• Guilherme Purvin

O Autorama adiado

Atualizado: há 3 dias

Guilherme José Purvin de Figueiredo



O velho chegou de Londres à casa de George apenas com uma grande mala, onde colocara seus ternos, calças, camisas, pijamas, meias, ceroulas e camisetas. Numa maleta de mão, levava uma agenda do ano – 1968 – e a Bíblia, da qual não se separava.


Ao longo dos 20 anos de distância que o separavam do filho, desde que este embarcara da Inglaterra para o Brasil, todas as notícias que tinha vinham de sua nora. Era ela quem lhe enviava fotografias dos dois netos e as lamúrias sobre os vícios do marido – bebia demais, fumava demais. Não, não podia queixar-se de violência, George continuava tão carinhoso e lhe fazia declarações apaixonadas em inglês como no início do namoro, mas era preciso alguém com autoridade para proibi-lo de beber. Como já se sentia incapaz de demovê-lo, recorria agora ao sogro.


Sim, Eliana era linda como haviam lhe descrito as filhas que a conheceram na época em que também tentaram se estabelecer no Brasil. Era linda e simples, infelizmente sem muita cultura, não sabia sequer empunhar corretamente os talheres. E os filhos do casal, Deus do céu, pareciam dois selvagens – limpavam a boca na toalha, falavam de boca cheia, pulavam como macaquinhos. Havia muito o que fazer ali, antes de tentar impedir o filho de beber.


A neta mostrou-se dócil. Pedia-lhe para traduzir uma canção romântica que fazia sucesso nas rádios brasileiras – I started a joke, com os Bee Gees. A menina sentava-se no colo do novo avô, que até então só sabia da existência por conta das cinco linhas que a mãe mandava escrever antes de fechar o envelope e enviá-lo pelo correio. Em pouco tempo, já era sua grande aliada na casa do filho.


O que lhe atormentava, porém, era o menino. Tinha nove anos e não se curvava à autoridade do avô, que ingressara naquela casa como um interventor militar e com quem agora era obrigado a compartilhar o quarto de dormir – uma cama ao lado da outra, separadas por duas mesas de cabeceira. Era evidente que os dois se odiavam e mediriam forças.


Desde sua chegada, foram impostas novas regras. A primeira delas, lavar as mãos antes de se sentar à mesa. A segunda, só se sentar depois que os mais velhos já estivessem acomodados. Garfo do lado direito do prato, faca do lado esquerdo. Guardanapo dobrado ao colo. Limpar a boca antes de beber água. Pronunciar corretamente as frases, eliminando aquele medonho sotaque brasileiro – good night e não gunái!


Um dia foram para o centro da cidade – avô, nora e neto. Dentro de dois dias seria aniversário dos dois: por coincidência ele e o pequeno selvagem haviam nascido no mesmo dia e mês, com uma diferença de sessenta anos. Para ele, a nora comprou uma garrafa de Scotch. Para o neto, um brinquedo com carrinhos elétricos correndo ao redor de uma pista de matéria plástica negra.


Mas como? Aquele brinquedo estúpido custava quatro vezes mais do que o seu whiskey! Insistiu neste ponto: dinheiro não nasce em árvore! O menino não merecia presentes, era um verdadeiro índio incivilizado, empunhava o garfo e a faca como se estivesse segurando um cabo de vassoura, gritava pelos corredores, era desobediente e, na escola, ficara apenas num medíocre 7º lugar na classe de 32 alunos. Ela não queria que ele convencesse o filho a deixar de beber? Então ela também deveria aquiescer aos seus conselhos sobre a educação familiar. Viera ao Brasil para corrigir todos os vícios. Do filho George, sem dúvida, mas também da nora e dos netos.


A mãe concordou. O filho, vencido pelo velho inglês intruso, fugiu das mãos dela e correu pelas ruas da cidade. Não voltaria para casa com eles. Sabia voltar sozinho, não era nenhuma criancinha. Bastava seguir a trilha do bonde, pelos sete quilômetros que os separavam de casa. Chegou antes do avô e da mãe, que se achavam perdidos e atarantados à sua procura nos vários andares das lojas Mappin.


À noite, a mãe e o avô contaram ao pai a terrível travessura cometida pelo filho. Era preciso castigá-lo exemplarmente. O pai apanhou-o pela mão e o levou para a edícula nos fundos da casa. O menino tremia de medo da cinta do pai. Era a primeira vez que seria castigado fisicamente, e tudo por culpa daquele horrível velho invasor que obrigara a mãe a devolver a caixa do Autorama!


Pretend I'm hitting you. Cry! ─ mandou o pai.


O menino não entendeu a ordem. Pretend não significava fingir? Isso não fazia sentido! Quando a cinta começasse a ferir suas pernas, certamente teria motivo de sobra para gritar. Mas antes? Então o pai falou em português, com seu sotaque forte londrino:


─ Filho, finja que está apanhando, só para saciar o seu avô.


O menino sorriu e abraçou o pai. O pai, porém, apanhando uma garrafa de whiskey que tinha escondida na edícula, repetiu:


─ Vamos, comece a chorar. Se não fizer isso, não ganhará o Autorama no seu aniversário.


Entre risos, o menino começou a gritar comicamente, olhando com amor para o pai, que bebericava tranquilamente seu cowboy.


─ Não! Não me bate!


De longe, os gritos do menino entremeados com o riso solto eram para o interventor a vitória definitiva sobre o selvagem. O velho só se surpreendia com a tranquilidade da nora. Era quase como se ela mesma não se importasse com a dor do filho. Mas era uma boa surpresa, ela devia ter entendido que aquele corretivo era necessário para que a família de seu filho George entrasse definitivamente nos eixos.


São Paulo, 23 de maio de 2020


Guilherme Purvin é escritor.

34 visualizações

© 2023 por O Artefato. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W