• Guilherme Purvin

De olho no passado

Atualizado: 20 de jul.

- Guilherme Purvin -



Quando parecia que ligar o computador ou o celular para ler as notícias do dia era sintoma claro de masoquismo, de repente surge uma notícia espetacular: a NASA acabava de liberar as primeiras fotografias obtidas com o uso do Telescópio James Webb (TEJW).


O TEJW constitui um observatório espacial e foi lançado em dezembro de 2021 da Guiana Francesa, vizinha ao Estado do Amapá. Trata-se do mais poderoso telescópio espacial já construído e custou dez bilhões de dólares, isto é, o dobro de todo o Produto Interno Bruto do território ultramarino francês que faz a fronteira entre a União Europeia e o Mercosul, como bem destacava João Capeberibe.


As imagens são estonteantes e ultrapassam a nossa capacidade humana de compreensão. Hannah Arendt, em seu livro A Condição Humana, afirmava que as condições da existência humana (nossa vida, nascimento e morte, o próprio Planeta Terra) não podem explicar o que somos pela simples razão de que não nos condicionam de modo absoluto. E isto porque, de acordo com ela, "embora vivamos agora, e talvez tenhamos que viver sempre, sob condições terrenas, não somos mera criaturas terrenas. A moderna ciência natural deve os seus maiores triunfos ao fato de ter olhado e tratado a natureza terrena de um ponto de vista verdadeiramente universal, isto é, de um ponto de vista arquimediano escolhido, voluntária e explicitamente, fora da Terra".


As imagens do TEJW podem contribuir para aprofundar as especulações filosóficas e científicas sobre a nossa condição humana de seres únicos concebidos em circunstâncias únicas proporcionadas pelo Planeta Terra ou de seres virtualmente universais.


No entanto, diante das imagens do telescópio é forçoso pensarmos simultaneamente em nossa condição de seres cronologicamente situados num tempo determinado - o tempo que medeia o advento das condições propícias para o surgimento de vida e o momento final, que poderia ser a extinção final de nosso Sol transformado numa gigante vermelha que engoliria Mercúrio, Venus, Terra e Marte, os quatro planetas mais próximos; ou uma colisão de nosso planeta com um corpo espacial (como no filme Melancholia, de Lars Von Triers); mas, lamentavelmente, bem antes de qualquer um desses eventos, por ação do capitalismo ecocida. Poupo-me de comentar a hipótese do filme "Olhe para o alto", da Netflix - uma divertida sátira política e não mais do que isso.

É que o que vemos nas fotos não existe mais - as imagens são das radiações infravermelhas do que ocorreu há muitos milhares ou milhões de anos - uma época em que nem sequer existia o homo sapiens - eventualmente nem mesmo existia o próprio Planeta Terra...


Estamos, assim, olhando para o passado. Isso já acontece sem o uso de telescópio. A luz do sol que chega até a nós é a luz que havia há pouco mais de oito minutos. Ou seja, levou 8 minutos para que ela chegasse à Terra (8 minutos-luz de distância).


Quando, numa noite de céu límpido e sem poluição luminosa, olhamos para a Estrela de Magalhães, a mais luminosa da Constelação de Cruzeiro do Sul, estamos na verdade observando aquela estrela no ano de 1702, pois sua luz levou 320 anos para alcançar as nossas retinas.


Em que pese o fato de, desde nosso nascimento, termos à nossa disposição a maravilha da contemplação do passado no céu estrelado, perdemos o hábito de nossos antepassados, que enxergavam o gigante Orion, peixes, cães, virgens, Sagitário, Centauro e toda espécie de seres mitológicos e, dessa visão, criavam a narrativa de nossa humanidade. Os olhos estão voltados para as luzes que emanam de um objeto a menos de 50 centímetros, o écran do celular ou do computador. Não é à toa que, desacostumados da observação astronômica, perdemos também o hábito de olhar para o passado histórico e, irresponsavelmente, demos vida a monstruosidades políticas que acreditávamos terem desaparecido em 1945, com a 2ª Guerra Mundial. Nestas condições, contemplar as fotos divulgadas pela NASA constitui mais do que um deleite. Pode vir a ser o caminho para a superação da perspectiva de um horrendo antropoceno.

 

Guilherme Purvin é escritor, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Com Guian de Bastos, escreveu os romances "Batalha das Libélulas" e "Queda de Babilônia", dentre outros. Graduado em Letras e Direito pela USP, doutor em Direito Ambiental. Presidente do IBAP. Fundador e ex-coordenador geral da APRODAB. É editor da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares.

176 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Versão alternativa do capítulo 1 do romance A Igreja do Gigante Azul.