• Guilherme Purvin

Tragédia no riozinho

- Guilherme Purvin -


Foto modificada - Original de Leonardo Filipo.

O Marcão caiu no riozinho. A tragédia aconteceu porque ele quis levar sua bicicleta para dentro do clube, que ficava na margem esquerda, quase na foz — aquele lugar que minha mãe disse que antigamente havia uma cascatinha onde um amigo do meu tio tinha se afogado. Mas essa outra tragédia foi há 30 anos, num tempo em que até o riozão era limpo. Pra mim, o Tamanduateí foi sempre aquela feiura e fedor. Só passava sobre ele quando íamos para a casa da vovó, que morava na Ilha do Sapo, numa ponte de madeira caindo aos pedaços. Suas águas eram barrentas e tinham cheiro de química, nem dava vontade de olhar para baixo. Minha mãe dizia que, quando tinha a minha idade, atravessava aquele riozão por cima de um encanamento, para cortar o caminho para a escola. Na sua época não havia aquela ponte em ruína.


O clube ficava numa área escondida da avenida. Era preciso descer uma pirambeira —na verdade, uma ribanceira de uns dois metros de altura a uns 60 graus da superfície, mas aquilo era muito para a gente — e aí chegávamos ao terreno que os operários tinham construído para guarda do material da construção de um viaduto que iria ficar bem em cima da foz, ali naquele lugar onde um dia existiu a cascatinha. Quando nos mudamos para o Ipiranga, o leito do riozão já havia assoreado, ou então era o riozinho que tinha tido a sua calha aprofundada. Não havia nenhuma queda d’água. O que minha mãe contava eram histórias de velhos. A minha realidade era a de 1964, aquele território para onde todas as tardes, depois da aula, íamos visitar de bicicleta e discutir os rumos do nosso clube.


Tudo aconteceu só porque o Marcão, todo exibido, resolveu bancar o corajoso e desceu a rampa montado na bicicleta. A razão secreta era que estavam começando a aparecer na região uns moleques perigosos no bairro, filhos de operários. Ele não queria dar chance para o azar, dá que um desses maloqueiros visse aquela bicicleta dando sopa e fugisse montado nela para nunca mais. A do Marcão era a única aro 26 — a mais impressionante de todas as bicicletas dos sócios do nosso clube. A minha era a menor, aro 22, menor até do que a da Márcia, irmã dele, uma bicicleta cor-de-rosa de meninas, sem o cano ligando selim ao guidão. Minha mãe não me deu uma aro 24 igual à dos meus amigos, achava que eu era muito nanico e não conseguiria alcançar os pedais. Na verdade, estava longe de eu ser o menor da rua, então morria de vergonha, especialmente quando pedalava lado a lado com o Marcão. E, nos passeios em grupo, sempre ficava atrás, pois precisava pedalar muito mais para alcançar a mesma velocidade.


Agora, porém, a água suja do riozinho cobria a maior bicicleta do clube e o Marcão, assustado e engasgando naquela água suja, lutava contra o lixo que descia junto com o esgoto da Avenida Teresa Cristina.


— Deixa a bicicleta e se salva você! — gritei.


— Você tá é louco! Se meu pai sabe que a bicicleta caiu no riozinho, ele me mata!


A preocupação era ponderável. O que seria mais perigoso? O pai de Marcão matá-lo por haver deixado uma aro 26 se perder no riozinho? Ou a corrente levá-lo para o riozão, justamente naquele ponto onde o amigo do meu tio havia morrido afogado? Daquele ponto onde estávamos até o riozáão não dava nem dez metros. A tragédia só não se consumava porque não era época de chuva e o talvegue não chegava a um metro de altura. O perigo maior seria o Marcão se cortar nos cacos de vidros e latas enferrujadas.


— A gente puxa a bicicleta por cima, Marcão! Sai logo dessa água pra não ficar com tétano!


— Lembra daquele moleque da Rua Cora! Ele bebeu água, pegou tifo e morreu!


Ficávamos gritando sem parar, insistindo para que o Marcão abandonasse aquela diligência estúpida de erguer a bicicleta lá por baixo, até que alguém conseguisse alcança-la do chão do clube. Acontece que o matagal e o solo inconsistente não permitiam que alguém chegasse à beiradinha para puxá-la para cima sem correr o risco de também cair. Mesmo assim, ele continuava se debatendo naquela água fedorenta, segurando com firmeza as rodas da bicicleta.


— Tive uma ideia! — disse o Marcão. —Vou pedir ajuda de uns moleques que moram na Rua Cora. Um deles tem uma corda com gancho, vou pedir emprestada e aí a gente consegue levantar a bicicleta sem dificuldade — e, agarrando-se no capim, subiu de volta para a margem.


Fiquei espantado com sua ideia: pedir algo para os maloqueiros? Com medo de que o bando viesse roubar minha bicicleta, subi a rampa e voltei pedalando pela avenida.

No começo pensei em ir para minha casa para tomar banho. No trajeto, porém, mudei de ideia. Se eu chegasse em casa e meu pai soubesse o que havia acontecido, com certeza iria levar uma bela surra de cinto, mesmo sem ter sido o causador do acidente. Lembrei-me daquela surra que tomei na frente de todos só porque atravessei a pista de boccia na hora em que um jogador atirava a bola. Não sei quanto pesa uma bola daquelas, mas o impacto em minha cabeça foi tão violento que tudo à minha volta começou a girar. Não, não estava com vontade de levar uma surra injustamente.


Aquele lado da avenida já estava asfaltado, mas nunca passava carro nenhum ali, por isso era como se estivesse numa ciclovia. Continuei subindo pela avenida vazia, na direção do museu, até aquela parte onde o riozinho desaparecia por dentro de uma tubulação. Um grupo de pessoas vestidas todas de negro havia fechado uma espécie de dique no local, deixando escoar apenas um pouquinho de água, aquela que descia até onde estava a bicicleta de meu amigo. A água represada, porém, se acumulava acima da ponte de concreto da Rua Tabor, bem na altura do Monumento da Independência, formando um imenso lago. Parei para observar a cena. Primeiro jogaram um berço com um colchão de criança, que caiu e, naturalmente, não saiu do lugar, devido à baixa intensidade da corrente de água. Em seguida, atiraram milhares de papéis, cartilhas escolares, lápis, canetas, réguas, livros de história e de geografia, cadernos, livros de poemas de Tomás Antônio Gonzaga e de Cláudio Manuel da Costa, de Gonçalves Dias e de Castro Alves, romances de José de Alencar e Machado de Assis, Manoel Antônio de Almeida, Mário de Andrade, Lima Barreto, Ciro dos Anjos, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Jorge Amado. Aquele grupo de homens e mulheres de camisa negra ia aos poucos crescendo até se transformar numa multidão, que atirava com raiva no riozinho peças de museu, o cavalo, a espada e o uniforme de Dom Pedro I, os esquifes com os restos mortais do Imperador, os manuscritos de José Bonifácio de Andrada e Silva e de Joaquim Nabuco. E caixões, muitos caixões, além de ossos, uma profusão de ossos dos escravos negros insepultos.


E então alguém deu a ordem de abrir a comporta. Todo aquele entulho lotando o ponto de estrangulamento do riacho de repente começou a avançar para baixo, empurrado pelas águas acumuladas da represa. Voltei pelo mesmo caminho, pedalando depressa, olhando para o berço de criança que vinha à frente do entulho. Por que ele não afundava? Simplesmente porque descia como se fosse ele a locomotiva de um comboio. O berço passou por debaixo da pinguela da Rua Pedro Magalhães, deu uma viradinha e prosseguiu água abaixo, sob a ponte da Rua General Eugênio de Melo. O comboio que o seguia, ao atravessar pelas margens estreitas do riozinho, arrancava pedaços das margens e das árvores plantadas ao seu redor. Eu só ficava olhando, distraído, para aquele berço que era empurrado pelo entulho e pelas águas do riacho do Ipiranga, imaginando como seria divertido se ele fosse uma jangada e eu estivesse em cima dela, navegando como um índio, desbravando todas as terras que deveriam existir para muito além do nosso clube. O colchãozinho balançava de um lado para o outro, ao sabor da correnteza e das pedras no leito e eu, hipnotizado, acompanhava aquela visão sobre o selim da minha bicicleta, maravilhado com aquela jangada mágica progredindo em seu trajeto como um bicho aquático. Toda vez que uma quina batia na margem ou em algo mais elevado no leito do riozinho, ele girava devagar, dando a impressão de que ia encalhar, mas logo era empurrado pelos livros e documentos e fotografias e discos de 78 rotações e, sobretudo, corpos negros, e continuava descendo, até o momento em que finalmente colidiu com a bicicleta do Marcão e a levou consigo para o Tamanduateí, sem que os moleques pobres da Rua Cora tivessem tempo de laçá-la de volta.


Era começo do mês de abril. O pai do Marcão não o matou. Na verdade meu amigo foi muito exagerado a respeito da braveza do pai. Em minha opinião, era um senhor muito calmo e temente à sua esposa. O Marcão tinha tanta sorte que nem mesmo contraiu tifo, como aconteceu com o moleque da Rua Cora que havia morrido no ano passado. Só precisou tomar umas vacinas e nem resfriado apanhou. Quanto à bicicleta, desconfio que alguém deva ter conseguido pesca-la muito além, talvez já no Rio Tietê, pois depois do Marcão dá-la por perdida e ter voltado para casa, um monte de moleques saiu correndo e gritando pelas margens do Tamanduateí. De qualquer forma, nunca mais vimos sombra da aro 26 pelas redondezas. Para sua tristeza, Marcão agora teria que pedalar com a gente montado numa bicicleta aro 24. A minha ainda era a menor de todas, mas pelo menos era de menino.


São Paulo, 20 de outubro de 2019



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