• Guilherme Purvin

Cagando e andando e seguindo a canção

- Guilherme Purvin -

Mercado das artes não é coisa para gente de pavio curto. Artistas são temperamentais, suas atitudes são inesperadas e, por vezes, contrariam as regras de convívio social e até mesmo a moral e os bons costumes. Compradores, porém, podem ser ainda piores – e sem eles a arte não serve pra nada.


Cansada de depender economicamente do marido, Dalila decidiu entrar para esse ramo, justamente nestes tempos de recessão econômica e corte dos gastos públicos nas áreas da cultura, da educação, da saúde, do meio ambiente e da previdência social.


Sem um centavo no bolso, procurou no Google o nome de algum pintor outrora famoso e hoje caído no ostracismo. Lygia Clark, Hélio Oiticica, Alfredo Volpi... Não, todos esses nomes continuavam na berlinda. Compulsou então antigos exemplares das revistas Fatos e Fotos, Cruzeiro e Realidade. Finalmente encontrou quem procurava: Wesley Duke Lee! Fazia muito tempo que ninguém falava dele e poucos saberiam que ele havia falecido em 2010. Fez o download de diversas obras do artista plástico e as imprimiu em papel couché em minha jato de tinta de última geração.


— Dalila, todos vão perceber que isso é fake!


— Cale-se. Estou farta de ser tutelada por você! Além disso, o serviço apenas começou. Ainda vou trabalhar em cima dessa cópia.


Dalila usou guache, tinta a óleo, lápis colorido. Técnica mista. Ficou quase perfeito. Agora, a questão era organizar a vernissage. Onde encontrar um ator parecido com Wesley Duke Lee? Por uma incrível coincidência, seu tio Felisberto tinha o biótipo exato e, por uma boca livre, é claro que ele toparia participar da farsa.


A vernissage tinha que ser, evidentemente, na casa onde morávamos, no elegante bairro do Morumbi, onde sempre vivi e de onde jamais pensei em sair. Deixei-a na sala de visita recebendo os convidados e fui para nossa suíte, precisava ir ao banheiro com urgência, pois, obediente às orientações ecológicas do Presidente, estava há dois dias sem fazer as minhas necessidades.


Já tinha até baixado as calças e me sentado quando, de repente, a escritora Edy Lima ou pelo menos alguém muito parecida com ela, adentrou no recinto. Quer dizer, só estou sabendo do nome dessa escritora agora, enquanto caminho pela estrada (mas não vou estragar a surpresa da cena final). Na hora, pensei que fosse a escritora Ruth Rocha, que também escreve livros infantis, mas por uma associação de ideias, tomei como certo que seu nome fosse Ruth de Souza, o que era um absurdo, já que esta atriz é negra e a mulher que estava no meu banheiro e que eu achava ser a autora de “A Vaca Voadora” mas confundia com a autora de “Marcelo Marmelo Martelo”, era excessivamente branca.


— Ei! O que está fazendo aqui em meu quarto?


A mulher olhou para mim com desprezo:


— Este quarto é uma extensão da sala. Fui convidado pela socialite Dalila Pinto Antunes Colaço Casal para participar do vernissage e do leilão das obras do famoso pintor West Duck Lee.


— Perdão, mas a senhora entrou na suíte do proprietário do imóvel. Repare que a entrada deste banheiro é pela porta do quarto e não pela sala! Ademais, o nome do pintor é Wesley Duke Lee.


A intrusa não me dava ouvidos, ria de meus argumentos e fazia cliques e muxoxos com a dentadura, dando a entender que o que eu falava era tolice.


— Nunca vi um banheiro com porta de vidro, muito embora fosco. Ninguém construiria uma suíte com entrada para o banheiro por uma porta de vidro. Além disso, não me recordo de haver chegado neste aposento atravessando algum corredor. Entrei direto da sala onde estão todos os convidados. Você entra no quarto e vê o vulto de quem está no banheiro.


— Acredite em mim, por favor. Eu moro aqui!


— Chega! Vamos mudar de assunto! Você viu que os jornais de todo mundo divulgaram há alguns dias as imagens de um buraco negro?


A mulher era impossível. Encobrindo parcialmente as minhas intimidades, puxei um biombo para que a privada ficasse ao menos visualmente isolada do resto do ambiente. Um pouco mais confortável, aquiesci em tergiversar.


— Embora este não seja o lugar ideal para um bate papo sobre astronomia, não vou ser indelicado com as amigas de minha amada Dalila. Na verdade, tudo o que se vê é um halo de luz.


— E o buraco negro não é isso?


— Para sermos exatos, é impossível obter imagens de um fenômeno cósmico de tal intensidade, uma concentração incomensurável de matéria e energia com tamanha força gravitacional que a própria luz (isto é, as partículas de fótons) se curva e é tragada por essa singularidade.


— Isso lá é! Quero que conte isso que me explicou para o pessoal!


Foi nesse momento que Edy Lima ou, talvez, sua sósia, resolveu escancarar a porta do banheiro e do quarto, chamando os convidados para virem me ouvir.


O primeiro a entrar no banheiro foi o próprio tio de Dalila, que representava magnificamente o papel de Wesley Duke Lee. Acompanhavam-no um grupo de cantoras de folclore búlgaro e, atrás delas, uma multidão de convidados ávidos pelo início do leilão dos quadros. Edy Lima ia falar, mas tio Felisberto assumiu a dianteira, bateu palmas pedindo silêncio e disse:


— Antes de iniciar o pregão dos quadros, teremos um magnífico show das cantoras camponesas da periferia de Sófia, que vieram diretamente para São Paulo todas vestidas a caráter. As senhoras e os senhores podem imaginar o sacrifício que é passear com esses vestidos coloridos pelas ruas desta cidade!


Começou a cantoria e eu pensei que seria muito bom se Dalila viesse me socorrer e trouxesse ao menos um roupão para eu fugir do banheiro da suíte. Ela, porém, não dava atenção nenhuma a mim. Havia engatado uma conversa animada com a escritora da “Vaca na Selva” sobre o princípio da presunção de inocência e as prisões após condenação em segunda instância. Minha amada, muito embora formada em Tecnologia da Informação, debatia com muito denodo os mais variados temas de Direito Constitucional e de Processo Penal. Dava até gosto de ver!


Enquanto as búlgaras cantam, eu só fico pensando na necessidade inadiável de contratar um daqueles pedreiros poloneses, só para erguer uma parede de tijolos naquele lugar onde era a porta de vidro. Se eu ficaria preso no banheiro para sempre ou não, isso era outra questão. Só assim é que evitaria que, em ocasiões futuras (neste momento ainda era otimista), convidados para festas em minha casa duvidassem de meus conhecimentos sobre a finalidade de cada aposento e me deixem fazer as minhas necessidades dos dias alternados com paz e sossego.


A apresentação do espetáculo búlgaro estava apenas no começo, mas os convivas, impacientes começam a entoar outras canções, canções de Anitta, É o Tchan, Bonde do Tigrão, Valeska Popozuda e Kelly Kee e Latino. Angustiado, enchi os pulmões e comecei a cantar a Marselhesa. Esta canção me enchia da coragem necessária para que eu protestasse em voz alta e reivindicasse os meus direitos. Obviamente, modifiquei a letra do hino francês para os meus objetivos:

Os se – nho – res nes – te qua – ar – to / ‘tão in – va – din – do mi’a in – ti – mi – da - de / reparem – que a – trás- do – biom – bo / es – tá – nu – o – an –fi – tri – ão / Que i – dei-a to – la é – in – va – dir – mi –nha – sui – te! / Saiam – to – dos – pois – que –ro – ca – gar!


Só após a utilização deste verbo chulo é que Dalila vem conversar comigo:


— Que falta de finura, hein, Sansão? “Cagar”? Qual é a sua?


Tento argumentar:


— Você não vê que estou nu, sentado na privada, e não consigo um mínimo de privacidade no quarto de minha própria casa?


Ela é irredutível, está mesmo querendo arrumar briga:


— “Minha própria casa”! Isso é bem típico seu, jogar isso na minha cara! Dizer que não ajudei a comprar este imóvel, não é? Bela merda de casa, a “sua própria casa”! As tábuas do soalho estão todas gastas, pelas frestas acumula-se a poeira que vem da varrição. Isso pra não falar do encardido de dedos nas paredes!


O falso Wesley Duke Lee, que conversava animadamente com outro farsante, um sósia de Aldemir Martins, interrompeu nossa discussão e disse para mim:


— Gostei da sua proposta. Vamos todos tirar a roupa, cagar, mijar, foder ou simplesmente arejar o balangandan! Além disso, está mesmo muito calor nesta casa sem ar condicionado e, nus, somos todos iguais! Viva o igualitarismo naturista!


Uma cantora búlgara, animada com a exortação do tio de Dalila, foi a primeira a se livrar daquela profusão de vestidos coloridos de camponesa. A strip-teaser seguinte foi a velhinha desconhecida que gerou todo este constrangimento, a sósia de Edy Lima cujo nome eu pensava ser Ruth Rocha, por isso, associava com Ruth de Souza:


— Demorou! Estava morrendo de calor e também quer cagar!


Todos os convidados tiraram suas roupas. A única que permaneceu impassivelmente vestida foi Dalila. Wesley Duke Lee perguntou a ela:


— E você, não vai tirar a roupa também, minha sobrinha? Vai regular mixaria ou tem estrias? Vamos lá, mostra esse corpitcho pro titio!


— Não — respondeu minha amada. — Não tenho estrias. Não é isso. É que se tirar minha roupa, vocês descobrirão que estou armada até os dentes. E fiz bem em me precaver. Temia mesmo que este leilão descambasse em suruba.


Ato contínuo, Dalila apontou uma arma para a multidão. Os convivas se apavoraram, as cantoras búlgaras se puseram a cantar daquela forma que só elas (e a cantora portuguesa Dulce Pontes) sabem gritar. Recuaram todos para um canto e Dalila deu a ordem:


— Vocês estragaram o meu sonho de tornar este país culto e sem corrupção. Foderam com a minha vernissage! Vão todos para a rua, um a um! Não quero que a casa daquele que se diz meu marido fique suja de sangue.


— Podemos ao menos nos vestir novamente? — perguntou o Tio Felisberto.


— Sem problema — respondeu ela. — Não estou interessada em roupas usadas, não sou dona de brechó. E você, — diz, dirigindo-se a mim — o que é que está esperando? Ou acha que vou reservar um tratamento especial ao maridinho?


Exausto, aborrecido com o tratamento que Dalila vinha me dispensando nos últimos tempos, na verdade, desde o dia em que me flagrou numa paquera com a atriz Giulia Gam – uma paquera, aliás, péssima, pois a atriz sequer ouviu a minha cantada e, tenho certeza, se tivesse ouvido, desceria um tapa na minha cara.


Um a um, seguimos pela Estrada de Itapecerica, sob a mira do revólver de minha mulher. Eu, pra variar, estava na pior situação: nu e com uma dor de barriga de dois dias. Ou, para ser exato, quase nu, pois sempre carrego no meu pulso o contador de passos. Uma breve explicação: preciso sempre andar 10 mil passos por dia para manter a saúde. No momento em que, curioso, verifiquei o número de passos que havia dado até então (menos de 3 mil ainda), é que acidentalmente pisei no pé da escritora de livros infantis.


— Ai! Você feriu a planta do meu pé, porra!


— Mil perdões, dona Ruth de Souza! — disse.


— Eu não sou nenhuma Ruth de Souza!


— A escritora! É Ruth alguma coisa... Ruth Rocha! É isso! Dona Ruth Rocha! Eu li todos os seus livros na infância! A Vaca Voadora, a Vaca na Selva...


—Quem escreveu esses livros foi a Edy Lima, imbecil! Melhor mudar de assunto, pois de Literatura você não entende nada! Fale sobre Astronomia! Diga o que você estava dizendo há pouco! Quer dizer tudo o que conseguimos ver são as luzes sendo devoradas por essa espécie de Cronos espacial?


— Penso que sim, dona Edy Lima. O que acontece com a matéria e a energia capturadas é alvo de especulação, havendo desde suposições acerca da passagem para outras dimensões até simples destruição, ou melhor, aniquilação do universo conhecido e seu escape por meio de pulsares que funcionariam como uma espécie de válvula de panela de pressão.


— É espantoso. Se por um lado as manchetes contêm essa imprecisão científica, por outro servem como uma magnífica metáfora da realidade socioambiental planetária.

É incrível como, mesmo diante da mira de nosso carrasco, ainda pensamos em planos para o futuro.


— Se me permite a sugestão, por que a senhora não escreve um novo volume da Vaca? Tipo assim, “A Vaca no Buraco Negro”?


— Em primeiro lugar, na condição de sósia, só posso publicar cópias piratas no site Lê Livros ou na Library Genesis. Além disso, pra seu governo, a minha escritora original já escreveu “A Vaca na Quarta Dimensão”.


E não é que era verdade? O livro havia sido lançado pela Global Editora e já estava na segunda edição. Fiquei vermelho de vergonha com a gafe. Queria até morrer, tão constrangido que estava. Minha querida Dalila, porém, jamais que iria atender aos meus desejos mais recônditos e dar um tiro em minha cabeça para abreviar aquela caminhada pela Unnamed Road, a estradinha de terra que leva a Itanhaém pelo meio da Serra do Mar e cruza com a estrada Taquaricida - Pariquera-Açu. Tinha certeza para onde ela nos levava: ao Café & Borracharia Muniz de Souza, sede do partido do presidente.

São Paulo, 25 de outubro de 2019




Guilherme Purvin é escritor. Graduado em Direito e Letras pela USP. Contato: gpurvin@gmail.com.

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