• Guilherme Purvin

O Aleph e o Paraíso Infantil

- Guilherme José Purvin de Figueiredo -



Meu olhar passeia pelas fileiras de livros espalhados nas estantes das salas. São livros preciosos, contam histórias imaginadas por outras pessoas que tinham provavelmente o costume de também olharem para as fileiras de seus livros – se não nas estantes de suas casas, ao menos nas bibliotecas que frequentaram em suas vidas. Cada livro deixa uma marca em nossa forma de sentir e de pensar o mundo e as pessoas à nossa volta.

Sou grato aos meus pais por deixarem ao alcance de minhas mãos os volumes ilustrados de Julio Verne – Viagem ao centro da terra, Cinco semanas em um balão, A volta ao mundo em oitenta dias, Vinte mil léguas submarinas. Mas sou ainda mais grato por haver ganho, ainda aos três ou quatro anos de idade, os três volumes da pequena enciclopédia Paraíso Infantil. Seus verbetes eram dispostos em forma alfabética, como um pequeno dicionário ilustrado. Os livros se perderam numa inundação, mas, no natal de 2019, minha irmã Ligia me presenteou com uma edição que encontrou num sebo virtual.


Graças a este presente, posso hoje abrir de novo estes volumes que tantas vezes eu li na mesa da cozinha, na hora do Nescau e do pão com manteiga. A primeira página da coleção já revela tudo o que virá pela frente: um elefante rasga as páginas de um livro aberto e, de dentro das folhas, saem uma locomotiva, um esquimó, um chimpanzé, um índio de filme americano, um guindaste, uma avestruz, um bobo-da-corte segurando um pedaço de pau. Ao alto, há um avião supersônico, um foguete e um balão, além de uma girafa que, de trás do livro, estica o pescoço para também ver o que há à frente. Diante dessa imagem surreal, há uma menina correndo e um menino, com as mãos para trás, olhando atentamente para os verbetes do livro.


Todos esses personagens, animais e meios de locomoção parecem ter existência própria, para além do próprio livro. Eles se libertaram do livro e agora são tridimensionais, muito embora a estampa seja ainda bidimensional. Esta ilusão é obtida por um artifício singelo: as páginas abertas do livro também estão ilustradas: vejo nelas um navio, um carro esporte verde com o símbolo da Mercedes Benz e, perto da menina leitora que corre, aparentemente um zepelim azul.


Não consigo entender por que motivo a menina corre. Será que está assustada com o elefante que rasgou as páginas do livro e caminha em direção de seu irmão? Seu braço direito está estendido, talvez ela queira alertá-lo: “Cuidado, mano, saia daí, porque o elefante poderá esmagá-lo”. No entanto, o menino permanece estático, impassível, e não posso crer que ele não esteja vendo que o elefante vem resolutamente em sua direção.


A forma como eram redigidos os verbetes, um linguajar que não era meu, que soava antiquado ou, no mínimo, diferente do que se falava no Brasil. Verifico agora, abrindo o primeiro volume da coleção, é que a obra original chamava-se Die Kinderwelt von A bis Z e era dirigida por três pessoas: Richard Bamberger, de Viena, Fritz Brunner, de Zurich e Fritz Westphal, de Hamburgo.


A versão que chegou ao Brasil e a Portugal (tenho em mãos a primeira edição, de 1960) é, na verdade, uma tradução da edição castelhana da obra alemã. Além disso, foi adaptada para o Brasil e Portugal por um certo Amadeu Castelo Lopes, cidadão português.


Numa breve busca pelo Google, encontro esse nome num site português chamado “Memorial aos presos e perseguidos políticos”. Só hoje, passados mais de 71 anos da prisão de Amadeu Castelo Lopes, ocorrida no dia 19 de setembro de 1942, pouco menos de quinze anos antes de meu nascimento, é que me dou conta deste fato: graças a um prisioneiro político do regime fascista português de Antonio de Oliveira Salazar, essa enciclopédia infantil havia chegado às minhas mãos.


Nada mais encontro a respeito desse enciclopedista a não ser essa informação, mas ela já é suficiente para imaginarmos o que foi a ditadura salazarista, capaz de perseguir pessoas que se dedicavam a adaptar verbetes de uma pequena enciclopédia idealizada por germanófonos que também deveriam estar sob a mira de outra ditadura – a nazista.


No Brasil, a coleção foi publicada pela Editorial Marin do Brasil, do Rio de Janeiro. Para celebrar o lançamento, Américo Jacobina Lacombe, homem com pé no estado novo getulista, por vinte e oito anos diretor da Casa de Rui Barbosa. Trata-se de um prefácio sem graça nenhuma, que mais afugenta a criança da leitura. Mas isso não era empecilho na minha infância. Todo o palavrório das primeiras páginas permaneceu ignorado até hoje – e descubro aqui que não perdi nada em pular aquelas páginas e ir direto para os verbetes. O primeiro deles é, simplesmente, a letra “A”: “É a primeira letra e a primeira vogal do nosso alfabeto. No alfabeto grego, o A chama-se alfa, no dos árabes, Álif e no dos hebreus Álef. O nosso alfabeto é o latino” – o que me remete novamente a Jorge Luis Borges.


No momento de inflexão do conto O Aleph, Carlos Argentino confia a Borges (o personagem que narra a história) “algo muito íntimo”: naquela casa onde estavam, “num ângulo do porão havia um Aleph. Esclareceu que um Aleph é um dos pontos do espaço que contém todos os pontos. ─ Está no porão da sala de jantar – explicou, com a dicção aligeirada pela angústia. ─ É meu, é meu; eu o descobri na infância, antes da idade escolar. A escada do porão é empinada, meus tios me haviam proibido de descer, mas alguém me disse que havia um mundo no porão. Referia-se, soube depois, a um baú, mas eu compreendi que havia um mundo. Desci secretamente, rolei pela escada proibida, caí. Ao abrir os olhos, vi o Aleph”. O Aleph, explica Carlos Argentino a Borges, é um lugar onde estão todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos. Difere da singularidade a partir da qual projetaram-se o tempo e o espaço com o big bang por um motivo básico: no Aleph, o tudo está presente sem se confundir. Penso eu que ele é uma espécie de buraco negro, capaz de concentrar toda matéria e energia do universo, mas sem aniquilar todas as construções culturais que a humanidade produziu a partir dessa matéria e energia.


Os volumes do Paraíso Infantil eram, na verdade, o meu Aleph e, a partir deles, eu ficava conhecendo pássaros misteriosos como a abadavina, a que também se chama tentilhão, lugre e pintassilgo verde, ou um abibe, ave do tamanho de uma codorniz que vive nas selvas da Nova Guiné, na Oceania. Ou ainda árvores como o abeto, que é uma conífera como o pinheiro, o lariço e o cipreste. Tudo isso apenas nas três primeiras páginas daquele volume.


São Paulo, 18 de maio de 2020

Guilherme Purvin é graduado em Direito e Letras pela USP. É autor dos livros "Laboratório de Manipulação" e "Sambas & Polonaises".

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