• Guilherme Purvin

Em nome do amor à natureza

Atualizado: 5 de out.

- Guilherme Purvin -


Em época de eleições, seria muito bom que todos nós ouvíssemos a canção Amor à Natureza, de Paulinho da Viola. Analisar as propostas de candidatos que efetivamente se comprometam com a proteção da fauna, da flora, dos recursos hídricos, da defesa dos povos originários e quilombolas, assim como ao combate à máfia imobiliária é, na prática, sepultar as chances de ascensão da extrema direita e da selvageria neoliberal no país. Este artigo é dedicado a esse grande compositor popular, autor de inúmeros sambas que conhecemos de cór, como Argumento, Sei lá Mangueira, Timoneiro (*) e tantos outros, inaugurando uma série de artigos sobre música popular (**).


Em 1975, Paulo César Batista de Faria, mais conhecido como Paulinho da Viola, já era um ícone da música popular brasileira, ladeando Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Geraldo Vandré, dentre outros. O talento musical já vinha de família. Seu pai, Paulo César Faria, integrou a primeira formação do conjunto de chorinho "Época de Ouro" (*).


Paulinho estreou no grupo "A Voz do Morro", criado por Zé Keti e contando com as participações de Nelson Sargento, Elton Medeiros, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, Zé Cruz e Oscar Bigode, que Paulinho tornou-se conhecido, em especial pelo samba "Recado": Leva o recado a quem me deu tanto dissabor...


Em 1966, lançou o álbum "Na Madrugada", em parceria com Elton Medeiros, no qual despontava a canção "14 Anos".


Em 1968, iniciou a carreira solo com o álbum "Paulinho da Viola", onde pode-se ouvir o hoje clássico "Coisas do mundo, minha nega".


Mas foi em novembro de 1969, no V Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record que Paulinho, já sob o jugo do AI-5, tornou-se conhecido nacionalmente, com a canção "Sinal Fechado", que merecidamente ganhou o 1º lugar. Nela, já se prenuncia a preocupação de Paulinho com questões socioambientais no meio urbano onde as relações sociais são sufocadas pela velocidade imposta pelo capitalismo.


Em 1970, Paulinho lança o álbum "Foi um rio que passou em minha vida" e, em 1971, dois LPs com seu nome. Numa das composições do segundo álbum de 1971, intitulada "Consumir é Viver", Paulinho traça um paralelo entre o consumo de produtos num supermercado e o consumo do desejo: No supermercado onde me encontro / medindo e pesando o teu carrinho / Uma oferta meu desejo vejo, ali / Como artigo de toda a semana / Confortável que não deixa manchas / Teu amor vim receber... O amor é reduzido à condição de mercadoria perecível e, como tal, acaba sendo descartado como resíduo ao transformar-se em ódio e desejo de morte.


Em 1972, Paulinho lança o belíssimo álbum "A dança da solidão" e, em 1973, o igualmente memorável "Nervos de aço".


Chegamos, finalmente, em 1975, quando Paulinho da Viola, no auge de sua popularidade, é ouvido diariamente na abertura de uma novela da Rede Globo. Trata-se da canção "Pecado Capital": Dinheiro na mão é vendaval...


A canção que dá título ao álbum de 75, produzido por Mariozinho Rocha para a EMI, é "Amor à Natureza". Clique aqui para ouvir a canção no Youtube. Pela primeira vez na música popular brasileira são enfocadas questões ambientais que se tornavam cada vez mais debatidas mundo afora. A abertura falada da canção imita o estilo dos sambas-enredo de escolas de samba do Rio de Janeiro:


O Grêmio Recreativo Escola de Samba Cenário de Tristeza apresenta seu enredo para o inverno e a primavera de 1975: Amor à Natureza.


Trata-se de um "samba enredo" extemporâneo, para o período de julho a dezembro de 1975, pois o carnaval ocorre no verão, no mês de fevereiro. Esse anúncio dará o tom nada alegre do enredo. Afinal, o nome da escola de samba é "Cenário de Tristeza". Começa então a parte cantada:


Relíquia do folclore nacional

Joia rara que apresento

Nesta paisagem em que me vejo

No centro da paixão e do tormento


A natureza, em 1975, já não envolve a cidade do Rio de Janeiro como no passado. Por isso, foi transformada em "relíquia", em "joia rara", no ambiente que circunda o cantor, cujos sentimentos oscilam entre a paixão e o tormento. E prossegue:


Sem nenhuma ilusão

Neste cenário de tristeza

Relembro momentos de real bravura

Dos que lutaram com ardor

Em nome do amor à natureza


O sambista não tem ilusão de que aquele passado de relativa harmonia entre a cidade e a floresta da Tijuca volte a existir. Assim, num cenário de tristeza pela degradação ambiental, relembra a luta dos primeiros defensores da natureza. Quem seriam eles?


No exterior, seria mais fácil enumerar alguns defensores da natureza, caso de Gifford Pinchot (1865-1946), primeiro chefe do Serviço Florestal dos EUA, de John Muir (1838-1914), fundador do Sierra Club ou de Aldo Leopold (1887-1948), introdutor do conceito de ética da Terra, segundo o qual os seres humanos deveriam deixar de se considerar "conquistadores da natureza" e passar a agir como "cidadãos da natureza". Confira-se, a esse respeito, o site "Tunes Ambiental".


No Brasil, o nome que vem imediatamente à lembrança é o de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), o chamado "Patriarca da Independência", que na virada do século XVIII para o XIX já lutava pela preservação das matas ciliares e das florestas em geral, não por mero romantismo ecológico, mas com pensamento claramente fisiocrata: essas florestas eram necessárias para a preservação das águas que haveriam de dessedentar animais e irrigar as plantações.


Outro nome, este contemporâneo da época de lançamento da canção, foi o do biólogo Augusto Ruschi (1915-1986), diretor da Estação Biológica Santa Lúcia, em Santa Teresa, de 1939 até a sua aposentadoria. Geraldo Hasse, citado por Allan Alvaro Santos Jr., no livro "A Implantação da Educação Ambiental no Brasil" (1998) afirma que "Ruschi não falava apenas por si, como botânico cioso de um rico habitat; vocalizava temores difusos de grupos sociais ante a presença de empresas multinacionais na economia brasileira". Tanto que, já em 1951, organizou no Museu de Biologia Professor Mello Leitão, um curso sobre preservação ambiental. Há que se atentar, porém, que Ruschi não era um nome do passado que "lutou" pela defesa ambiental: ele continuaria a lutar com veemência cada vez maior, até o fim de sua vida, doze anos depois do lançamento do disco de Paulinho.


Mas é claro que existiram muitas outras pessoas que "lutaram com fervor em nome do amor à natureza", a começar pelos povos originários, integrados às florestas e aos rios, a toda fauna e flora. É plausível acreditar que Paulinho da Viola pretendeu homenagear em sua canção justamente esses heróis anônimos da história do Brasil.


Cinzentas nuvens de fumaça

Umedecendo meus olhos

De aflição e de cansaço

Imensos blocos de concreto

Ocupando todos os espaços

Daquela que já foi a mais bela cidade

Que o mundo inteiro consagrou

Com suas praias tão lindas

Tão cheias de graça, de sonho e de amor


A canção traz a chamada "agenda marrom", da poluição atmosférica, para integrar o debate centrado na "agenda verde", da proteção da fauna, flora e elementos abióticos da natureza. Paulinho deixa nestas estrofes patenteado que não fala de uma natureza distante, mas da cidade em que vive, o Rio de Janeiro, com seus "imensos blocos de concreto" (edifícios), compartilhando nesse aspecto os mesmos sentimentos de Tom Jobim, outro grande compositor preocupado com a degradação ambiental e a agressividade do mercado imobiliário naquela que já foi a mais bela cidade.


Flutua no ar o desprezo

Desconsiderando a razão

Que o homem não sabe se vai encontrar

Um jeito de dar um jeito na situação


O compositor fala aqui do momento histórico em que compôs a canção, o ano de 1975. Três anos antes, a Organização das Nações Unidas havia realizado a Conferência sobre Meio Ambiente Humano, em Estocolmo. Foi naquele momento, em que o Brasil foi tachado de inimigo do meio ambiente e em que a cidade de Cubatão foi considerada o maior pesadelo ecológico urbano do planeta, que as pessoas começaram a pensar no que estava acontecendo. Os governos e a maioria silenciosa, contudo, desprezavam essas questões (flutua no ar o desprezo), preferiam agir impensada e irresponsavelmente (desconsiderando a razão). Daí vinha o significado dos versos da canção. Flutuava no ar, ademais, um ceticismo: seria utópico pensar que haveria alguma forma de conter o processo de destruição do meio ambiente, de dar um jeito na situação.


Chegamos, por fim, à última estrofe da canção, que afasta o risco de se crer que a mensagem é niilista e desmobilizadora:


Uma semente atirada

Num solo tão fértil não deve morrer

É sempre uma nova esperança

Que a gente alimenta de sobreviver


A semente a que a canção se refere é o movimento ambientalista que nascia no Brasil. Nos anos que seguem (1974 a 1986), Paulo Nogueira Neto (1922/2019) passa a ocupar o cargo de Secretário Especial do Meio Ambiente, possibilitando a edição da Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6.938/81), além da criação do IBAMA e do CONAMA. Sem essas conquistas, muito dificilmente teria sido realizada a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO/92), na cidade do Rio de Janeiro, ocasião em que foram lançadas a Agenda 21, a Convenção de Mudanças Climáticas e a Convenção de Diversidade Biológica.


Musicalmente, o samba "Amor à Natureza" pode ser considerado um samba-enredo sob todos os aspectos. O acorde de ré maior do cavaquinho de Paulinho da Viola remete a tantos outros sambas, em que o tom é dado por esse instrumento. Paulinho canta acompanhado de coro, em que vozes femininas prevalecem, da mesma forma que nos tradicionais sambas cantados na Marquês de Sapucaí.


A canção mais ouvida nas rádios, porém, foi o tema da novela da Globo, Pecado Capital, que não deixa de ser também outra obra prima. No ano seguinte, alcança a 17ª posição entre as mais tocadas. Há que se lembrar que a canção de Paulinho era lançada na mesma época em que foram lançados muitos outros clássicos da MPB, dentre os quais Juventude Transviada, de Luís Melodia, O que será, de Chico Buarque e Não deixe o samba morrer, na voz de Alcione.


É preciso dar um basta à impunidade dos garimpos ilegais, da grilagem e desmatamento das florestas, da indústria da construção civil que ergue edifícios totalmente desnecessários sobre nascentes d'água e rios urbanos, ensombrecendo as ruas, tudo em nome do lucro. Não deixemos morrer a semente atirada por Paulinho da Viola num solo tão fértil como o brasileiro. Deixemos nosso voto reservado para quem luta com fervor em nome do amor à natureza. Se você tem dúvida sobre a posição de seus candidatos a respeito da pauta ambiental, acesse o site Farol Verde.

 

(*) Agradecimentos especiais à Prof. Eliete Bindi e à cantora Eliete Negreiros por me alertarem que quem integrava o grupo Época de Ouro era o pai de Paulinho da Viola e que o título da música que tem como refrão a frase "não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar" é, na verdade, "Timoneiro", e não como constou. Aliás, sou fã de Eliete Negreiros desde a época em que lançou o seu disco "Outros Sons" (1982), sobre o qual pretendo escrever em breve nesta série musical.


(**) Este primeiro artigo sobre músicas e álbuns importantes está sendo antecipadamente publicado neste sábado em razão de ser véspera do dia das eleições. As futuras publicações deverão ser lançadas nas segundas-feiras.


 

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