• Guilherme Purvin

Um passeio de bonde pela São Paulo antiga

- Guilherme Purvin -




“A Linha Turística do Bonde oferece uma verdadeira viagem no tempo por 40 pontos de interesse histórico e cultural. Com saída da Estação do Valongo - prédio de 1867, da primeira ferrovia paulista -, os elétricos dos séculos 19 e 20 percorrem o Centro Histórico, em roteiro monitorado por guia de turismo”.

https://www.turismosantos.com.br/


Seguindo o exemplo da Prefeitura de Santos, a cidade de São Paulo também decidiu reimplantar sua linha de bondes, a fim de oferecer aos turistas paulistanos uma verdadeira viagem no tempo. Entusiasmado com a iniciativa de nosso alcaide João Dória Jr., fui o primeiro passageiro na inauguração da nova linha, que saía da Praça João Mendes, diante da Padaria Santa Tereza. Fui, obviamente, munido de meu telefone celular para retransmitir as imagens aos amigos e coloca-las em tempo real no Facebook, WhatsApp e Instagram.


O bonde desceu a Avenida Rangel Pestana, depois seguiu pela Avenida do Estado até chegar ao entroncamento da Avenida Dom Pedro I com a Rua da Independência, a Rua Almirante Pestana, a Rua Coronel Frias e a Rua Dr. Inácio Arruda. Ali, o veículo teve que dar uma paradinha, pois, ao que tudo indicava, a viagem no tempo foi um tanto exagerada: funcionários da prefeitura ainda abriam aquela praça e os empregados da companhia de bonde colocavam trilhos nos espaços abertos. A pista do bonde formava um S. Fotografei as imagens, mas não havia sinal de telefonia na região. Na verdade, meu celular se mostrava completamente inútil naquela viagem.


Enquanto a praça era construída, caminhei pelos arredores e verifiquei que aquilo sequer era a Avenida Dom Pedro I. Tratava-se, na verdade, da lendária Estrada do Ypiranga, que ligava a Praça da Sé ao Caminho do Mar. Os motorneiros de bonde estavam ansiosos, aguardando a instalação dos trilhos para iniciarem seu trabalho. Alguns deles, mais afoitos, desciam do veículo e saíam a carregar os trilhos e dormentes para ajudar os funcionários na construção da pista. Enquanto isso, as filas cresciam nos pontos de parada.


Era um sábado ensolarado. A cidade parecia tranquila, hostilmente tranquila. Não havia quase ninguém na rua, à exceção dos colocadores de trilhos de bonde nas ruas do bairro. A rede na cidade era ampliada rapidamente e, quando subi de volta ao meu vagão, verifiquei que o motorneiro chamava-se José Régeis Fidigo dos Reis, exatamente o mesmo nome do meu avô. Só que esse tinha 20 anos, ao passo que meu verdadeiro avô havia morrido já havia mais de 40 anos. Uma grande coincidência, pensei, esse José R.F. Reis estar à frente do Bonde 132. Eu ia sentado num banco de madeira envernizada logo atrás dele, observando o trajeto naquele caminho de terra e pedregulhos, excitado com a visita de uma casa de taipa que aparecia num quadro de Pedro Américo. Paramos diante de um armazém, onde comi pão com carne de capivara e pimentão e bebi uma jarra de sangria. Quando fui pagar a conta, percebi que estava sem dinheiro da época. Expliquei a situação para o dono do estabelecimento, mas ele não se comoveu. Chamou seu leão-de-chácara, um homenzarrão com um corpanzil imenso e cabeçorra cabeluda que, com suas manoplas, ergueu-me do chão pelo colarinho e vociferou com sua bocarra:


— Não tens dinheiro? Então assines uma nota promissória!


Assinei a tal nota promissória. Pelo que entendi, aquilo era uma espécie de cheque, só que sem a necessidade de uma conta bancária. A data de vencimento, contudo, era no ano de 1920. Em seguida, saí do estabelecimento sem maiores problemas e embarquei de volta no bonde que prosseguiu em seu trajeto, até chegar à graciosa cascata formada pela queda das águas do riacho do Ipiranga no Tamanduateí ao meio dia.


Apesar do frio e da garoa, havia alguns moleques dentro das águas do Tamanduateí. Alguns colocavam a cabeça sob a cascatinha. Eram meninos rudes, não riam como as crianças normais de nossos tempos. Outros pescavam lambaris e traíras. Comportavam-se como trabalhadores braçais. Sisudos, já estavam se preparando para a vida adulta. Um jacaré repousava tranquilamente na margem oposta do Rio Tamanduateí, num lugar chamado de Ilha do Sapo. Em dado momento, ouvi uma gritaria: um dos meninos havia morrido afogado. Afastei-me dali e reparei que, do outro lado, havia um grande terreiro. Estava sendo preparada, pensei, uma Festa de Santo Antônio. Um empenhado grupo de mais ou menos vinte garotas de minissaia e miniblusa, além de outro tanto de rapazes musculosos com shortinhos colados no corpo, fumava desbragadamente, bebia uísque e colava bandeirinhas de papel de seda colorido em barbantes. Fiquei surpreso ao ser informado der que eram professores, pois mais lembravam frequentadores das praias de Porto Seguro no Século XXI do que o estereótipo dos rígidos puericultores de outrora. O motorneiro com o nome de meu avô explicou aos passageiros:


— Aqueles ali no terreiro são professores desavergonhados. Gostam de sexo e bebidas, fumam ópio, são libertinos. É por isso que não deixarei nunca as minhas filhas irem para a escola: elas fatalmente se tornariam prostitutas.


O bonde cruzou uma ponte de madeira. Ali seria futuramente a fábrica da Coca-Cola, o grande orgulho do bairro. Li no prospecto do passeio que Dom Pedro I proclamou a independência naquela região porque queria isentar a fabricação e o engarrafamento da Fanta Laranja, Fanta Uva e Tab (um tipo de Coca-Cola adoçado com ciclamato) de imposto real. Como Dom João VI não concordou, o filho teve um chilique e proclamou a independência.


Seguimos pelas margens do Ipiranga, repletas de árvores centenárias, arbustos floridos, maconha, capim cidreira e íris-da-praia. Numa área mais tranquila, distante dos moleques banhistas, pescadores, afogado e professores sem-vergonha, havia uma comporta e uma espécie de represa. Perguntei ao motorneiro o que era aquilo e ele me explicou:


— Ah, isso é uma espécie de descarga de privada municipal. Ajunta-se bastante água e em seguida abre-se a comporta, para que a água desça violentamente e empurre o lixo que é jogado no rio para a frente.


Desci do bonde e subi a pé por um morro onde divisei uma colina. Um batalhão de soldados da cavalaria, em trajes de gala, realizava manobras militares. Mais à frente, havia uma casinha branca de janelas e portas azuis. Era ela, a impressionante casa do grito! Contornei a formação do pelotão de soldados e escalei mais um pequeno morro. La no alto, abri a porta da casinha branca. Quase caí para trás de susto: de dentro dela soou um grito, algo pavoroso, como o grito de horror da canção Careful with that axe, Eugene!, do Pink Floyd, só que cantado pela personagem que aparece naquele célebre quadro de Munch.


Retornei trêmulo e passei diante do pelotão de cavalaria do Exército Imperial. O corneteiro fazia soar em seu instrumento o solo do terceiro movimento do Concerto para Trompete de Haydn e os soldados puseram seus cavalos a galope rumo à Casa do Grito, acreditando que tivesse acabado de ocorrer algum crime. Eu precisava cruzar novamente o Riacho do Ipiranga para voltar ao bonde. A distância entre as margens era superior a oito metros. Mesmo assim, arrisquei o salto e tomei distância. Como previra, não logrei êxito e me estatelei no leito do rio, batendo minha testa numa pedra. Um corte superficial perto da sobrancelha foi suficiente para que meu rosto ficasse todo sujo de sangue. Atordoado com a batida da cabeça numa pedra, decidi tirar um cochilo em meio à água. Na verdade, estava muito bem, deitado naquele leito e sentindo a água correr pelo meu corpo. Só não percebi que um filete de sangue manchava as águas límpidas do córrego, bem defronte ao local onde Dom Pedro I havia proclamado a independência. Desmaiado, eu tinha sonhos lúbricos com a minha mulher, que naquele momento estava em Poconé, no Mato Grosso, em férias, pescando com as suas amigas. De repente, despertei com aquele enorme jacaré que havia visto lá na cascatinha, na margem direita do Tamanduateí. O bicho deve ter sentido o cheiro do sangue, pensei. Confesso que me assustei com as garras afiadas do animal, não obstante ele fizesse o possível para demonstrar carinho. Disfarcei o medo para não magoá-lo e procurei pensar em outra coisa, por exemplo, na função social da advocacia trabalhista. Por muito tempo achei que a atuação nesse ramo do Direito contribuiria para a redução da desigualdade econômica na sociedade capitalista. No entanto, alguns amigos marxistas me fizeram ver que não era bem assim: o Direito do Trabalho só servia para amortecer o impacto da luta de classes e para iludir o operariado e o campesinato.


Enquanto o jacaré me acariciava, também pensava em desvencilhar-me dele sem que ele se sentisse rejeitado. Sempre fui um desastre todas as vezes que precisei romper um relacionamento. Acariciei o bicho em retribuição, limpei o sangue de minha testa como pude e sorri para ele. O jacaré então me perguntou:


— Você se importa se eu acompanhá-lo?


— Claro que não, jacaré! — respondi. — Afinal, você foi tão gentil!


— Talvez você não se lembre, mas na verdade já nos conhecemos.


Olhei para o animal e só então percebi quem era.


— Chico? Chico? É você, Chico?


— Eu mesmo!


Abracei-o carinhosamente. Quanto tempo não via o Chico! Para ele eu havia composto, há muito tempo, uma canção. Comecei a cantar, em sua homenagem, mesmo sem a minha viola caipira. A canção dizia assim:


Lá na minha terra, quando chega o jacaré

Me dá saudade da minha mulher

Jacaré cascudo, jacaré levado,

Essa sua patinha só me faz cosquinha

Me deixa apaixonado

Jacaré rabudo, jacaré perfeito

Das garras de aço, me dá aqui abraço

Me deixa satisfeito...


— Como você fez essa linda canção para mim, vou leva-lo à festa dos índios guaianases. Lá você conseguirá alcançar o bonde de volta.


Quando atravessamos a pinguela para a outra margem do riacho do Ipiranga, a trilha até a cascatinha já havia sido ampliada e asfaltada e estava repleta de lanchonetes, farmácias, casas de armas e munições e, é claro, sex-shops. Dei uma olhadinha num dos sex-shops, só pra saber como eram as preferências da época. Encontrei muitos catecismos de sacanagem do Zéfiro, além de latinhas de vaselina e preservativos.

Subi no bonde com o Chico. O veículo balançou pelo S dos trilhos da praça. Na esquina da Avenida da Independência com a Rua da Independência, estavam construindo o prédio onde futuramente seriam instalados o boteco, a imobiliária e o meu primeiro escritório de advocacia. Por todos os lados, uma multidão de operários vindos principalmente do nordeste construíam lojas e mais lojas de bugigangas, lanchonetes e tabacarias. Logo após passarmos por um gigantesco edifício que orgulhosamente anunciava ser o maior salão de barbeiro do mundo, o bonde parou diante de uma casa de família judia, onde uma empregada portuguesa muito bonitinha varria a calçada. O motorneiro do bonde com o nome de meu avô, ao ver aquela portuguesinha jeitosa e faceira com a vassoura na mão, desligou o veículo e disse aos passageiros:


— Acabou a energia elétrica, pessoal. Vamos ter que esperar um pouco pra prosseguir a viagem — disse, descendo do bonde. Imediatamente compreendi que a empregada era a minha avó e que o motorneiro de 20 anos era, de fato, meu próprio avô.


— Eu serei neto daquele casal — expliquei ao jacaré.


O jacaré fez que sim com a cabeça e então me alertou:


— Veja, está chegando um inspetor da Light, empresa responsável pelo transporte coletivo elétrico na cidade. Muito culto, esse inspetor. Formou-se em Engenharia por uma universidade muito importante de Portugal e veio para o Brasil por indicação de um grande amigo de seu pai, o Lord Jim, que é o bambambam da Light & Power. Estou curioso para saber o que é que vai acontecer agora que o Sr. José parou o bonde.


Ao ser surpreendido com a inspeção, o meu avô estava quase certo de que iria ser demitido imediatamente. Para sua (e nossa!) surpresa, o inspetor aproximou-se com gentileza dos dois namorados e disse apenas:


— Ouçam-me bem, jovens pombinhos apaixonados e inconsequentes. Vocês estão numa idade em que tudo parece tão simples quanto realmente é. Afinal, qual a importância que tem interromper por dez minutos a circulação do bonde, se vocês desejam tanto se ver, não é mesmo? Eu também pensava assim, meus filhos, até o dia em que aprendi uma lição.


Meu avô e minha avó sentaram-se no chão para ouvir os ensinamentos do inspetor, no que foram acompanhados pelos passageiros que pacientemente aguardavam o conserto do bonde. Fizemos o mesmo, jacaré e eu, esquecidos da prometida festa dos índios guaianases. O inspetor prosseguiu:


—Ao chegar a este país, apaixonei-me pelas suas mulheres de ancas largas e coxas roliças, que sabem como ninguém preparar quindins, papos-de-anjo e babas-de-moça. E, por muito tempo, fiquei nessa vida boa, indo de casa em casa, provando doces, engordando, engordando cada vez mais, até que um dia ultrapassei os 150 quilos.


Meu avô olhou para o inspetor e disse:


— Certamente o senhor deve continuar levando essa vida boa, pois aparenta ter mais de 200 quilos.


O inspetor respondeu então ao motorneiro relapso e apaixonado:


— O que eu não sabia é que meu peso aumentava independentemente de comer ou não. Eu engordava por um motivo muito diverso e, se não tivesse descoberto isso, teria inutilmente deixado de provar aqueles acepipes preparados com tanto carinho pelas brasileiras cadeirudas e roliças que me enchiam de alegria.


Entediado, meu avô interrompeu o inspetor, ponderando:


— Me desculpe, mas parece o povo está começando a ficar impaciente. É melhor subir no bonde e vir conosco para a Catedral da Sé. Convido-o para ser nosso padrinho de casamento.


O inspetor concordou com a proposta e gritou:


— O bonde vai partir!


O jacaré Chico desceu. Despedimo-nos efusivamente e, em seguida, corri para o vagão. Meu avô explicava o trajeto:


— Estão vendo o Morro da Pólvora? Repare, tem uma ruazinha quase invisível, que sai defronte ao portão da Fábrica Imperial de Explosivos? É a Rua Espírita. Por ela, nós chegaremos ao terreno mal assombrado.


O bonde prosseguiu pela Rua Conselheiro Furtado e então desembarquei na Praça Clóvis. Não dei dois passos pela praça, quando reparei que minha carteira havia sido roubada, juntamente com vinte e cinco cruzeiros e as fotos da viagem. Uma pena!


São Paulo, 26 de janeiro de 2020


Casa do Grito - Bairro do Ipiranga - São Paulo/SP

Guilherme José Purvin de Figueiredo é escritor. Contato: gpurvIn@gmail.com

0 visualização

© 2023 por O Artefato. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W