• Guilherme Purvin

Cheiro de chocolate e outras histórias - Roniwalter Jatobá


Nos idos de 1975-1976, ainda antes de ingressar na faculdade, eu era um dos assíduos leitores de uma revista literária que marcou época: "Escrita", publicação da Editora Vertente e dirigida pelo escritor Wladyr Nader. E foi numa das edições mensais da "Escrita" que conheci o trabalho de Roniwalter Jatobá de Almeida - um pequeno volume em papel-jornal, encartado à revista, encadernado com grampo e com as dimensões de um gibi do Pato Donald e com o estranho título Sabor de Química. A obra havia obtido o primeiro lugar no concurso de contos daquela revista. Dois anos mais tarde, com suas Crônicas da Vida Operária, Roniwalter seria um dos finalistas do famoso prêmio "Casa das Américas", de Cuba, tendo sido mencionado por ninguém menos do que Jorge Luís Borges.

Foi por volta de 1977 ou 1978 que vim a conhecê-lo pessoalmente, quando fui, com um grupo de amigos que estudavam comigo no Largo São Francisco, entrevistá-lo para a nossa revista universitária.

Estou agora com um novo livro de contos nas mãos - um dos vencedores do Prêmio Jabuti de 2013: Cheiro de chocolate e outras histórias. O título evoca imediatamente a sua obra de estreia, não apenas pelas relações sinestésicas (sabores e cheiros) mas pelo objeto sentido: a cidade de São Paulo.

O "sabor" da comida contaminada por produtos químicos da poderosa e avassaladora "Nitroquímica" - indústria que se instalou no distante bairro de São Miguel Paulista, Zona Leste de São Paulo, nos idos da década de 1950, e que, em seu primeiro dia de funcionamento, causou a morte biológica do Rio Tietê. Já no conto que dá o título ao novo livro de Roniwalter, o cheiro não vem da periferia, mas do luxuosíssimo bairro do Itaim Bibi. É, mais do que cheiro, perfume que vem à memória de um personagem que teria frequentado a região na época em ali funcionava a antiga fábrica de chocolates Kopenhagen.

Pode-se dizer, portanto, que ainda estamos lendo Roniwalter Jatobá - mas agora quem fala é um escritor consagrado, autor de dezenas de livros. Um autor que faz questão de manter vivas as lembranças das primeiras sensações que teve ao chegar a São Paulo (o conto "Aves de arribação" é uma micro-saga da vida dos imigrantes brasileiros, sobretudo - mas não apenas - dos nordestinos) mas que já não se constrange em também situar sua ficção em cenários frequentados pelo que há de mais típicos na elite paulistana: da Rua Joaquim Floriano à Avenida Paulista.

Guilherme Purvin

(Texto originalmente publicado em 10 de novembro de 2015)

27 visualizações

© 2023 por O Artefato. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W