• Guilherme Purvin

35 - Notícias de Goiânia e do interior da Romênia



- Guilherme Purvin -


O Jornal Nacional trazia notícias alarmantes sobre um acidente ocorrido em Goiânia. Um aparelho de radiologia havia sido abandonado no meio de um depósito de ferro velho e alguns catadores resolveram abri-lo, sem saber que ali dentro havia uma substância altamente radioativa chamada Césio 137. Por ser um pó azul e luminoso muito bonito, o material foi levado para dentro das casas dos catadores. Januário lembrou-se das queixas de seu amigo Melquíades no ano anterior a respeito do subdesenvolvimento nacional, quando falava sobre o desastre nuclear de Chernobyl. Era agora a vez do Brasil entrar nos noticiários internacionais: não era, evidentemente, uma grande usina, mas um refugo de algum hospital goiano. No entanto, a contaminação era expressiva e os especialistas já falavam sobre a iminência de mortes e o crescimento de vítimas de neoplasias malignas causadas pela exposição ao material radioativo naquela região do centro-oeste brasileiro.


Para quem vive em Tijuco Verde, uma notícia sobre algo ocorrido num lugar tão distante, onde não conhecíamos ninguém, parecia irrelevante. Importava, sim, é que eu iria ser pai dentro de sete meses. Posso dizer que essa novidade modificou totalmente o meu ciclo de inflamações no hipocampo. Agora Fernanda precisava estar sempre junto de mim, ou melhor, agora eu não conseguiria mais ficar um só instante longe dela, sob o risco de perder as etapas da formação de nosso nenê. À noite, chamei o Biriba para um papo na cozinha do sobrado da Monsaraz que dividíamos.


– Nathan, meu amigo, preciso ter uma conversa muito séria com você.


Biriba teve um sobressalto. Era a primeira vez que eu o chamava pelo nome verdadeiro.


– É alguma revelação bombástica de final de novela?


– Final de novela como?


– Sei lá, Januário. Uma conversa muito séria, isso é um tanto assustador!


– Não é assustador, mas é importante.


Ele tirou do bolso de trás de sua calça um envelope e estendeu a mão para mim.


– Será mais importante do que a notícia que eu trago lá da Rua da Lama?


Apanhei o envelope. A letra era de meu pai. Abri a carta, ansioso. Li uma, duas, três vezes seguidas. Como eu bem desconfiava, ele jamais havia morrido. Na verdade, papai explicava na carta, tudo não passou de um tremendo golpe contra os porcos capitalistas: sua vida e seu caminhão estavam segurados e então bastou ele atirar o veículo naquele pântano e sair de circulação. Como já sabia que mamãe não estava mais muito a fim dele, parecia enfeitiçada pelo mecânico filho da dona Sara e, para dizer a verdade, nem ele estava mais a fim dela, resolveu mudar-se para longe, cuidando antes de deixar a família numa situação financeira mais confortável. Hoje ele está morando num vilarejo ao norte da Romênia, próximo à divisa com a Moldávia, chamado Eşanca, onde dá aulas de Português e Mecânica de Automóveis num grêmio de terceira idade. Deixava o endereço para mim e me convidava para ir visitá-lo ou, quem sabe, mudar-me para lá. A língua romena, explicava, não era tão difícil de aprender, também era neolatina, como o português e o italiano. Por fim, pedia para dar notícias sobre o que acontecia por aqui, sobre o César, o Melquíades, a Joaninha Belafonte e mamãe. Coloquei a carta de volta no envelope.


– Como você conseguiu essa carta, Biriba?


– Sua mãe pediu-me para entregá-la a você. São boas as notícias?


– Sim, são ótimas. Mas me diga, por que ela pediu para você entregar? Por que não entregou ela mesma a mim? Afinal, Biriba, me explique melhor essa sua amizade com minha mãe.


– Vou explicar. Mas antes você tinha alguma coisa importante para falar comigo.


– Bom, é simples. A Fernanda precisava vir morar comigo e você tem que dar o fora.


Mas o Biriba sempre foi muito habilidoso em negociações. Acabou me convencendo que eu precisava de um novo pai e que ninguém melhor do que ele para desempenhar esse papel.


– Você, meu novo pai, Biriba? Tá doido? Você é mais novo do que eu! E meu pai não morreu, ele está morando na Romênia!


– Pai em sentido figurado, Januário! Eu quero ser o companheiro de sua mãe.


– Sei. E o que eu tenho a ver com isso? – respondi, irritado com a ousadia.


– Tem a ver com o filho que você e a Fernanda vão ter. O sobrado da Rua da Lama não é mais habitável. O nenê vai precisar de vovô e vovó presentes. Minha proposta é que nós quatro moremos juntos: você, Fernanda, sua mãe e eu.


– Aqui no sobrado? Que ideia mais idiota!


– Posso lhe dar argumentos contábeis!


– Estou esperando.


– Ora, quatro pessoas cuidam de um nenê duas vezes melhor do que um casal. E minha mãe, sabendo que irei me casar com a sua e que vou me tornar avô antes mesmo de ter me tornado filho, ficará tão feliz que nem vai mais querer cobrar aluguel da gente!


A lógica do Biriba foi irrefuível. Poderíamos repartir todas as despesas (o seguro de vida de papai seria bastante alto para os nossos padrões) e compartilharíamos o trabalho diário.

 

Notícias de Goiânia e do interior da Romênia é o 35º capítulo do romance A Igreja do Gigante Azul. Guilherme Purvin é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros.

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