivide-se em três setores: o Serviço de Inspeção de Manilhas e Tubulações, a Procuradoria Geral e o Setor de Dívidas. O quarto setor foi desativado há dez anos (Serviço de Engenharia e Obras).



Microbiologia e Segurança Nacional


O Serviço de Esgotos é, no entendimento de Januário Ladeira, o mais importante órgão governamental do Município de Tijuco Verde, pois detém a palavra final em qualquer deliberação relacionada ao controle de bactérias, vírus, helmintos, protozoários e fungos.


Poucas são as pessoas que conhecem a diferença entre esses tipos de seres vivos. Há mesmo quem confunda helmintos com protozoários, desconhecendo que os ovos e larvas produzidos pelos primeiros só se desenvolvem ao serem lançados no ambiente pelas fezes, ao passo que os protozoários vivem no interior do hospedeiro. Por outro lado, se ninguém vai contrair cólera ou sífilis por haver sido contaminado por um fungo, isso não o torna menos perigoso.


Januário conhece razoavelmente o tema e sabe identificar o que pode provocar malária, meningite, febre amarela, candidíase ou cisticercose. Mas não será necessário estudar com profundidade Biologia para se desvendar as tramas desta história. Basta, por ora, saber que esse caldo biológico pode ser extremamente perigoso. Nosso empenhado contador está plenamente convicto de que, nas mãos de munícipes mal-intencionados, o esgoto não tratado pode ser utilizado como verdadeira arma biológica. Alguém se lembra da sopa primordial, aquele caldo que, submetido a radiação ultravioleta e a descargas elétricas no ambiente controlado de um laboratório, dava origem a coacervados? Pois bem, cesse tudo o que os compêndios escolares de biologia cantam: a densa pasta que escorre pelos canos de esgoto não gera meros coacervados. Januário é uma das únicas pessoas na cidade que sabe ter ela potencial suficiente para atingir toda a população de Tijuco Verde, provocando doenças e mortes em massa.


É aqui que entra o Serviço de Esgoto. Por tratar-se de um trabalho realizado nos subterrâneos, pouquíssimos são os que têm consciência da real dimensão do poder de fogo deste órgão para o qual ele oferece a sua modesta contribuição acadêmica. Antes dele, outra pessoa também estava atenta a isto: Oseias Ascensão, a quem nosso herói substituiu no Setor de Dívidas. Mas este livro não vai entrar em detalhes sobre a vida desse ex-funcionário do Serviço Municipal de Esgoto, hoje um bem-sucedido pastor.


Januário defende os munícipes das ameaças de uma guerra bacteriológica. Não exatamente na linha de frente, exterminando os agentes patológicos, mas nos bastidores. Sua aprovação no concurso público foi a realização de um sonho, pois até então, a serviço da Organização Contábil e Imobiliária Duas Pátrias, o dinheiro que recebia mal dava para o ônibus. O novo emprego estável, agora, permitirá que ele se afaste da influência nefasta de Benedito Montana, amigo da época da banda Lá Bemol. Teremos, porém, oportunidade de falar bastante sobre a vida musical de Januário. Por enquanto, vamos nos concentrar em sua vida profissional - ou seja, a minha.


 

O Protagonista apresenta-se em Terceira Pessoa é o 1º episódio do seriado A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.

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