• Guilherme Purvin

Erro de paralaxe

- Guilherme Purvin -

Em primeiro lugar gostaria de esclarecer que não sou nenhum especulador imobiliário. Essas casas que volta e meia compro e que acabo abandonando pela cidade, vazias, sem uso, não se destinam a revenda. Eu simplesmente esqueço que as comprei, da mesma forma que algumas pessoas esquecem que compraram um livro ou um DVD. Mas, quando me lembro de alguma delas, é sempre uma alegria entrar na casa e rever objetos que já estavam perdidos nos recônditos de meus neurônios. Poucas são as pessoas que sabem o quão reconfortante é, nessas madrugadas de bebedeira solitária em lugares ermos de São Paulo, não precisar ir à busca de um táxi, só para voltar à nossa única casa.

Vamos, porém, aos fatos.


Lá pelas bandas da Rua Borges Lagoa, Marina realizava um vídeo sobre a vida na cidade em altas horas da madrugada. Ela caminhava por diversas ruas de seu bairro, expondo suas opiniões pessoais ao seu público cativo. A pequena e eficiente câmera ficava presa no alto de seu capacete, registrando o que ela via, porém com um discreto desvio, já que seus olhos estavam uns dez centímetros abaixo da lente. A ideia era de colocar esse vídeo no Facebook. Todos baixariam a filmagem em seus computadores e tablets (lembram-se deles?), podendo também ter uma noção aproximada do que ela havia experimentado.

“As luzes de São Paulo a esta hora da madrugada, quase ninguém nas ruas, são mais intensas. O silêncio surpreende a cada instante”, diz Marina no vídeo, no exato momento em que, à sua frente, Filó é agarrado por quatro sujeitos e jogado num camburão.

A captura de Filó foi em si um equívoco. Depois que mataram um policial militar em Itaquá, a corporação colocou informalmente sua cabeça a prêmio: quinhentos reais a quem a localizasse ainda naquele dia e, com uma machadada certeira no pescoço, entregasse o troféu ao comandante da corporação. A bem dizer, Filó não tinha absolutamente nada a ver com a morte do PM e, se alguém o identificou na região, foi só porque ele estava voltando do trabalho e parou para tomar um café no boteco do Sr. Pereira. O que é que Filó estava fazendo no bairro de classe média onde morava Marina, às quatro da madrugada? Provavelmente procurando um lugar para se esconder, pois de alguma forma chegou aos seus ouvidos que seria caçado.


As imagens do vídeo de Marina nos confundem. Absorta com suas reflexões sobre as luzes iluminando as paredes das casas e edifícios, ela mesma não repara que Filó está sendo sequestrado. E eu, acompanhando a sua onda, também não me dou conta desse detalhe na filmagem. É o risco que esse vício traz: caminhar com os olhos na tela do celular que transmite o vídeo de alguém também caminhando. Perde-se a noção de qual é a imagem real de sua caminhada, se a das imagens tridimensionais ao redor da tela ou a do vídeo. No meio dessa confusão, entra-se numa casa de estranhos. O espectador encontra a porta aberta, se instala no sofá dessa casa (não me lembrava desse estofado, deve ter vindo com a casa), abre uma garrafa de Old Eight (eu teria comprado um Chivas, mas quem sou eu para reclamar a uma hora dessas?) e, inesperadamente, recebe uma ligação de sua namorada, no mesmo instante em que dois pedreiros começam a pregar grossas tábuas na porta, impedindo sua saída.


“Como você sabia que eu estava nesta casa da Natingui, meu amor? Acabei de entrar!”


“É o único telefone que você me passou, Filó”.


Foi o filme de Marina que causou toda essa confusão: eu caminhava pela Vila Madalena mas meus passos obedeciam a geografia da Vila Clementino, repartindo a atenção ao meu smartphone sintonizado no vídeo de Marina com a visão presencial e em tempo real da rua. Não me dei conta da abordagem de Filó pelos quatro sequestradores, acabei saindo da rota e achando que havia entrando numa das várias casas que costumo adquirir e que depois esqueço que comprei.


“Espere um pouquinho, minha namorada! Preciso ver o que esses homens estão fazendo! Eles querem vedar a porta de casa!”


“O que vocês estão fazendo? Quem deu a ordem de lacrar minha casa?”


“Se o senhor está incomodado, ligue para o 1-9-0”.


Bem que Filó tentou. O problema é que, bêbado do jeito que estava, sequer conseguia acertar três números. Ainda por cima o aparelho era de disco! O serviço foi feito com rapidez: um lenço com clorofórmio no nariz. Os caçadores enfiaram seu corpo num saco de lona e o levaram para um matagal próximo a uma lagoa. Tecnicamente, aquilo não era uma lagoa, deveria ser chamada de alverca, pois não passava de uma grande poça que havia restado depois da retificação de um meandro do Rio Tietê — um lugar onde a prática de surfe seria muito improvável (o que explicava o abandono de duas pranchas verdes no local).


Com o auxílio de um machado bem afiado, arrancaram a cabeça. Os outros golpes foram pura morbidez. Deceparam as duas pernas e as levaram embora, não se sabe pra que fim. Movi meus braços para os lados, tateando o terreno encharcado, até alcançar uma caixa de papelão. Estava tão envergonhado com a confusão de endereços que, se de posse de minha cabeça estivesse, naquela embalagem a meteria.


São Paulo, 5 de janeiro de 2001



1 visualização

© 2023 por O Artefato. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W