• Guilherme Purvin

Influência do quimbundo na formação da língua portuguesa do Brasil

- Guilherme Purvin -

Existem certas palavras engraçadas na língua portuguesa. Uma delas é bambambã – o maioral, o mandachuva. Outra delas é moleque – menino, garoto. Isso sem esquecer o verbo xingar que, provavelmente, jamais será encontrada nos romances de Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e Alexandre Herculano. Todas elas vêm do quimbundo. Portugueses insultam, ofendem, blasfemam. Os brasileiros, em boa parte formado por descendentes de angolanos, preferem xingar, pura e simplesmente.


Quando moleque, Pedro era o bambambã na rua em matéria de palavras complicadas. Ninguém na turma o superava em agilidade e erudição. Sabia, por exemplo, o que era berílio, elemento químico de número atômico 4, da família dos alcalinoterrosos. É muito usado em ogivas de foguetes, molas de relógio e reatores atômicos. Com o pesado volume cor de laranja do Dicionário Houaiss, na sala de casa, aprendia novas palavras e as experimentava em público.


Resolveu ir brincar na rua.


— Vamos jogar bola, Carlos?


— Não posso, Pedro. Minha mãe não deixa. Tenho que terminar a lição.


— Mas isso é dirimível!


— Ah, então espera! — e Carlos fugia de casa pela janela do sobrado, pulando sobre a laje e, dela, para o muro e a rua.


Quando a mãe de Carlos soube que o filho estava na rua brincando, ficou fula da vida. Com o cigarro preso no canto da boca, arrastou o menino, puxando-o pelo braço.


—Você vai levar uma surra quando chegar em casa. Vai se arrepender de ter me desobedecido.


— Mãe, não é culpa minha! Foi o Pedro! Ele me disse que terminar a lição era dirimível!


O sangue subiu à cabeça da mulher, que foi imediatamente tocar a campainha da casa da mãe de Pedro.


— Boa tarde. Quero fazer uma reclamação muito séria. O seu filho Pedro disse ao meu filho que terminar a lição era dirimível. Acho que isso já passou dos limites. Eu vou ter que proibir meu filho de brincar com o seu.


A mãe de Pedro ficou desconcertada e acareou o filho.


— Onde é que você aprendeu a falar uma coisa dessas?


— Está no dicionário, mãe!


A mulher pediu para a vizinha entrar. Tomariam um café e resolveriam o problema diplomaticamente. O problema todo, ao que parecia ser, era o acesso ao dicionário. Enquanto aquecia o café e os amigos folheavam o álbum de figurinhas, as duas vizinhas resolveram procurar o significado da palavra. Dirimível: que pode ser dirimido. Continuavam na mesma. Dirimir: impedir totalmente, obstruir. A ditadura dirimiu o funcionamento do congresso.


— Está vendo o descaramento de seu filho? Ele disse para o meu Carlinhos que iria impedir totalmente meu filho de terminar a lição!


— Não foi isso. Veja, o dicionário diz que essa palavra também tem outro sentido – tornar nulo, suprimir, extinguir, desfazer. O tribunal dirimiu a sentença condenatória.


— Aí piorou! Ele ameaçou o Carlinhos de desfazer a lição de casa!


— Como é que o Pedrinho poderia ameaçar de desfazer uma lição se essa lição nem tinha sido feita? A senhora está sendo injusta com o meu filho!


— Pedrinho... Pois sim, a senhora trata seu filho como se fosse um nenê ainda.


— E a senhora também. Carlinhos... Ele já tem idade para saber se defender. Aliás, o Carlos é dois meses mais velho do que o meu filho!


— Como a senhora quiser. Mas fique sabendo que vou dirimir meu filho de brincar com o seu.


— Faça o que bem entender. Qualquer decisão sua nesse sentido poderá ser dirimida, já que eles são amigos independentemente do que a senhora ou eu decidirmos.


Apesar da discussão, as duas continuaram tomando café normalmente. Em seguida, conversaram sobre a novela Amor de mãe e sobre o preço da carne.


— Eu pensei em fazer uns bolinhos de chuva, mas estou sem canela em pó.


— Não seja por isso. Carlinhos! Vá lá em casa e traga aqui um saquinho de canela em pó. Está no armário onde fica a pimenta, o sal e o orégano. Traz aqui que a mãe do Pedro vai preparar uns bolinhos.


Daí a meia hora, as duas mães e os dois filhos, refestelados na mesa da cozinha, tomavam chá mate e comiam bolinhos. A vizinha então cobrou esclarecimentos diretamente do filho da amiga:


— Pedro, seja sincero. Você disse que ia impedir totalmente o Carlinhos de fazer a lição de casa? Ou na verdade você quis dizer que o Carlos deveria fazer e desfazer a lição várias vezes, para fixar mais na cabeça?


— Eu não disse isso! Eu disse que aquilo era dirimível, que dava pra resolver o problema.


A mãe do amigo não se conteve e falou para a mãe de Pedro:


— Sabe o que eu acho? Eu acho que a culpa é da senhora, que não deixa o dicionário num lugar mais alto. Tem certas coisas que não se deve deixar acessíveis às crianças. Remédios, revólver... Dicionário não é livro para crianças ficarem brincando. Criança tem que ler só os livros da própria escola.


A vizinha achincalhava a mãe de Pedro em sua própria casa, arvorando-se no direito de ensinar como deveria educar o filho! Pedro percebeu que a descompostura deixou sua mãe humilhada e jurou para si que não iria deixar aquilo passar impunemente.


No dia seguinte, Pedro reparou que o Houaiss havia sido colocado numa prateleira mais acessível. Os sinais eram claros: a mãe estava de seu lado. Haveria de vingar a sua honra ultrajada. Estava fascinado com a descoberta de que dicionários não são coisa para criancinhas, são como remédios e armas! Cada verbete escondia um mistério que só poderia ser decifrado na vida adulta.


Pedro sabia também que a sua casa era a única que tinha dicionário. Com aquela quantidade de palavras, logo ficaria conhecendo todos os segredos da vida! Como poderia atacar dona Luzia com palavras? A resposta era óbvia: xingando-a. Iria ofendê-la, descompô-la, destratá-la, afrontá-la.


Pedro, porém, não era um moleque qualquer, era o bambambã da palavra. Estudou a fundo a vingança, folheando o papel de seda daquele enorme livro, até que, por mero acaso, descobriu que o dicionário também tinha um montão de palavrões.


Bosta, merda... Não, precisava ser algo mais forte, uma agressão que haveria de fazer aquela vizinha pensar duas vezes antes de vir humilhar sua mãe enquanto comia bolinhos de chuva e tomava chá mate. Pensou, pensou e por fim escolheu a palavra que lhe pareceu mais sonora. No fim do dia, apanhou a bicicleta e começou a correr ladeira abaixo diante da casa de dona Luzia, que conversava com as amigas:


— Horizontal! Murixaba! Zabaneira!


As mulheres não prestavam atenção para Pedro. Ele dava a volta, subia de novo descia em disparada até chegar a elas:


— Messalina! Vulgívaga! Pécora!


Nada. As mulheres continuavam impassíveis, proseando sobre a novela Amor de mãe. Cansado, Pedro desceu mais uma vez, montado em sua bicicleta. O vocabulário estava no fim.


— Rameira! Impudica! Quenga!


A mãe de Carlos ficou lívida.


— O que você disse, moleque? Você me xingou de quenga?


Pedro não imaginava aquela palavrinha originária do quimbundo fosse popular. Por razões diplomáticas, sua mãe precisou simular que estava brava com o filho. Era altamente reprovável chamar a vizinha de quenga. Por isso, naquele dia ele iria imediatamente para seu quarto e não receberia sobremesa aquele dia. Bem, na verdade, só receberia um pouquinho, metade da fatia de pudim de leite condensado, para aprender a respeitar os mais velhos. Mas o Houaiss continuaria na estante, inteiramente acessível. Amor de mãe é incondicional.




São Paulo, 5 de janeiro de 2020

Guilherme Purvin é escritor.


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