• Guilherme Purvin

A Cura da Cárie


- Guilherme Purvin -

O marido de Manólia era Custódio Riobaldo Lampedusa, dentista que praticava o ofício no consultório que restou depois que foi derrotada a Força Aérea Latino Americana na Ilha de Cáries. Entendia mais de formão, marreta e solda do que de higiene bucal propriamente dita. Sim, é preciso reconhecer que ele podia não ser lá muito caprichoso na técnica da retirada do algodão com antisséptico de dentro do dente cariado, mas o desastre mesmo era na hora de abrir e de tapar o buraco. Não suportava reações dos clientes ao seu trabalho, que considerava primoroso. Costumava esculpir legumes com formato de dentes gigantes para exercitar seus dons de escultor com a goiva. Lógico que bocas verdadeiras não eram tão agradáveis: em cenouras e nabos não escorre sangue nem saliva, a luz é bem distribuída, ninguém grita de dor e não há o risco duma mordida. Por isso, sempre que era possível escolher, optava pelo legume em detrimento do paciente cariado.


Uma bela tarde de sol cáustico, Custódio Riobaldo Lampedusa estava atendendo um bulbo de nabo, quando tocou o telefone. Sem recepcionista desde que Ilha de Cáries declarou sua independência da América Latina, muito contrariado, interrompeu a escultura leguminosa e recebeu a notícia alarmante: do outro lado, no continente, um gigantesco incêndio consumia todas as florestas, bibliotecas e universidades. Até aquele momento, Ilha de Cáries havia sido poupada devido à posição geográfica privilegiada, mas a ligação telefônica era enfática: centenas de fagulhas haveriam de chegar lá, de uma forma ou de outra, atravessando a Avenida das Águas Informais – A.A.I., nome que a Companhia de Engenharia de Tráfego dava ao mar da lama tóxica produzida pela Companhia Mais Vale e que separava aquele paraíso do restante da civilização. Centenas de fagulhas? Bobagem, as milícias incendiárias não ousariam perpassar aquela aquavia putrefata – até mesmo os soldados do fogo temiam a pestilência da A.A.I.


A verdade é que, na Ilha de Cáries, só mesmo andando armado para se obter algum respeito da população. E o telefonema era uma afronta. A única instituição oficial na ilha era o consulado de um país muito imaturo, infantilóide mesmo – Bayreuth. De forma totalmente inconstitucional, o consulado desse país (outrora uma cidade europeia) é que oferecia as licenças para vigiar e matar malfeitores na Ilha de Cáries. Telefonicamente alarmado, Custódio Riobaldo Lampedusa temeu pela própria vida. Fazia tempo que pensava na possibilidade de obter uma patente de Guarda Noturno junto ao pessoal de Bayreuth. Aqueles jovens que tomaram conta do continente com o auxílio do uso de correntes de aço, barras de ferro, motocicletas e cerveja realmente eram uma ameaça permanente para a ilha.

Quando voltava para a escultura do bulbo de nabo com formato de dente molar, teve a visão ofuscada pelo brilho de uma porta metálica, através da qual, por um certo ângulo, pensou por um momento haver obtido o esclarecimento de miríades de questões ainda não resolvidas pelos filósofos da Nostalgia. Mas isso não importa – e nem sei por que mencionei esse detalhe. O que interessava era que, de posse dos documentos para entrar com o pedido de licença, Custódio Riobaldo Lampedusa mudaria de profissão. Nunca mais extrações, nunca mais boticão, nunca mais anestesia, nunca mais aquele algodão e aqueles pedacinhos de broca quebrada que ele sempre esquecia dentro do dente e que tapava com amálgama de mercúrio metálico e limalhas de prata.


Na semana seguinte, o ex-dentista já caminhava pelas ruas da Ilha de Cáries com quepe lustroso enfeitado com emblema wagneriano, cassetete elétrico com descarga fulminante de 440 volts e fuzil destravado, em busca de meliantes. Seu sonho, enquanto desfilava com seu novo uniforme, porém, era resgatar as infâncias (a primeira e a segunda) e tentar descobrir se realmente existia certo bode de chifres incandescentes que vira num livro do Pinóquio ou de magia negra – a fonte bibliográfica é insegura pois as bibliotecas haviam sido incineradas no continente e, na ilha, nunca ninguém jamais cogitara de levar um livro. Acreditava Custódio Riobaldo Lampedusa que a fumaça sulfídrica do demônio era exalada dos cornos ruborizados e não do bafo ou do bodum do sovaco demoníaco.


Entrementes, em seu lar, Custódio Riobaldo Lampedusa enfrentava a famosa crise conjugal das bodas de prata. Nesse sentido, fora advertido por Manólia, sua esposa-dentada, que ela já completara 45 anos e continuava à espera da ansiada relação sexual acerca da qual todos os manuais de noivas modernas falavam.


Na primeira noite em que Custódio Riobaldo Lampedusa trabalhava como guarda-noturno oficial do Consulado de Bayeuth, Manólia aproveitou a solidão para pesquisar as causas da abstinência erótica. Revirando o lado da cama onde o marido dormia, notou certas ondulações misteriosas. Acendeu a lâmpada do quarto para que, depois de tantos anos, entrasse um pouco de luz naquele aposento cheio de ácaros, fungos e cupins. O que viu, inicialmente, foram fibras negras da espessura de um dedo indicador de pianista adulto, um emaranhado sem começo nem fim projetando-se pelo mundo tridimensional da realidade – decerto tubulações orgânicas de acarídeos e nematoides – mas, logo avante, debaixo do lençol, onde emaranhavam-se os tubos prensados, identificou o mundo bidimensional da cultura: um caderno! Decerto era aquilo que vinha ocasionando distúrbios volitivos na corrente tântrica de Custódio Riobaldo Lampedusa! Aquelas sinistras fibras negras de origem desconhecida conduziram-na à descoberta do motivo que a levou, por 25 longos anos, a valer-se do sistema manual de satisfação sexual.


Manólia começou a ler com raiva as páginas do caderno que jazia sob as teias de aranha, aquelas placas bidimensionais repletas de palavras encimadas com os dizeres “Diário Íntimo de Custódio Riobaldo Lampedusa – Proibido ler”. Nele, descobriu coisas que a deixaram muito aborrecida. Por exemplo, que seu marido amara uma dengosa ruiva. Sim, aquela sirigaita, a mocinha de cabelos rubros como o incêndio do outro lado da A.A.I., aquela que surgira no meio dos dois na sagrada noite de núpcias, a tão sonhada noite em que deixaria de ser menina e passaria a ser mulher. Custódio Riobaldo Lampedusa, aquele safado, viera com a desculpa de que a ruivinha encontrada no colchão nupcial seria na verdade uma vendedora de mudas de jacarandá artificial e ainda teve o desplante de dizer que poderia provar isso, pois estava tudo documentado na Biblioteca do Museu Nacional do Rio de Janeiro – região sabidamente inalcançável, seja em razão do mar de lama tóxica da Companhia Mais Vale, seja porque fazia 21 anos que tal museu havia sido incendiado – um dos primeiros feitos pirotécnicos, como os anciãos desmiolados que viveram o período de transição (Governo Miguel Elias) costumavam ressaltar.


Sim, agora Manólia entendia tudo, havia sido aquela ruiva safada quem incentivara o marido a entrar para a Aeronáutica e seguir a carreira de dentista, embora a vida inteira ele acalentasse o sonho de ser General da Banda. Estava claro como a luz do sol na linha divisória do estádio de futebol de Macapá que, naquele dia em que, não contendo o arroubamento sexual, procurou seduzi-lo com aquele baby-doll verde e amarelo. Sim, ela vestia aquele que ganhara de brinde, diretamente das mãos de Paulo Scarface, presidente da Federação das Indústrias Extrativistas Super Poluidoras - FIESP, no dia da manifestação #ForaWilma & #ForaFred. A campainha tocou e Manólia foi atender. Eram as quatro loirinhas, cada qual portando uma caixinha. Uma trazia incenso, a outra mirra, a terceira levava um pó branco (presente do Senador Névoas) e a quarta, comprimidos azuis. Perguntaram a Manólia (ah, as lembranças ressurgiam agora com toda intensidade!) se era ali que haviam contratado uma suruba para apimentar um relacionamento encruado. E então Custódio Riobaldo Lampedusa começou a gaguejar, explicou a Manólia que as meninas eram as filhas montanhesas do servo de Bartolo, o Cego. Manólia, ficou confusa, pois nunca havia ouvido falar de nenhum Bartolo. Ademais, jamais pensara que Bartolo fosse cego e que tivesse um servo. Quanto ao servo de Bartolo ser pai de quatro loirinhas seminuas, cobertas apenas na frente com aventalzinho de enfermeiras de dentista, vá lá, era uma hipótese verossímil. O marido colocou as moças no carro e disse à esposa que iria deixa-las na casa do servo de Bartolo, que não o esperasse para o café da manhã do dia seguinte. As páginas do diário íntimo revelavam os detalhes daquela noite em que, mais uma vez, Manólia teve que socorrer-se dos vídeos do Youporn.


Manólia ligava os pontos da trama, lia nas páginas do diário o misterioso episódio da morena com botas de couro negro e salto ponta-de- agulha e chocalhos multicolores nas mãos, dançando rumba no dia em que teve que voltar para casa mais cedo do trabalho de tradutora de LIBRAS para a Igreja da Prosperidade da Ilha de Cáries. Ah, quantas cenas inexplicáveis Manólia agora começava a compreender! Como queria saber manejar uma pistola com balas de prata! Mas não era a inabilidade no manuseio de arma que a impediria de vingar-se.


Correu até o quintal de casa e derrubou o pé de carnaúba – exemplar único e raríssimo de vegetal vivo. Maldita inocência, vociferava Manólia a todos os pulmões, retirando a cera de carnaúba, sem ter ainda ideia do que faria, só movida pelo desejo de vingar-se de tudo e de todos. De posse da gosma da palmeira, saiu à rua em plena madrugada chuvosa e encontrou Custódio Riobaldo Lampedusa em plena praça do coreto, abraçado com as estonteantes loirinhas e com a ruiva, que, indecentes, o chamavam de “Meu marechal”.


A gosma vegetal que restou da chacina foi capturada por cientistas da Universidade de Tel-Aviv. Após seis anos de intensa pesquisa, estes cientistas isolaram uma molécula milagrosa que servia para curar cáries sem necessidade de dentistas. Na verdade, sem necessidade sequer de dentes cariados.


Guilherme Purvin

São Paulo, 29 de janeiro de 1987


Obs: A história acima permaneceu em segredo por muitos anos, em atenção a pedido feito pelo Sr. Paulo de Campos Borges. Exemplo de perseverança e disciplina, esse amigo me pediu boca de siri até que tivesse conseguido conhecer biblicamente todas as garotas que aqui são mencionadas.


0 visualização

© 2023 por O Artefato. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W