• Guilherme Purvin

Nos tempos em que o humor era possível (2)

- Guilherme Purvin -


(Parte 1)


É curioso (e até certo ponto triste) observar que, a despeito do romance de Umberto Eco, parece persistir no meio acadêmico um certo constrangimento quando se vai falar sobre comédia, riso, humor. Aceita-se, é certo, a chamada “ironia fina” de um Eça de Queirós ou um Machado de Assis. As passagens mais conhecidas de Memórias Póstumas de Brás Cubas são exemplos dessa forma de humor. Exemplo: “...Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos”. No entanto, ainda não conheço autor que abrace sem pejo o objeto de estudo, sem que ao menos uma vez faça a ressalva de que o tema é menor. A impressão que dá é que persiste, passados 25 séculos, a definição de Aristóteles: estamos tratando dos “homens piores” e de seu ridículo, não dos grandes exemplos a serem imitados pela humanidade.


Apesar de tudo, a bibliografia sobre o tema é cada vez mais caudalosa e respeitável. O consagrado filólogo russo Vladimir Propp dedicou-se ao tema em seu livro “Comicidade e Riso”. Terry Eagleton, por sua vez, lançou em 2019 o excelente estudo “Humour”. Aqui no Brasil, vale citar ”Humor e tristeza: O direito de rir”, de Yves de La Taille, bem como “Humor, língua e discurso”, de Sírio Possenti”.


PROPP (1992:15) afirma:


“À primeira vista, um levantamento sumário das teorias correntes sobre a comicidade oferece um quadro não muito satisfatório. Involuntariamente surge a questão: é realmente necessária uma teoria? Houve muitas teorias. Vale a pena acrescentar mais uma às inúmeras já existentes? Quem sabe tal teoria não passe de um jogo do intelecto, uma escolástica morta, um filosofema inútil para a vida? À primeira vista, o ceticismo pareceria ter certo fundamento. Com efeito, grandes humoristas e satíricos saíram-se muito bem sem qualquer teoria. Dispensam-na também humoristas profissionais contemporâneos, escritores, homens de teatro, de cinema, de teatro de variedades, de circo. Entretanto, isto ainda não significa que a teoria não seja necessária. A teoria é necessária em qualquer campo do conhecimento humano. Nenhuma ciência pode dispensá-la em nossos dias. A teoria tem antes de mais nada uma importância cognoscitiva e o conhecimento dela constitui, de um modo geral, um dos elementos da concepção científica do mundo.”


Concordo plenamente com a lição do filólogo russo. E vou um pouco além da Teoria Literária para adentrar no campo da Psicanálise: a relevância do estudo é tamanha que o próprio criador desta ciência se debruçou sobre a matéria, em seu livro “Os chistes e sua relação com o inconsciente”. Nesse sentido, eu me pergunto: por que sentia tanto prazer na leitura, mesmo já no final da adolescência, dos livros que minha irmã caçula Ligia lia com tanto interesse, em especial a série da Vaca Voadora, da escritora Edy Lima? Ou, aos 35 anos, em praticamente toda a obra infantil de Monteiro Lobato, lida em voz alta para o meu filho de quatro anos?


Embora seja reconhecida a importância das obras fundantes da Literatura Brasileira (do Arcadismo e do Romantismo) – afinal, sem elas, seria outra a produção de Machado, Lima Barreto ou Mário de Andrade - , não é menos verdadeiro que o humor, a paródia e a ironia foram estigmatizadas. É de se indagar se não teria havido um apagamento histórico, da mesma forma que hoje se sabe no que diz respeito à literatura de autoria feminina, de obras paródicas, sátiras e simples divertimentos destinados ao riso. Ainda conheceríamos as “Cartas Chilenas”, tivessem elas sido escritas por outra pessoa que não o autor de Marília de Dirceu? Não é absurdo supor que muitos excelentes escritores e escritoras bem-humorados tiveram o mesmo destino editorial que teve politicamente nosso herói Tiradentes. Sobreviveu a sisudez.


Já caminhando para a idade do Conselheiro Aires, me sentindo um pouco Camões no que diz respeito à visão e um pouco Beethoven em termos auditivos, continuei descobrindo obras primorosas: Lawrence Sterne, James Joyce, Italo Calvino, Thomas Pynchon, dentre outros. Minha mais recente descoberta foi a genial Olga Tokarczuk, que recebeu merecidamente o Nobel de Literatura em 2018. Há alguns anos, acabei até descobrindo que um dos mais consagrados mal-humorados de nossa literatura, ninguém menos do que Graciliano Ramos, de Vidas Secas, Angústia e São Bernardo, também se dedicou a algo mais leve em seu livro Alexandre e outros heróis. Igualmente, na obra de Guimarães Rosa podemos encontrar muitas passagens graciosas e divertidas. Exemplo: o conto “Famigerado”, incluído em suas Primeiras Estórias.


Com uma falta de noção própria de estudante de graduação, pensei em seguir a as mesmas diretrizes de meus escritores preferidos. Nos tempos de graduação em Direito no Largo São Francisco, escrevi duas peças para o grupo de Teatro do XI de Agosto: Vamos comer pedregulhos? (encenada em 1978 e 1979) e O fantasma de Magali Bertée.


Em Vamos comer pedregulhos?, dirigido por João Luís de Oliveira Joy, o tema central era o impasse enfrentado pelo próprio grupo de teatro universitário (Cássia, Max, Zeca e Veva) na escolha de uma peça teatral. Escrevi-a porque acompanhava o impasse enfrentado pelo elenco, que não encontrava um texto que atendesse aos seus anseios. Até o número de personagens foi encomendado – ao final, foi acrescido um personagem, o “Sr. Responsável”, em vista da entrada de uma nova colega (Desirée) no grupo do XI de Agosto. A peça era repleta de ironias a respeito de clichês: uso excessivo de slow motion, metáforas incompreensíveis, agressões verbais ao público presente, justiça poética, exortações catárticas para a luta política nos limites de uma representação etc. Folheando hoje o texto daquela peça, percebo com maior clareza como determinados temas, tratados de forma humorística, envelhecem e perdem a graça. Um incidente ocorrido na estreia da peça, porém, ainda hoje pode ser objeto de riso: como se sabe, uma das formas de desejar sucesso no meio teatral é dizer aos atores: “Merda”. Ou, mais elegantemente: “Quebre uma perna”. Pois bem, ao final da peça, os atores comemoravam festivamente o sucesso da apresentação no palco da Sala do Estudante, no Largo São Francisco quando o responsável pela iluminação (Ivan), atabalhoadamente, dando pulos de alegria, pisou na perna de uma das atrizes (Veva). No caso, a neurolinguística foi mais poderosa do que a superstição... O que ficou de melhor daquele trabalho foram as musiquinhas despretensiosas que compus para a peça.


Já em O fantasma de Magali Bertée, a ideia era de parodiar o momento político da época, com personagens-tipo – um pai militarista, uma mãe grã-fina arrogante, uma esquerda cautelosa e nada revolucionária, uma classe média medíocre (o que é quase um pleonasmo), todos ao redor de uma garota representando o próprio país – Brigitte Omphalus, deitada eternamente em berço esplêndido. As gags perderam sua atualidade. Se havia a intenção de satirizar a extremada cautela do velho Partidão à época, a graça somente era dirigida ao público trotskista da Libelu. Felizmente ou infelizmente, a peça jamais levada a público, embora tenha sido ensaiada exaustivamente por pelo menos dois diferentes grupos de teatro no período de 1979/1980 – num deles, eu reincidia na dramaturgia, no papel do General Augusto Omphalus, pai de Brigitte e marido de Manuela.


Essas peças envelheceram e, em minha avaliação, perderam totalmente sua graça – isto se alguma vez a tiveram. Talvez ríssemos porque estávamos vendo a nós mesmos ali, jovens estudantes de esquerda buscando um espaço para manifestação livre, em oposição ao regime de horror e repressão política da época. Ou, quem sabe, nossas gargalhadas vinham em substituição ao choro. Terry Eagleton mostra a semelhança entre o riso e o choro, lembrando o neologismo laughtears, criado por Joyce em Finnegans Wake e passagem de Molloy, de Samuel Beckett: “[ Beckett writes ] of a Woman whose dog has just died that ‘I thought she was going to cry, it was the thing to do, but on the contrary she laughed. It was perhaps her way of crying. Or perhaps I was mistaken and she was really crying, with the noise of laughter. Tears and laughters, they are so much Gaelic to me’”. Numa tradução despretensiosa: ([Beckett escreve] sobre uma mulher cujo cachorro acabou de morrer (e) que 'eu pensei que ia chorar, era a coisa certa a fazer, mas pelo contrário ela riu'. Talvez fosse sua maneira de chorar. Ou talvez eu estivesse enganado e ela estivesse realmente chorando, com o barulho das risadas. Lágrimas e risos, eles são tão gaélicos para mim'" (2019:5,6).


Sendo assim, cabe a pergunta: haveria alguma situação em que o humor seja moralmente condenável?

 

Guilherme Purvin é escritor, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros. Graduado em Letras e Direito pela USP, doutor em Direito Ambiental. Presidente do IBAP. Fundador e ex-coordenador geral da APRODAB. É editor da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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