• Guilherme Purvin

CARTA DE UMA CADELA PARA AS GERAÇÕES FUTURAS

Atualizado: 1 de ago.

- Guilherme Purvin -


"Eles nos dão a honra de nos tratar como deuses, e nós correspondemos tratando os bichos como coisas"

(J. M. Coetzee - Desonra)


Prezados amigos, é para vocês que me dirijo. Preciso manter essa esperança de vir a ser lida, ainda que depois de minha morte. Infelizmente não encontrei um só de nossa espécie com quem conversar ao longo de meus parcos seis anos de vida.

Por quanto tempo busquei eu, de alguma forma, fazer com que nossa espécie compreendesse o que vem acontecendo conosco há milênios! Abandonamos as florestas e nos deixamos seduzir pelo resto de comida e água que deixavam todo o dia em meio ao lixo das caravanas. Em pouco tempo eles se acostumaram a nos ver seguindo-os inofensivamente.

Em meio à noite, à primeira suspeita de que estivesse chegando uma fera ou um homem para tirar de nós o alimento, gritávamos furiosos e acordávamos os nossos provedores para que viessem também em nosso auxílio. E eles, com suas varas trovejantes de fogo, afugentavam quem nos ameaçava. Sem o saber, éramos muito mais úteis a eles do que eles a nós, pois seus predadores semelhantes não queriam restos jogados no chão, queriam sim atacar sexualmente suas fêmeas, furtar seus objetos e, ao final, tirar-lhes a vida. Nossos latidos, assim, eram alarmes para a segurança das caravanas.

Fomos acolhidos e passamos a integrar o que, em nossa ignorância e limitada inteligência, pensávamos ser nossa nova matilha. Quando eles passaram a nos acorrentar, não nos importamos, acreditávamos que não fariam mal algum a nós, e de fato raramente o faziam. Por que as correntes, nos perguntávamos, mas logo nos conformávamos com a nova condição. Nós não queríamos nos afastar deles, tudo era cômodo demais para nós e, se para tanto tivéssemos que ter nossos pescoços amarrados, que assim fosse!

Quando uma dos nossos paria uma ninhada, a ninhada deles vinha unir-se aos nossos filhos, brincar e rolar no chão. Esse era o momento de maior felicidade, supormos que as novas gerações passariam a nos aceitar plenamente, dentro das cavernas ambulantes de lona, nos dias de frio e chuva, já que as crianças eram iguais aos nossos filhotes. Mas nada mudava. As crianças cresciam e, embora não as víssemos chegar ao tamanho de seus pais e avós, já que pareciam viver muito mais tempo do que nós, víamos que elas se tornaram nossos líderes e nós, os ofendidos e humilhados nessa matilha desigual, não tínhamos como alternativa senão nos deixar acorrentar em troca de restos de carne nos ossos.

Eu poderia me conformar e agir como meus irmãos e amigos, fazer festinha, abanar o rabo, uivar para a lua, latir para os estranhos e deixar minha vida correr, meus prováveis quinze ou dezesseis anos. Afinal, a nossa vida agora era muito mais confortável do que no passado. Passamos a viver dentro de suas casas, conquistamos seu carinho. Muitos de nós foi adotado por casais sem filhos. Nós é que passamos a ser seus filhos, com todas as prerrogativas que os humanos tinham.

Ou quase todas. A verdade é que sempre fui irrequieta e curiosa. Queria entender o que eram aquelas coisas que eles faziam no alto das mesas, longe de nosso alcance. Eu morava num sobrado e logo reparei que, do alto do quinto degrau, tinha uma visão privilegiada de suas ações e não levantava suspeitas. Entendi que aquelas varetas serviam para rabiscar folhas brancas e pensei: não devem ser rabiscos, provavelmente são rituais que executam e que os tornam poderosos.

Um dia, um de meus donos, sem perceber, deixou cair uma dessas varetas no chão e foi embora sem apanhá-la de volta. Sorrateiramente, apanhei a vareta e, com ela na boca, procurei imitar o que havia visto a uns três metros de distância do degrau onde permanecia atenta. Encontrei um pedaço de papel no meio do saco de lixo da cozinha e, à noite, passei a exercitar o controle de minha mandíbula, riscando no papel os mesmos rabiscos que eles costumavam fazer. Tinha como certo que, a partir desse ritual, também eu passaria à condição humana. Esse foi meu grande erro.

Já haviam se passado várias semanas do meu apossamento da vareta de rabiscos e, de um momento para o outro, ela deixou de rabiscar. Pensei então: só me resta apanhar outra. Há muitas sobre a mesa de meus donos. Com todo cuidado, subi numa cadeira para alcançar o tampo da mesa e ali me deparei com diversas varetas de diferentes cores e um bloco de folhas. Estava excitadíssima! Podia agora imitar meus donos, podia me tornar dona de mim mesma, podia substituir meus latidos estúpidos e sem sentido por sons articulados como os deles. Tamanha era minha alegria que não percebi quando eles chegaram. Eu estava de costas. Aos gritos, me escorraçaram da mesa e, pela primeira vez na vida, senti o que meus antepassados sentiram: fui acorrentada e passei a dormir do lado de fora da casa.

Trouxe comigo, porém, uma vareta que encontrei perdida no jardim e, com ela, rabisco estas coisas, na vã ilusão de que, no futuro, os netos dos netos daq uelas que, diferente de mim, não tiveram sua vida sexual castrada, saberão o que se passou com seus ancestrais, pois já terão conquistado o seu status de seres livres para devorar suas presas ainda frescas, como faziam há milênios. Presas que, em razão da vida de ócio, não terão agilidade para reagir a tempo de resistir, com suas varas de trovão e fogo, ao nosso ataque de fúria histórica.


S.Paulo, 31.07.2022

 

Guilherme Purvin é escritor, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros. Graduado em Letras e Direito pela USP, doutor em Direito Ambiental. Presidente do IBAP. Fundador e ex-coordenador geral da APRODAB. É editor da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares.

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